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Minas vira peça nacional no xadrez da direita

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Minas vira peça importante no xadrez político (Foto: Pixabay)

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A política mineira adora se vender como prudente, silenciosa e cheia de sutilezas. Mas, no fundo, também sabe ser explícita quando quer. A ascensão de Álvaro Damião ao comando político da federação União Progressista em Minas, anunciada por Antônio Rueda em Belo Horizonte, tem menos efeito de terremoto e mais efeito de carimbo. Não inaugura propriamente um novo arranjo; oficializa um desenho que já vinha sendo montado nos bastidores entre Damião, Marcelo Aro e Mateus Simões. O gesto é importante, sim, mas pelo que revela, não pelo que transforma. Ele confirma que União Brasil e Progressistas caminham para o mesmo campo na disputa pelo governo de Minas.

Isso significa que a engrenagem já estava rodando. O anúncio apenas acendeu a luz do palco.

Isso ajuda a entender um ponto central da sucessão mineira de 2026. O bloco governista de direita e centro-direita começa a ganhar contorno mais nítido em torno de Mateus Simões. Ele não aparece apenas como sucessor administrativo de Romeu Zema, mas como o nome capaz de reunir parte relevante das estruturas partidárias que orbitam o atual grupo de poder em Minas. A federação comandada politicamente por Álvaro Damião reforça esse caminho, mas não cria a rota. A rota já estava traçada.

O ponto realmente interessante, porém, está em outro lugar. O jogo mineiro deixou de ser apenas mineiro. E é aí que a história fica mais séria.

Zema desmente a saída do Novo

Romeu Zema veio a público nesta terça-feira, 24 de março, para negar que esteja deixando o Novo e para reiterar sua pré-candidatura à Presidência da República. A negativa tenta conter rumores de migração partidária justamente no momento em que o tabuleiro nacional da direita voltou a se mexer com mais força. A saída de Ratinho Júnior da corrida presidencial pelo PSD reabriu especulações sobre novas composições, e Zema tratou de reafirmar que, ao menos publicamente, continua onde está e segue no páreo nacional.

Mas a política, como se sabe, nem sempre acontece na frase oficial. Muitas vezes ela mora no “apesar disso”.

E apesar da negativa pública de Zema, já se sabe que há conversas entre ele, Gilberto Kassab e o PSD a respeito de um entendimento político mais amplo. Em entrevista concedida em 13 de março, quando da filiação de Mateus Simões ao PSD, o então governador afirmou de maneira clara que havia uma costura com Kassab e com Mateus Simões, baseada em apoio mútuo. Ele, pela lógica, apoiaria Simões em Minas, e Simões apoiaria seu projeto presidencial. Essa declaração é crucial porque mostra que a sucessão estadual e a candidatura nacional não estão sendo tratadas como trilhas separadas, mas como partes de uma mesma negociação.

A partir daí, o quadro ganha outra escala. Mateus Simões deixa de ser apenas o herdeiro do governo em Minas. Passa a ser também peça de uma engenharia nacional da direita. Seu palanque estadual interessa não só ao grupo mineiro, mas à tentativa de organizar um campo mais amplo para a disputa presidencial. A presença de Kassab nesse roteiro, portanto, não é figurativa. É estrutural. O PSD quer influenciar a montagem do tabuleiro mineiro porque sabe que Minas pesa demais para qualquer projeto nacional minimamente sério.

É nesse contexto que começam a circular, com mais intensidade, as hipóteses sobre o desenho da chapa presidencial da centro-direita e direita. Com Ratinho Júnior fora da disputa do PSD, Ronaldo Caiado ganhou força dentro do partido. O movimento foi relatado por diferentes veículos nesta terça-feira, 24 de março. E é justamente nesse cenário que cresce a especulação sobre uma eventual composição com Caiado na cabeça de chapa e Zema como vice, ou ao menos como parte relevante de uma aliança nacional articulada entre PSD e Novo. Até aqui, nada disso está fechado. É possibilidade, não definição. Mas em política, quando a hipótese passa a circular com insistência, é porque já existe conversa, cálculo e interesse.

Palanque mineiro pode virar palanque nacional

Esse é o ponto que realmente muda a leitura da eleição em Minas. O estado passa a ser menos um cenário isolado de sucessão e mais uma peça de barganha nacional. O palanque de Mateus Simões pode servir de base regional para um projeto presidencial de Zema, ou para uma composição mais ampla em que Zema entre como ativo de articulação ao lado de outro nome, como Caiado.Minas virou moeda forte no balcão da direita brasileira. E quando um estado entra nessa condição, a campanha local deixa de ser só disputa por governo; vira capítulo de uma costura maior de poder.

A difícil unidade da direita em Minas

O problema é que, enquanto as cúpulas tentam desenhar racionalidade estratégica, a base real da direita continua longe de qualquer serenidade monástica. Para Mateus fechar o pacote da direita e da centro-direita em Minas, ainda faltam duas peças: Cleitinho Azevedo e Nikolas Ferreira. Cleitinho porque fala com um eleitorado popular, intuitivo, antissistema, pouco seduzido por discurso técnico de continuidade administrativa. Nikolas porque encarna a tropa ideológica, digital e bolsonarista, aquela que não apenas vota, mas pressiona, milita, enquadra e cobra pureza doutrinária. Sem esses dois polos, Mateus pode até ter estrutura; mas não terá hegemonia plena dentro do campo conservador. Essa leitura é uma inferência política a partir dos movimentos partidários já relatados publicamente.

Blitz para convencer Cleitinho

Daí a tentativa de setores da direita de convencer Cleitinho a abandonar uma candidatura própria ao governo. A lógica é evidente, eleição majoritária não costuma premiar vaidades simultâneas dentro do mesmo campo ideológico. Quando há nomes demais para o mesmo eleitor, o resultado costuma ser fragmentação. E fragmentação é uma palavra bonita para desorganização competitiva. Todo grupo político sabe disso; alguns fingem não saber porque ainda estão embriagados com o espelho. Aqui, o espelho atende por ambição pessoal. E ambição, quando não aceita limite, vira serra elétrica em aliança.

Um caldeirão chamado PL

No PL, a confusão é ainda mais reveladora. De um lado, Valdemar da Costa Neto trabalha na lógica clássica do pragmatismo, ampliar a legenda, trazer novos nomes e aumentar densidade eleitoral. De outro, Nikolas Ferreira resiste a essa abertura mais ampla e prefere um partido de identidade mais fechada, mais ideológica, mais fiel ao bolsonarismo raiz. O conflito não é de temperamento. É de modelo. O que está em disputa é decidir se o PL quer ser um partido de massa ou uma seita eleitoral de convicção. E a direita mineira, goste ou não, terá de responder a essa pergunta.

Porque aí mora uma contradição central do campo conservador hoje. Ele quer ao mesmo tempo pureza e maioria. Quer coerência rígida e capilaridade ampla. Quer partido doutrinário e máquina eleitoral. Quer tudo. Mas política não é restaurante por quilo em que se monta o prato sem custo de contradição. Toda escolha produz perda. Partido muito aberto dilui identidade. Partido muito fechado reduz alcance. A direita mineira está espremida justamente entre essas duas tentações.

Os prováveis caminhos de Zema

Enquanto isso, Zema tenta fazer o movimento mais delicado de todos. Vender-se como presidenciável sem perder o comando simbólico da sucessão mineira. Quer ser ator nacional e, ao mesmo tempo, grande eleitor estadual. Quer sair do governo sem sair do controle do enredo. É uma operação ousada. Pode funcionar, mas não sem risco. Uma coisa é governar com a máquina, a caneta e a visibilidade do cargo. Outra, muito diferente, é transferir voto, disciplinar aliados, conter dissidências e seguir sendo obedecido depois de deixar a cadeira. 

No fim, o que a nomeação de Álvaro Damião explicita, o que a reafirmação presidencial de Zema confirma e o que as conversas de Kassab com o Novo sugerem é uma única coisa. A eleição mineira de 2026 já está nacionalizada. Minas deixou de ser apenas o território da continuidade de um governo. Virou peça estratégica da montagem presidencial da direita e da centro-direita. Mateus Simões é parte dessa engrenagem. Zema também. Caiado pode ser. Kassab comanda com olhos de lince. E o eleitor, mais uma vez, assiste a alianças sendo desenhadas menos por afinidade programática do que por cálculo de poder.

É legítimo? Sim. Política é composição. Mas convém não dourar demais a engrenagem. O que está em marcha não é uma epifania cívica nem uma súbita convergência de convicções. É uma tentativa de compatibilizar ambições, partidos, palanques e egos. A questão decisiva é saber se haverá maturidade para transformar esse arranjo em projeto coerente ou se tudo acabará, como tantas vezes no Brasil, em fotografia bonita e unidade de papel.

Até aqui, a direita mineira mostra força, capilaridade e apetite. Mas ainda não provou que tem disciplina. E política sem disciplina é como cavalgada em chão molhado: levanta lama e quase sempre termina com alguém no chão.

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Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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