A imagem de uma criança fantasiada pulando Carnaval parece inofensiva e gera “curtidas” imediatas. No entanto, autoridades e especialistas em segurança digital emitem um alerta rigoroso para 2026: a exposição nas redes sociais pode transformar a alegria em alvo para criminosos.
Maurício Cunha, presidente da organização social internacional Childfund Brasil e pesquisador em políticas públicas, adverte que o Carnaval é um período de “hipervulnerabilidade”. Segundo ele, o risco não está apenas no contato físico nas ruas, mas na pegada digital que os pais criam para os filhos.
Cunha concedeu entrevista à Agência Brasil a respeito do assunto. Confira abaixo os principais pontos.
Escudo Digital da Criança
Guia prático para pais e responsáveis neste Carnaval
- Não poste fotos em tempo real: Isso revela a localização exata da criança para criminosos.
- Cuidado com uniformes: Jamais poste fotos onde apareçam logos de escolas ou endereços visíveis.
- Nudez ou semi-nudez: Fotos de banho ou troca de roupa, mesmo que “inocentes”, são alvos de redes de pedofilia.
- Desative a Geolocalização: Ajuste a câmera do celular para não salvar onde a foto foi tirada.
- Controle Parental: Instale apps que monitoram e limitam o tempo de tela e conteúdo.
- Diálogo Aberto: Oriente a criança a não responder mensagens de estranhos, mesmo em jogos online.
Denúncia anônima, gratuita e 24h.
Risco invisível: por que não postar?
A recomendação de “evitar postagens” baseia-se em três ameaças concretas que evoluíram com a tecnologia:
Geolocalização e rotina: Fotos publicadas em tempo real (“Stories” ou “Lives”) revelam a localização exata da criança. Criminosos utilizam metadados das imagens ou pontos de referência visuais para rastrear hábitos e locais frequentados pela família.
Manipulação por IA: Com o avanço da Inteligência Artificial, uma foto simples de rosto pode ser capturada e manipulada para criar vídeos falsos (deepfakes) de conteúdo pornográfico.
Redes de exploração: “A imagem dessa criança pode ficar eternamente na internet e compartilhada em redes de pedofilia”, explica Cunha. O que é fofo para a família pode ser “mercadoria” em fóruns criminosos.
O tamanho do problema
Os dados comprovam que a preocupação não é exagerada. O Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos, revelou um cenário crítico:
Explosão de casos: No Carnaval de 2024, foram registradas mais de 26 mil denúncias de violações contra crianças e adolescentes.
Crescimento: Esse número representou um aumento de 38% em relação ao ano anterior.
Uma pesquisa paralela da ChildFund, ouvindo 8 mil adolescentes, trouxe um dado ainda mais alarmante sobre o ambiente virtual: 54% dos entrevistados afirmaram já ter sofrido algum tipo de violência sexual online.
‘Paradoxo da confiança’
Um dos pontos mais delicados abordados pelo especialista é a quebra de tabus sobre quem comete a violência. Ao contrário do senso comum, o perigo raramente vem de um “desconhecido na esquina”.
- 85% das violações são cometidas por pessoas de confiança da família ou da criança.
- 90% dos casos ocorrem em ambientes domiciliares ou familiares.
Adultização e riscos físicos
Além do digital, o Senado debate nesta quinta-feira (12/2) a “adultização” e a erotização precoce. Vestir crianças com fantasias que sexualizam seus corpos ou expô-las a músicas e ambientes impróprios para a idade são violações do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). O período também registra alta em casos de trabalho infantil (venda de produtos em blocos) e desaparecimentos momentâneos em aglomerações.
