O avião de Daniel Vorcaro parece ter virado uma versão aérea do velho Circular 02, tradicional ônibus de Belo Horizonte. A diferença é que, no ônibus, o passageiro paga a passagem, enfrenta o trânsito e, se estiver cheio, viaja em pé. No jatinho de Vorcaro, circulavam figurões da República em poltronas de couro, com serviço de bordo e uma conveniência política que só agora começa a aparecer no painel de embarque.
Mais um passageiro ilustre
A mais nova ficha dessa viagem foi revelada. Em janeiro de 2025, Flávio Bolsonaro retornou de Fort Lauderdale para Brasília no jato de prefixo PP-NLR, acompanhado da mulher, Fernanda Bolsonaro, das duas filhas e do advogado Willer Tomaz. Naquele momento, uma das três cotas da aeronave pertencia à Prime You, empresa que tinha Daniel Vorcaro como sócio. Outra cota era de uma empresa de Willer Tomaz, que disse oferecer caronas gratuitas a amigos quando havia lugares disponíveis. Flávio e Vorcaro não responderam às perguntas da reportagem.
A viagem, isoladamente, não prova crime, favorecimento ou contrapartida. Carona não é confissão, avião não é tornozeleira e proximidade não substitui prova. Mas, na República das coincidências sucessivas, chega uma hora em que o excesso de coincidências começa a exigir uma credulidade do tamanho da pista do Aeroporto de Confins.
O mesmo “jatinho”
O PP-NLR é o mesmo Legacy 650 do qual Alexandre de Moraes e sua mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes, foram filmados desembarcando em agosto de 2025. O escritório de Viviane afirmou que as viagens foram contratadas como serviço de táxi aéreo, sem vínculo pessoal com os donos da aeronave e sem a presença de Vorcaro. A explicação formal pode até estar correta.
O problema é o contexto: o escritório mantinha um contrato de aproximadamente R$131 milhões com o Banco Master, e documentos obtidos pela Polícia Federal indicaram negociações para que cotas de um jato e de um helicóptero fossem usadas como pagamento em um segundo contrato, que o escritório afirma não ter sido aceito.
O jatinho, portanto, demonstrou notável vocação suprapartidária. Levou o ministro que se tornou um dos maiores antagonistas do bolsonarismo e também o filho do ex-presidente que fez da crítica a esse mesmo ministro uma bandeira eleitoral. É a união nacional patrocinada pela aviação executiva. Onde a política fracassou, o plano de voo triunfou.
Talvez esteja aí a maior contribuição de Daniel Vorcaro à harmonia entre os Poderes. Esquerda, direita, ministros, advogados, empresários e candidatos podem divergir diante das câmeras, mas, ao que parece, encontram uma rara zona de convergência quando surge uma poltrona disponível num Legacy 650.
Flávio Bolsonaro, aliás, não aparece agora pela primeira vez nas proximidades dos negócios de Vorcaro. O senador já admitiu que o banqueiro assumira o compromisso de patrocinar um filme sobre Jair Bolsonaro. Reportagens revelaram cobranças feitas por Flávio para que parcelas prometidas fossem pagas. Ele sustentou que se tratava de um patrocínio privado, sem dinheiro público e sem troca de favores. Essa relação anterior torna a viagem mais relevante politicamente, ainda que não permita, por si só, concluir que tenha existido ilegalidade.
Uma questão ética e de transparência
É justamente esse o ponto que os passageiros ilustres precisam compreender. O debate público não se limita à estreita pergunta sobre a ocorrência de um crime. Existe também a ética, a transparência e o dever de explicar por que tantas autoridades, familiares e operadores influentes aparecem gravitando em torno do mesmo banqueiro, das mesmas empresas e, agora, da mesma aeronave.
Quando a notícia era o voo de Alexandre de Moraes, o bolsonarismo explorou o episódio como evidência do relacionamento impróprio entre o ministro e o círculo de Vorcaro. Era uma cobrança legítima: autoridades devem esclarecer quem pagou, quanto custou, qual foi a finalidade e se existia algum conflito de interesses. Agora que Flávio Bolsonaro aparece na lista de passageiros, o padrão não pode mudar. Moralidade com embarque seletivo é apenas conveniência usando gravata.
Da mesma forma, os defensores de Moraes não podem usar o voo de Flávio como detergente para lavar as dúvidas anteriores. Um passageiro não absolve o outro. A presença do bolsonarista não torna irrelevante a viagem do ministro; apenas amplia o tamanho do problema. O avião não serve como instrumento de absolvição cruzada. Serve como retrato de uma elite política e jurídica que costuma circular pelos mesmos ambientes, embora em público finja viver em planetas diferentes.
O caso Master já revelou contatos, contratos, viagens, pagamentos a pessoas próximas de autoridades, encontros reservados e relações que atravessam vários gabinetes do Supremo.
Toffoli também voou
Dias Toffoli também viajou, em julho de 2025, numa aeronave de empresa que tinha Vorcaro como sócio. A PF identificou ainda mensagens e documentos envolvendo pessoas próximas de outros ministros, cada qual apresentando suas explicações e negativas.
É preciso evitar a condenação coletiva e a facilidade irresponsável de chamar toda relação de corrupção. Mas é igualmente irresponsável tratar cada episódio como se tivesse caído sozinho do céu, sem qualquer conexão com os demais.
Quando contratos milionários, patrocínios, encontros, hospedagens e aeronaves começam a se repetir em torno do mesmo personagem, a sociedade tem o direito de exigir uma investigação completa, e explicações menos econômicas que o combustível do jatinho.
O Circular 02 de Vorcaro parece ter percorrido todos os pontos estratégicos do poder brasileiro. Embarcou gente do Supremo, da política, dos negócios e das campanhas eleitorais. Só faltou mesmo passar pela Praça Sete, abrir a porta e o motorista anunciar.
“Última parada: República Brasileira. Quem não tiver explicação convincente, favor descer.”
