O trabalhador brasileiro merece mais tempo para viver. Merece acompanhar os filhos, estudar, descansar e chegar ao domingo com alguma coisa além de roupa para lavar e cansaço acumulado. Justamente por isso, uma mudança na escala de trabalho, com tanta importância, exigia mais responsabilidade do que a oferecida pelo espetáculo eleitoral de Brasília. Transformar uma aspiração legítima em disputa por dividendos de campanha é uma forma particularmente cínica de explorar quem já trabalha demais.
O Senado aprovou, na quarta-feira, 14 de outubro, em dois turnos, a proposta que encerra a escala 6×1. Foram 75 votos favoráveis e um contrário, de Hamilton Mourão. O texto segue para promulgação e prevê dois dias de descanso remunerado, sem redução salarial, além da diminuição progressiva da jornada máxima de 44 para 40 horas semanais. A mudança, portanto, não entrou em vigor com o encerramento da votação.
A quase unanimidade impressiona. Mas um placar elástico não dispensa perguntas incômodas. Tantos parlamentares chegaram à mesma conclusão econômica ou apenas fizeram a mesma conta eleitoral?
Quando até quem aponta defeitos no texto prefere aprová-lo para discutir correções depois, o cidadão tem motivos para desconfiar. Legislar primeiro e consertar depois é uma maneira de transferir os riscos para quem está fora do plenário.
A convicção entrou de folga
Flávio Bolsonaro votou a favor depois de classificar a proposta como oportunista e eleitoreira. Mudanças de posição podem ser legítimas. Exigem, porém, explicação proporcional ao tamanho da mudança. Se os riscos apontados permanecem, por que aprovar? Se foram superados, quais argumentos resolveram as dúvidas? O eleitor merece conhecer o raciocínio. O voto sozinho não o substitui.
Lula, por sua vez, encontra na aprovação uma vitrine poderosa para a campanha. O benefício político não invalida o direito reivindicado pelos trabalhadores, mas também não concede ao governo licença para apresentar apenas o lado agradável da equação. Quem promete uma transformação precisa explicar sua execução. Dizer quem ganha é fácil. Demonstrar como sustentar o ganho é obrigação de quem governa.
Davi Alcolumbre conduziu a votação com calendário especial: o plenário dispensou as três sessões de discussão do segundo turno. A agilidade da pauta integra as articulações em torno de sua recondução à presidência do Senado. A coincidência merece escrutínio: o descanso do trabalhador rende discursos; a permanência no comando da Casa movimenta os bastidores.
O empresariado perdeu a conversa
A crítica também alcança as lideranças empresariais. Sua derrota política não pode ser explicada apenas pela habilidade dos adversários. Se a defesa da sustentabilidade dos negócios não convence quem depende deles para trabalhar, existe um problema de representação e de comunicação que nenhuma nota indignada resolve.
Uma liderança à altura do desafio deveria apresentar propostas de transição, diferenças entre setores, possibilidades de negociação e medidas para elevar a produtividade. Teriam que ser apresentadas mais que notas oficiais.
Ao mesmo tempo, a empresa pequena não pode ser tratada como se tivesse o caixa de uma multinacional. Um restaurante, uma padaria ou uma loja precisam cobrir horários concretos, com receitas e margens limitadas. Reduzir horas sem reduzir salários exige reorganização. Dependendo da atividade, pode exigir contratação, investimento ou reajuste de preços. A intensidade desses efeitos precisa ser demonstrada, não escondida nem inflada, porque no fim das contas quem paga a conta é o pagador de impostos. Todos nós.
Nem milagre, nem apocalipse
Economia não obedece a torcida organizada, de nenhum dos lados.
O fracasso das lideranças está em permitir que uma discussão sobre trabalho, renda e qualidade de vida seja comprimida entre a promessa de felicidade por decreto e o anúncio do apocalipse empresarial. Nesse duelo, a nuance perde a eleição antes mesmo de pedir a palavra.
O Brasil precisa produzir mais e permitir que as pessoas vivam melhor. Conciliar essas exigências dá trabalho, exige coragem e raramente cabe num vídeo de campanha. Por isso mesmo, deveria ocupar o centro da política.
O trabalhador merece descanso. O eleitor merece explicações. E quem aprovou a mudança merece ser cobrado quando os aplausos terminarem. Porque, em Brasília, a paternidade da promessa tem fila. A responsabilidade pela execução costuma amanhecer órfã.
