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O que Cleitinho e Patrus não quiseram responder?

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Cleitinho e Patrus (Foto: Divulgação)

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Depois da sabatina de Mateus Simões, candidato do PSD ao governo de Minas, realizada na noite de ontem pela 98 News no 98 Talks e retransmitida pela Rede Mais, uma pergunta continuou me acompanhando no caminho de casa: por que Cleitinho Azevedo e Patrus Ananias não aceitaram participar das sabatinas da Rede 98?

A pergunta não nasce de preferência eleitoral nem de simpatia por este ou aquele candidato. Nasce de um fato objetivo, quatro candidatos compareceram e dois não compareceram.

Alexandre Kalil, Gabriel Azevedo, Flávio Roscoe e  Mateus Simões participaram das sabatinas individuais. Os quatro se sentaram diante dos entrevistadores e foram questionados sobre projetos, orçamento, prioridades e os problemas concretos de Minas Gerais.

Esse foi o objetivo perseguido pela linha editorial da Rede 98 e por todos os profissionais envolvidos na construção das sabatinas. 

Não era um espaço de lacração, ou cortes barulhentos para as redes sociais. O objetivo principal era discutir programas de governo. Saber como cada candidato pretende administrar um Estado endividado, melhorar a saúde, enfrentar os problemas da educação, recuperar estradas, atrair investimentos e fazer a máquina pública funcionar.

Não organizamos encontros para promover brigas ideológicas, fabricar lacração ou produzir vídeos barulhentos para alimentar os algoritmos. O propósito era outro: saber o que cada candidato pretende fazer caso seja eleito governador.

Perguntas elementares para quem deseja comandar um Estado com mais de 21 milhões de habitantes. E, talvez, esteja exatamente aí a resposta para as duas ausências.

Antes que alguém apressado tire conclusões precipitadas, não estou fazendo campanha para os quatro que compareceram.

O simples fato de Roscoe, Kalil, Gabriel e Mateus terem participado das sabatinas não os transforma automaticamente em bons candidatos, muito menos em bons governadores. Comparecer a uma entrevista não é certificado de competência, diploma de estadista nem passaporte para a Cidade Administrativa.

Eles aceitaram o convite, apresentaram suas respostas e se expuseram ao contraditório. Cabe agora a quem ouviu, assistiu ou acompanhou a repercussão nas plataformas da Rede 98 avaliar a qualidade das propostas, perceber as contradições e decidir se algum deles está preparado para governar Minas.

Por que Cleitinho Azevedo e Patrus Ananias não participaram?

Não conheço as decisões internas das campanhas e, por isso, não posso apresentar a motivação como fato. Seria leviano. Posso, entretanto, como jornalista e observador da política, fazer uma leitura sobre o comportamento dos dois candidatos.

Cleitinho e Patrus parecem preferir ambientes controlados pelas próprias campanhas. Espaços previsíveis, temas confortáveis, discursos preparados e risco reduzido de surgir aquela pergunta concreta que obriga o candidato a abandonar a promessa bonita e explicar como pretende realizá-la.

Cleitinho é reconhecidamente habilidoso nas redes sociais. Sabe identificar um problema, produzir uma denúncia, simplificar o assunto e transformá-lo em vídeo de grande alcance. É uma competência política e comunicacional inegável.

Mas governar Minas não é apenas aparecer diante de uma estrada esburacada. Governar é dizer quanto custará recuperá-la, de onde virá o dinheiro, quais trechos serão priorizados, que contratos serão firmados e qual despesa eventualmente perderá espaço no orçamento.

Da mesma forma, não basta denunciar a precariedade da saúde. É preciso explicar como reduzir filas, distribuir recursos, ampliar o atendimento regional e administrar uma rede complexa sem vender milagres que o caixa estadual não consegue pagar.

Patrus, por sua vez, possui uma extensa trajetória administrativa e política. Já foi prefeito de Belo Horizonte, ministro e deputado federal. Tem história, experiência e identidade pública. Mas experiência passada e memória afetiva não substituem um programa detalhado. Um candidato precisa apresentar metas, números, prazos e escolhas. Precisa explicar não apenas o mundo que gostaria de construir, mas como pretende construí-lo dentro da realidade financeira e administrativa de Minas Gerais.

Foi exatamente essa travessia que as sabatinas procuraram cobrar: a ponte entre a campanha e o governo; entre o discurso e o orçamento; entre a intenção generosa e a execução possível.

A ausência de Cleitinho e Patrus não significa, por si só, que eles não tenham propostas. Não faço essa afirmação. Mas a recusa deixa no ar uma pergunta incômoda: se os dois possuem projetos consistentes, por que evitaram justamente um espaço criado para apresentá-los e submetê-los ao contraditório?

Uma sabatina não é um favor que a Rede 98 presta ao candidato. Também não é um favor que o candidato presta à emissora. É uma prestação de contas antecipada ao eleitor.

A necessidade das respostas

Quem pede autorização para governar Minas precisa aceitar perguntas diretas sobre como pretende governar Minas. Não deveria aparecer apenas nos ambientes em que controla o assunto, o tempo, o enquadramento e o cenário.

Minas não será governada por vídeo viral, frase de efeito ou lembrança afetiva. Não se paga dívida com bordão. Não se recuperam estradas com boas intenções. Não se melhora a saúde com simbolismo. E não se transforma a educação apenas com uma bela declaração de compromisso.

Há ainda um detalhe revelador: até agora, as coordenações de Cleitinho e Patrus não apresentaram à Rede 98 uma explicação pública e convincente para as ausências. Poderiam alegar incompatibilidade de agenda, compromissos anteriormente marcados ou qualquer outra dificuldade objetiva. Poderiam até solicitar outra data.

Mas não houve esse movimento.

A linha editorial da 98

A Rede 98 tem como princípio receber seus convidados com respeito e cortesia, independentemente de partido ou posição ideológica. Direita, esquerda, centro, em cima ou embaixo: todos são recebidos como devem ser recebidos por um veículo de comunicação.

Isso não significa ausência de perguntas difíceis. Cortesia não é complacência. Educação não é submissão. Respeitar o entrevistado não significa poupar o candidato.

O jornalismo sério não agride, mas pergunta. Não persegue, mas confronta. Não faz campanha, mas cobra respostas.

Por isso, a provocação continua dirigida exclusivamente aos ausentes: Cleitinho Azevedo e Patrus Ananias, expliquem por que recusaram as sabatinas da Rede 98.

Reafirmo que não quero dizer que os quatro candidatos que participaram sejam melhores ou estejam mais preparados. Concluo apenas que eles aceitaram discutir publicamente seus projetos. Cleitinho e Patrus, até aqui, não.

A ausência propositadamente não responde às perguntas, e não comunica. E, numa eleição para o governo de Minas, fugir da conversa sobre projetos pode ser mais revelador do que qualquer discurso cuidadosamente ensaiado.

Quem pretende governar Minas precisa começar demonstrando que está preparado para responder às perguntas que preferiria evitar.

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Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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