No Brasil, o problema quase nunca começa no crime provado. Começa antes. Começa quando a autoridade pública perde a noção de limite. Quando já não basta ser honesto: é preciso também parecer honesto, agir com distância, cultivar pudor institucional. E é exatamente aí que o caso envolvendo ministros do STF, Daniel Vorcaro e a sucessão de explicações constrangedoras começa a apodrecer o ambiente público. Segundo uma reportagem publicada hoje, no Estadão, a família de Alexandre de Moraes ampliou em 266% seu patrimônio imobiliário desde 2017, passando a 17 imóveis avaliados em R$ 31,5 milhões; só nos últimos cinco anos, foram R$ 23,4 milhões em compras de imóveis, todos à vista, segundo registros de cartório obtidos pelo Estadão.
É preciso dizer com clareza: comprar imóvel não é crime. Enriquecer de maneira lícita não é crime. Ter patrimônio não é crime.
O ponto não é esse
Estamos falando da obrigação de transparência máxima que recai sobre quem veste toga na mais alta Corte do país. O ponto é que, quando cifras tão elevadas aparecem ao lado de relações profissionais, voos privados e negócios orbitando um escândalo financeiro, o cheiro que sobe não é de normalidade institucional. É de arrogância institucional. É de gente importante demais para perceber que a aparência de independência também faz parte da justiça.
Os aviõezinhos de Vorcaro
E o quadro fica ainda pior quando se juntam as viagens. Moraes negou ter viajado em aeronaves de Daniel Vorcaro e disse que as ilações são falsas; seu gabinete afirmou que ele jamais voou em avião do empresário, e o escritório Barci de Moraes declarou que contrata serviços de táxi aéreo, incluindo a Prime Aviation, sustentando que Vorcaro e Fabiano Zettel não estiveram presentes nos voos realizados por integrantes da banca.
Mas a crise não para aí: documentos publicados na imprensa apontam que Dias Toffoli fez ao menos três viagens de Brasília ao resort Tayayá, no Paraná, em aviões de empresários já depois da venda do empreendimento, sendo uma das aeronaves da Prime Aviation, empresa que tinha participação de Vorcaro.
Já Kassio Nunes Marques confirmou viagem com a esposa para Maceió, em novembro de 2025, em avião particular de empresa que administra bens de Vorcaro, com custos assumidos pela advogada Camilla Ewerton Ramos, que atua para o Banco Master em processo no STJ.
A defesa feita em juridiquês
Veja o retrato da decadência: um ministro nega; outro não se manifesta; um terceiro admite a viagem e a enquadra como compromisso social entre amigos; o tribunal recorre a notas, formalidades e tecnicalidades para tentar segurar a parede. Tudo isso pode até servir para uma defesa jurídica. Mas politicamente é devastador. Porque a sociedade não está olhando apenas para a legalidade nua e crua. Ela olha para algo mais elementar: decoro, prudência e distância de conveniência. E, nesse quesito, a cena é péssima.
No caso de Toffoli, o desgaste já transbordou tanto que ele deixou a relatoria do caso Master e depois se declarou suspeito para julgar a prisão de Vorcaro e também a ação sobre a CPI do banco, alegando motivo de foro íntimo. A própria investigação foi redistribuída a André Mendonça. E, segundo reportagem desta segunda-feira, tanto o STF quanto a PGR já trabalham com o dilema de como agir caso uma eventual delação de Vorcaro atinja Toffoli e Moraes. Traduzido do juridiquês para o português claro: a crise chegou a um ponto em que até quem deveria arbitrar o jogo virou parte do enredo.
É aí que entra o aspecto mais corrosivo de todos: o desespero de fingir tranquilidade. A Corte fala em vazamento criminoso, e, sim, Moraes e Gilmar Mendes criticaram publicamente os vazamentos. Nunes Marques fala em transparência e em suspeições previamente registradas para proteger a honra do Judiciário. Tudo muito solene, muito redondo, muito protocolar. Mas a liturgia, sozinha, já não dá conta de esconder a ferrugem. Quando a explicação vira rotina e a suspeição vira paisagem, a toga deixa de transmitir segurança e começa a transmitir blindagem.
O que mostram as pesquisas?
Levantamento AtlasIntel/Bloomberg mostrou, no fim de março, que 47% dos brasileiros veem o STF como “totalmente envolvido” no caso Master, e mais 10% o consideram “muito envolvido”. Em outra sondagem da mesma parceria, 66,1% disseram acreditar haver envolvimento direto de ministros do Supremo no caso.
Pode-se discutir a percepção pública, mas não dá para fingir que ela não existe. A credibilidade de uma Corte constitucional não se sustenta só em votos e despachos. Sustenta-se, acima de tudo, na confiança. E confiança, quando racha, não se recompõe com nota oficial.
A culpa não é das manchetes
Ninguém está falando aqui em sentença penal. Ninguém está decretando culpa por manchete. Mas há uma verdade dura, simples e inevitável: o STF se acostumou por tempo demais a exigir compostura dos outros sem perceber que também deve satisfações ao país. Ministro da Suprema Corte não pode viver como uma celebridade blindada, cercado de amigos influentes, voos de luxo, relações nebulosas e explicações tardias, e ainda esperar aplauso pela própria elegância. A República não precisa de ministros serenos na foto. Precisa de ministros irrepreensíveis na conduta.
Porque quando a mais alta Corte parece confortável demais em meio ao desconforto moral, o problema já não é apenas de imagem. É de regime. E, numa democracia, a toga não pode virar armadura contra o que pensa uma nação.
