O atual período chuvoso em Minas Gerais aumenta a preocupação de moradores do Vale dos Cristais, em Nova Lima, com a lama que sai de um empreendimento imobiliário de luxo e atinge a Avenida das Constelações. Novos vídeos recebidos pela Rede 98 mostram uma grande quantidade de barro avançando sobre a via, em uma das chuvas de outubro.
A reportagem da Rede 98 esteve na região e ouviu moradoras que relatam transtornos recorrentes, inclusive em dias de chuva leve.
O problema envolve o Green Valley, empreendimento da Patrimar que está com as obras paralisadas. Segundo as moradoras, a terra que desce do terreno se acumula em pontos da avenida, dificulta a passagem de veículos e chega aos bueiros. Elas também demonstram preocupação com os efeitos do material sobre o sistema de drenagem da região.
A médica Marina Cerqueira mora no Vale dos Cristais há quase cinco anos e conta que a situação se repete a cada chuva.
“Cada dia que chove, eu vejo enxurradas de lama escorrendo pela rua, que está indo tudo para dentro dos bueiros. Muito em breve, provavelmente, esse assoreamento vai estar cada vez pior. A gente não sabe como vai estar a estrutura. Tem dia que é difícil o carro passar. Então, assim, é um transtorno”, relata.
A moradora ressalta que o problema não se restringe aos dias de temporal e relaciona o volume de barro à retirada da vegetação na área do empreendimento.
“Isso eu estou falando só de dia de chuva, e não de dia de temporal. É dia de chuva simples. Eles já fizeram uma grande destruição da vegetação que, infelizmente, só foi paralisada depois que muita coisa já tinha sido destruída. E aí esse barro todo, essa terra toda vai descendo porque está sem proteção”, afirma.
Marina também cobra o cumprimento das medidas necessárias para preservar o ambiente durante a execução de obras.
“Tem que fazer o mínimo para preservar o que é necessário, o que está dentro da lei, o que a gente precisa cumprir. E não é o que a gente vê com essa obra daqui”, diz.
Lama dificulta circulação na avenida
Arquiteta e moradora da região há 16 anos, Graziela Costa também relata dificuldades para circular pela Avenida das Constelações. Ela afirma que as chuvas recentes estão mais fortes do que em outros períodos que vivenciou no local e destaca o volume de lama que chega à via.
“As chuvas estão muito fortes, está realmente diferente de todo período que eu moro aqui. Realmente está muito diferente, está muito forte, e a lama que vem dessa obra é impressionante, é surreal”, afirma.
Segundo Graziela, o barro atravessa a avenida e se acumula na rotatória, que fica na parte baixa do bairro.
“A lama vem no meio da avenida e desce de forma muito forte. Ela fica parada lá no meio da rotatória que a gente tem que subir. Então, forma como se fosse uma lama alta, que fica muito difícil a passagem dos veículos”, relata.
Por que a obra está paralisada?
O Green Valley é alvo de questionamentos ambientais e judiciais. Em abril de 2026, a Justiça de Nova Lima determinou a suspensão das obras após uma ação que apontou possíveis problemas relacionados ao licenciamento ambiental, à retirada de vegetação e à movimentação de terra. Dias depois, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais autorizou a retomada das atividades.
Posteriormente, a obra voltou a ser paralisada por um acordo entre a Patrimar e o Ministério Público de Minas Gerais, enquanto diligências sobre o empreendimento seguem em andamento. A suspensão foi confirmada pela construtora, que informou não haver obras ou intervenções físicas no terreno naquele momento.
Defesa Civil alerta para eventos extremos em Minas
Os relatos ocorrem em um cenário de atenção para os próximos meses. A Defesa Civil estadual alertou para a possibilidade de eventos climáticos extremos em Minas Gerais, em meio às projeções relacionadas ao fenômeno El Niño. Episódios de chuva intensa podem aumentar o risco de enxurradas e deslizamentos, especialmente em áreas vulneráveis.
O que diz a Patrimar
Procurada pela Rede 98, a Patrimar enviou a seguinte nota:
“Esclarecemos que não há registro de ocorrência recente relacionada à descrição da reclamação.
Reiteramos nosso cumprimento das normas aplicáveis e nosso compromisso com o bem-estar da vizinhança no entorno de nossas obras.
Também permanecemos abertos ao diálogo e à disposição dos moradores para receber relatos e informações que possam contribuir para a apuração dos casos, pelo e-mail [email protected].”
A empresa afirma não ter registro de ocorrência recente relacionada à reclamação, mas não nega expressamente que a lama tenha atingido a avenida. A Rede 98 também questionou quais medidas estão sendo adotadas para conter o barro e minimizar os impactos das chuvas. Na resposta encaminhada, a Patrimar não detalhou ações específicas de mitigação.