Parte da direita mineira parece ter encontrado uma explicação bastante confortável para a derrota de Flávio Bolsonaro no estado. Para eles faltou empenho dos outros. Cleitinho e seu vice, Luís Eduardo Falcão, entraram na lista dos culpados por não terem, na avaliação de integrantes do PL, trabalhado decisivamente pelo candidato da direita no segundo turno. É o conhecido inventário da derrota: antes de examinar os próprios erros, procura-se alguém para receber a fatura.
A executiva estadual e alguns deputados do PL cobram da dupla uma participação mais intensa na campanha. Houve apoio declarado e presença em atos, mas, para esses críticos, faltou mobilização. É uma avaliação política, não uma demonstração de que o resultado teria sido diferente se o governador eleito tivesse passado mais horas no palanque. O eleitor, convém lembrar, não é patrimônio transferível de candidato.
A aproximação do governo Lula
Ao hostilizar Cleitinho e Falcão, parte da direita favorece justamente a aproximação que provavelmente gostaria de impedir, a do futuro governo mineiro com Lula. Quem fecha a porta de um lado ajuda a tornar mais atraente a porta aberta do outro.
Não se trata de anunciar uma conversão ideológica de Cleitinho, muito menos uma aliança consumada com o PT. Trata-se de reconhecer um incentivo político evidente. Um governador pressionado pelas contas e cobrado por antigos companheiros de campo tende a valorizar interlocutores que ofereçam caminhos para governar. A aritmética do caixa costuma falar mais alto que a gritaria das redes.
Deputados do PT e até o ministro Alexandre Silveira já se dispõe a intermediar o diálogo entre o governador eleito e o presidente reeleito. Para eles existe a clara disposição do governo federal em aceitar uma revisão do Propag. Essa coluna conversou com pessoas próximas à senadora eleita Marília Campos, que, segundo esses interlocutores, se dispõe a colaborar nessa ponte entre o governo federal e o governo mineiro.
A oferta merece ser recebida com seriedade e cobrada com rigor. O governo Lula precisa explicar o que pretende rever, por qual instrumento e com qual efeito sobre as prestações. Cleitinho precisa apresentar sua proposta, demonstrar sua viabilidade e dizer o que Minas oferece em contrapartida. Uma aproximação com Brasília pode melhorar o ambiente. Mas, para melhorar o orçamento, será preciso mais que um aperto de mãos.
A urgência mineira
A proposta orçamentária estadual prevê déficit de aproximadamente R$ 10,5 bilhões em 2027. Minas já ofereceu R$ 35,8 bilhões em ativos à União, cuja aceitação ainda depende de decisão federal. Bens apresentados para negociação não equivalem a dívida já abatida. Entre a intenção e o alívio financeiro existe uma travessia que precisa ser explicada.
O governador Mateus Simões, por sua vez, desejou “boa sorte” a Cleitinho na renegociação com Lula e argumentou que não vê como melhorar uma dívida com juros zero. O ceticismo de Mateus pode ser legítimo, porém precisa vir acompanhado de informação. Até agora quais alternativas foram examinadas? Quais pedidos foram recusados? Quais pendências dependem de Brasília? A transição exige documentos, valores e cenários. A ironia pode render manchete, mas não paga fornecedores.
Também é necessário evitar que o debate seja reduzido a uma única taxa. Uma negociação envolve o peso das parcelas no caixa, o tratamento dos ativos e os compromissos assumidos. E qualquer solução precisa respeitar as regras e seus efeitos sobre as contas públicas. Minas não ganhará estabilidade trocando uma promessa de campanha por outra promessa, agora acompanhada de café no Planalto.
Há obrigações dos dois lados. Lula deve tratar Minas como parte da Federação, sem transformar a cooperação em recompensa por adesão política, como insinuou em sua fala de campanha em Juiz de Fora.
Cleitinho deve procurar o presidente com autonomia, disposição para negociar e responsabilidade fiscal. Discordar do governo federal não impede uma conversa institucional. Conversar tampouco dispensa o futuro governador de enfrentar despesas e escolhas difíceis dentro de casa.
Uma visão pragmática da realidade
A direita que exige fidelidade permanente ao palanque deveria compreender isso. E os aliados de Lula, agora dispostos a construir pontes, terão de aceitar que um acordo republicano não compra silêncio nem apoio automático. O cidadão não pode ficar espremido entre a cobrança de lealdade de um grupo e a cobrança de gratidão de outro.
O abandono político de parte da direita pode aproximar Lula de Cleitinho. Se dessa aproximação surgir uma solução responsável, Minas terá a ganhar. O teste será feito com propostas, prazos e resultados verificáveis. Porque o mineiro já paga uma dívida pesada demais para ainda ter de arcar com os juros da vaidade.
