Trabalhar até de madrugada em um bar ou shopping da capital mineira e não ter transporte público para voltar para casa; ver o faturamento de uma papelaria de bairro encolher diante de plataformas internacionais; ou fechar as portas mais cedo pelo medo da criminalidade. Esses gargalos do cotidiano de milhares de trabalhadores e empresários integram o Caderno de Propostas da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL/BH) direcionado aos candidatos ao Governo de Minas Gerais nas Eleições 2026.
O documento, construído de forma colaborativa com o Sistema CNDL como anexo ao Manifesto do Varejo 2026, funciona como um raio-X das engrenagens que travam ou impulsionam o maior empregador do estado. Responsável pela maior fatia do PIB mineiro, da arrecadação de impostos e da criação de postos de trabalho, o setor de comércio e serviços cobra compromissos firmes da futura gestão estadual em seis eixos estratégicos: mobilidade, segurança, tributação, educação, eficiência da gestão pública e desenvolvimento econômico.
O gargalo da madrugada
Para quem vive o dia a dia do varejo, a infraestrutura de transporte da região metropolitana de Belo Horizonte é decisiva para a circulação de riquezas. A principal reivindicação da entidade no setor de mobilidade é a ampliação da frota de ônibus metropolitanos no período noturno, aliada à extensão do horário do metrô nos dias úteis e operação 24 horas aos sábados.
A medida atende diretamente garçons, atendentes de shoppings, trabalhadores do setor cultural e de eventos que encerram o expediente mais tarde e enfrentam dificuldades para retornar para casa com tranquilidade.
Além do transporte de madrugada, o plano exige a unificação do sistema por meio do Bilhete Único Metropolitano, a implementação do pagamento por aproximação (NFC) nas catracas dos ônibus e o avanço de obras essenciais, como o transporte sobre trilhos (VLT ou Trem Expresso) ligando o metrô ao Aeroporto Internacional de Confins.
Educação e comércio local
No campo social e educacional, a CDL/BH propõe uma medida de forte impacto econômico para as comunidades: a criação do Auxílio-Educação. A proposta prevê a disponibilização de crédito para famílias de alunos da rede pública estadual comprarem material escolar exclusivamente no comércio local, no segmento de papelarias.
A iniciativa busca um duplo benefício: garantir materiais de qualidade para os estudantes e injetar recursos diretamente nas micro e pequenas empresas de cada bairro.
Paralelamente, o documento cobra o fortalecimento do ensino médio em tempo integral com formação técnica voltada especificamente para o comércio e serviços — incluindo cursos em gestão financeira, marketing, atendimento ao cliente e turismo.
Segurança nos corredores comerciais
A sensação de insegurança e os furtos em centros comerciais continuam figurando entre as principais queixas de lojistas e consumidores. Para conter os índices criminais, a entidade propõe a criação de uma Delegacia Especializada em Crimes Contra Estabelecimentos Comerciais no âmbito da Polícia Civil, acompanhada pelo reforço do patrulhamento preventivo da Polícia Militar em datas comemorativas de grande movimento financeiro.
O plano prevê ainda o uso de tecnologias avançadas — como reconhecimento facial, drones e inteligência artificial — e a criação de incentivos para integração de câmeras privadas de lojistas ao sistema público de videomonitoramento do Estado.
As travas tributárias
No campo fiscal, a entidade faz um alerta sobre a perda de competitividade frente ao e-commerce internacional. A CDL/BH defende a elevação do ICMS sobre compras do exterior de até US$ 50, buscando reestabelecer a isonomia tributária entre produtos importados e o varejo nacional.
Outro ponto crítico é a modernização do Conselho de Contribuintes de Minas Gerais (CCMG). A entidade exige que, em caso de empate em julgamentos tributários, o voto de qualidade seja decidido a favor do contribuinte — pondo fim ao desempate automático por representantes da Fazenda.
O pacote tributário inclui ainda a retomada da isenção de ICMS para capacetes e sua extensão a outros equipamentos de segurança para motociclistas (como luvas, botas e jaquetas), reduzindo custos de proteção em um setor onde o transporte sobre duas rodas é vital para a logística.
Infraestrutura política
Para dar peso político às demandas, a CDL/BH sugere a criação da Secretaria Estadual do Comércio e Serviços, dedicada a reduzir o custo de empreender e atuar como canal direto com o Poder Executivo.
O documento propõe também a instituição de um Fundo Garantidor Estadual para facilitar o acesso ao crédito e microcrédito para micro e pequenos empreendedores, o apoio estatal a grandes eventos (Carnaval, Natal e festivais), e a aprovação na Assembleia Legislativa da Política Estadual de Incentivo ao Comércio Varejista.
Com o documento protocolado, a expectativa do setor produtivo é ver como os candidatos ao Palácio Tiradentes incorporarão essas pautas em seus programas formais de governo.