Cleitinho Azevedo acaba de fazer um movimento eleitoral que ajuda a explicar por que sua candidatura é tão difícil de enquadrar pelos adversários. O senador anunciou que votará a favor do fim da escala 6×1 e que pretende trabalhar para levar a proposta ao plenário do Senado ainda este ano.
Até aí, uma posição sobre relações de trabalho. O detalhe politicamente saboroso vem depois: Cleitinho discorda justamente de Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência que apoia. Flávio é contrário ao fim da escala e defende uma solução baseada em maior flexibilidade da jornada.
Cleitinho quer Flávio presidente, mas não pretende transformar a própria candidatura numa filial mineira do programa de Flávio.
E talvez esteja aí uma das principais vantagens eleitorais do senador.
Cleitinho descobriu uma fórmula bastante confortável: pode pedir o impeachment de Alexandre de Moraes numa terça-feira e, na quarta, defender uma pauta historicamente abraçada pela esquerda. Pode disputar o eleitor bolsonarista sem assinar contrato de fidelidade ideológica com o bolsonarismo.
Na defesa do fim da 6×1, aliás, usou uma frase construída sob medida para seu estilo político. Disse que parlamentar não teria autoridade moral para criticar trabalhador porque “a escala do político hoje é 2×5”, numa provocação sobre o ritmo de funcionamento do Congresso.
É Cleitinho em estado puro: uma questão complexa transformada numa frase simples, popular e facilmente compartilhável.
Pode-se discutir, e deve-se, o mérito econômico da mudança. O fim da escala 6×1 envolve produtividade, custo das empresas, geração de empregos, salários e diferenças enormes entre setores da economia. Não é assunto que possa ser resolvido apenas com uma boa frase para as redes sociais.
Mas eleitoralmente o movimento é inteligente.
Enquanto Flávio Roscoe precisa disputar o eleitorado de direita demonstrando sintonia com Flávio Bolsonaro, Cleitinho tenta ocupar um território muito maior. Conservador quando lhe interessa, bolsonarista em determinadas pautas institucionais e disposto a caminhar com a esquerda quando percebe aderência popular.
Para quem está à frente, a heterodoxia pode ser um luxo.
A liderança eleitoral está dando a Cleitinho autonomia para construir um programa à própria imagem. Ele não precisa caber completamente no bolsonarismo. Precisa apenas evitar que o bolsonarismo caiba completamente dentro da candidatura de Roscoe.
E deixa uma pergunta irresistível para a campanha mineira: afinal, sobre a escala 6×1, quem está certo — Cleitinho ou Flávio Bolsonaro?
A resposta interessa aos trabalhadores.
Mas o desconforto provocado pela pergunta interessa muito mais aos candidatos.