O Ibovespa bateu recorde e fechou acima dos 166 mil pontos pela primeira vez. Na análise do economista Gustavo Andrade, o movimento reflete muito mais uma dinâmica de fluxo global de capitais do que uma melhora consistente dos fundamentos macroeconômicos domésticos. A alta está inserida em um processo de diversificação e reclassificação internacional de portfólios, intensificado desde o ano passado, à medida que investidores passaram a questionar a concentração de recursos nos Estados Unidos. Nesse contexto, mercados emergentes, entre eles o Brasil, têm se beneficiado de forma relevante desse redirecionamento de capital.
Segundo Andrade, esse fator externo tem sido mais determinante para a valorização da Bolsa brasileira do que as idiossincrasias locais, que seguem desafiadoras ao longo do tempo. “Esse movimento tem sido muito mais preponderante do que necessariamente as nossas condições macroeconômicas internas”, afirma. Ainda assim, o avanço do mercado não se explica apenas pelo fluxo. Há também um componente microeconômico relevante, ligado ao comportamento das empresas listadas, que hoje operam em condições mais favoráveis do que em ciclos anteriores.
Após um longo período de ajuste, muitas companhias melhoraram a alocação de capital, alongaram dívidas e aumentaram a eficiência operacional, mesmo em um ambiente de custo de capital elevado. Para o economista, “as empresas estão em uma situação muito mais positiva do que estiveram ao longo do tempo, fruto de uma preparação bem feita do management e de decisões mais racionais de capital”.
A composição do próprio Ibovespa ajuda a explicar o rali recente. O índice é fortemente concentrado em bancos e empresas de commodities, setores com peso elevado na formação do resultado. Gustavo usa o exemplo da valorização da Vale. Impulsionada por fatores macroeconômicos e geopolíticos ligados à importância estratégica das commodities e à alta de preços, responde por parcela significativa do desempenho do índice. “Quase 30% da alta do Ibovespa neste ano pode ser explicada apenas pelo movimento da Vale”, observa o economista.
No setor financeiro, o desempenho é desigual. Há bancos com resultados muito sólidos e outros com dificuldades, o que reforça a leitura de que a alta do índice ocorre por blocos específicos, e não de forma generalizada. O mesmo se repete entre exportadoras e empresas ligadas a commodities, com vencedores e perdedores claros dentro de um mesmo setor.
Outro fator que favorece o movimento é o posicionamento técnico ainda leve dos investidores. Institucionais e pessoas físicas seguem pouco alocados em Bolsa, em parte como reflexo das perdas acumuladas em ciclos anteriores. Nesse cenário, qualquer entrada adicional de recursos tem impacto relevante nos preços. Andrade destaca que “quando o posicionamento está leve, cada novo fluxo faz muito preço”, citando estimativas de grandes bancos internacionais que ainda apontam espaço para entrada adicional de capital estrangeiro no mercado brasileiro.
Além disso, as próprias empresas passaram a exercer papel relevante como compradoras marginais por meio de programas de recompra de ações, o que reforça a sustentação dos preços. A antecipação de dividendos no fim do ano passado, motivada por mudanças na tributação, também contribuiu para a valorização da Bolsa naquele período.
