Brasília e Belo Horizonte oferecem nesta segunda-feira (07/09) duas imagens curiosamente complementares da política brasileira.
Na capital federal, discute-se quem abre a gaveta. Em Belo Horizonte, quem manda no palanque.
A divulgação das mensagens envolvendo Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro aumentou a pressão sobre Davi Alcolumbre para que o Senado examine os pedidos de impeachment contra integrantes do Supremo.
Mas surgiu agora um movimento institucional ainda mais importante dentro do próprio STF.
André Mendonça liberou para análise do plenário o relatório da Polícia Federal sobre o caso Moraes-Vorcaro. O material foi encaminhado para que o presidente da Corte, Edson Fachin, decida se e quando o assunto será submetido aos demais ministros.
É uma mudança relevante.
A crise deixa de depender exclusivamente de decisões individuais e pode obrigar o Supremo a enfrentar coletivamente uma pergunta desconfortável sobre um de seus próprios integrantes.
E isso é saudável. Examinar não significa condenar. Investigar não significa declarar culpa.
Da mesma maneira, no Senado, permitir a análise de um pedido de impeachment não significa cassar ministro algum.
Democracias maduras não resolvem problemas escondendo processos. Resolvem examinando-os.
Alcolumbre está sob pressão exatamente porque resiste a abrir essa discussão. Carlos Viana chegou a apresentar denúncia no Conselho de Ética do Senado questionando essa postura.
Há certa poesia involuntária em Brasília: cobra-se a abertura de processos por meio de um Conselho de Ética que praticamente também não funciona.
É a gaveta dentro da gaveta.
Mas Brasília já possui gavetas suficientes para ocupar o país durante semanas.
Enquanto isso na Praça da Liberdade…
Cleitinho Azevedo e Flávio Roscoe estarão no mesmo palco em uma manifestação identificada com o bolsonarismo, exatamente quando os dois disputam parcela expressiva do mesmo eleitorado.
E é aí que o 7 de Setembro ganha uma segunda eleição.
A primeira é nacional. Contra Lula, contra Alexandre de Moraes e contra aquilo que esse público identifica como excessos do atual arranjo institucional de Brasília.
A segunda é mineira. E nela Flávio Roscoe tem muito a ganhar.
Porque campanha eleitoral não é apenas pesquisa. Também é estrutura, identidade, organização, pertencimento e capacidade de contar ao eleitor uma história política compreensível.
E nisso Roscoe possui uma vantagem objetiva.
Ele é o candidato do PL. Está organicamente inserido no grupo político que mobiliza esse eleitorado. Tem o apoio partidário de Flávio Bolsonaro. Tem ao seu redor lideranças importantes da direita mineira, tem Nikolas Ferreira.
Pode parecer apenas engenharia partidária. Não é.
Em eleição majoritária, coerência de palanque tem valor.
Cleitinho vive situação diferente.
Tem hoje muito mais voto. Tem maior conhecimento eleitoral. Possui comunicação simples, popular e extremamente eficiente. Mas sua relação com o bolsonarismo é uma espécie de casamento com cláusula de independência.
Apoia Flávio Bolsonaro. Mas discorda quando lhe convém, na busca por votos..
Conversa com o eleitor bolsonarista, mas preserva autonomia.
Defende pautas do campo conservador e ao mesmo tempo adota posições que contrariam seu próprio candidato presidencial quando considera eleitoralmente necessário.
Agora, sobe ao palco de um movimento político cuja estrutura partidária possui outro candidato ao Governo de Minas.
É uma estratégia inteligente. Mas existe nela uma contradição bastante interessante.
Cleitinho quer o eleitor de Flávio Bolsonaro sem necessariamente carregar integralmente o projeto político de Flávio Bolsonaro.
Em termos de condomínio, gosta bastante da área de lazer, mas pretende manter certa liberdade na hora de pagar a taxa.
E é exatamente aí que Roscoe encontra sua oportunidade.
Até agora, sua candidatura enfrenta uma dificuldade objetiva: transformar identidade política em intenção de voto.
A manifestação oferece o ambiente perfeito para começar essa conversão. Roscoe estará diante exatamente do eleitor que precisa conquistar.
Não estará numa entrevista fria. Não estará numa reunião partidária e nem tentando explicar o que significa direita para quem ainda não decidiu se é de direita.
Estará cercado por um público que já compartilha boa parte de sua visão política.
Seu desafio será outro.
Mostrar que existe uma lógica eleitoral completa. A composição do voto com Flávio Bolsonaro para presidente e Flávio Roscoe para governador, além de contar com a presença, ao seu lado, de Nikolas Ferreira, a grande liderança popular desse campo em Minas.
É simples. E política eleitoral costuma gostar de histórias simples.
Cleitinho terá uma equação mais sofisticada para apresentar.
Apoia Flávio Bolsonaro para presidente, mas enfrenta o candidato do partido de Flávio para governador. Vai ao ato do mesmo grupo político, mas espera convencer aquele eleitor a não votar justamente no candidato oficialmente apresentado por esse grupo.
Pode funcionar.
Aliás, até agora tem funcionado, mas existe uma diferença importante entre popularidade e construção de poder político.
É isso que Roscoe precisa explorar. Ele não precisa tentar convencer o eleitor de que Cleitinho não pertence à direita. Seria inútil e provavelmente contraproducente.
Precisa fazer outra pergunta: se existe um projeto presidencial, por que não deveria existir também um projeto estadual coerente com ele?
Essa é sua melhor avenida eleitoral.
Por isso, a presença de Cleitinho no palco pode, paradoxalmente, ser boa para Roscoe.
Coloca os dois lado a lado, diante do mesmo eleitor e sob os mesmos símbolos.
Isso permite uma comparação que nenhum comercial eleitoral conseguiria produzir com a mesma naturalidade.
Será interessante observar menos os discursos e mais a geografia do palco.
Quem fica ao lado de quem. Quem Nikolas abraça. Quem recebe os maiores elogios. Quem aparece nas fotografias centrais. Quem é apresentado como parte de um projeto.
E, naturalmente, quem recebe o maior aplauso.
Medição de aplauso não é definição de votos, mas político nenhum pode desprezar decibéis.
Cleitinho chega à Praça da Liberdade carregando uma vantagem evidente: liderança nas pesquisas e popularidade.
Roscoe chega trazendo aquilo que pretende provar que também importa: partido, organização, lideranças e uma narrativa política estruturada.
A reta final da eleição
A eleição mineira começa a entrar exatamente nessa fase.
Pesquisas iniciais medem muito conhecimento, lembrança e personalidade. Uma campanha começa a introduzir outra variável: escolha.
Roscoe precisa convencer o eleitor conservador de algo bastante elementar.
Ele não precisa provar que é de direita. Isso já está resolvido.
Precisa convencer esse eleitor de que, se pretende entregar a Presidência a Flávio Bolsonaro, existe lógica em entregar Minas a um governador politicamente alinhado ao mesmo campo.
A manifestação de hoje é uma oportunidade importante para começar a cristalizar essa ideia,e Alexandre de Moraes, curiosamente, acaba servindo como personagem involuntário das duas histórias.
Em Brasília, o caso que o envolve começa a caminhar em direção ao plenário do próprio Supremo.
No Senado, cresce a pressão para que Alcolumbre permita que a Casa exerça suas competências.
Em Belo Horizonte, Moraes transforma-se também em elemento de mobilização de um eleitorado que pode decidir boa parte da eleição mineira.
A ironia da política
Enquanto Brasília começa a discutir como tirar um caso da gaveta, Minas começa a discutir quem consegue transformar um palanque em voto.
Cleitinho chega com a vantagem da pesquisa. Roscoe chega com a vantagem do projeto político organizado.
É uma disputa diferente, e talvez mais equilibrada do que a fotografia atual sugere.
Porque eleição não se ganha apenas sendo conhecido.
Ganha-se também convencendo o eleitor de que existe algo além do candidato.
Existe um grupo, estrutura, projeto, e, acima de tudo, existe uma direção.
O PL montou o palco. Cleitinho decidiu subir nele.
Mas, desta vez, o anfitrião é Flávio Roscoe. Resta fazer o eleitorado de direita compreender isso.
