Candidata ao Senado pelo PSOL, Áurea Carolina reforçou, durante sabatina na 98 News, a estratégia de formar uma dobradinha com a candidata do PT ao Senado, Marília Campos. Batizada de “Aurília” pelas campanhas, a parceria é apresentada pelas duas como uma alternativa de esquerda para as duas vagas ao Senado por Minas Gerais. O movimento de reforço vem a reboque da entrada de Aécio Neves (PSDB) na disputa pelo Senado e nos ecos de uma possível dobradinha intitulada “Marécio”, votos combinados entre Marília e o deputado federal.
Em 2026, cada eleitor mineiro poderá escolher dois candidatos ao Senado. Áurea afirmou que pretende dividir os votos com Marília e pediu que os eleitores não façam uma dobradinha com candidatos alinhados à direita. As candidaturas mais à direita que têm tido percentuais próximos a Áurea Carolina nas pesquisas de intenção de voto são de Domingos Sávio (PSDB), Marcelo Aro (PP), Carlos Viana (PSD) e Aécio Neves.
“A dobradinha Marília Campos e Áurea Carolina é real. Somos as duas candidatas do time do Lula”, afirmou.
Apesar de reconhecer diferenças entre as trajetórias das duas, Áurea disse que os perfis são complementares. Marília, que foi prefeita de Contagem por quatro mandatos, teria como uma de suas principais marcas a atuação municipalista. Já Áurea destacou como prioridades o combate à violência contra as mulheres, a cultura e o enfrentamento à mineração predatória.
A candidata também citou como exemplo uma lei de sua autoria, quando era vereadora de Belo Horizonte, que prioriza mulheres em situação de violência em políticas habitacionais. Segundo ela, a proposta deve ser ampliada para todo o país caso seja eleita para o Senado.
Impeachment de ministros
Áurea Carolina afirmou que, caso seja eleita para o Senado, não descarta a abertura de processos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A candidata, porém, disse que eventuais medidas devem ser baseadas em investigações rigorosas e seguir os limites previstos na Constituição.
“Se precisar abrir impeachment de ministro do STF, nós abriremos, com investigações rigorosas e corretas, porque ninguém está acima da lei”, afirmou.
Áurea disse que pretende exercer o mandato com base na Constituição e na defesa da democracia, sem abrir mão da possibilidade de responsabilização de autoridades caso sejam identificadas irregularidades.
Segurança pública
Na sabatina, Áurea defendeu a PEC da Segurança Pública apresentada pelo governo Lula e a criação de um Ministério da Segurança Pública para coordenar ações entre as diferentes forças policiais.
Ela também se posicionou de forma contundente a favor do uso de câmeras corporais por policiais militares. Para a candidata, agentes que se recusarem a utilizar o equipamento não deveriam permanecer na corporação.
“Quem não deve não teme. O mau policial que não quer usar a câmera não tem que trabalhar, ele tem que ser banido da Polícia Militar”, declarou.
Áurea afirmou que as câmeras podem ajudar na investigação de crimes, aumentar a confiabilidade da atuação policial e reduzir a letalidade. Na avaliação dela, o atual modelo de segurança pública brasileiro é excessivamente baseado em repressão e encarceramento.
Emendas Pix
Outro tema abordado foi o uso de emendas parlamentares, especialmente as chamadas emendas Pix. Áurea afirmou que, se eleita, não pretende utilizar a modalidade e que vai defender seu fim no Senado.
Segundo ela, o modelo dificulta a fiscalização sobre a aplicação dos recursos e pode facilitar fraudes e desvios.
Durante seu mandato como deputada federal, Áurea disse ter adotado consultas públicas para definir a destinação de emendas, com análise de projetos apresentados por organizações da sociedade civil e governos.
“Eu não vou usar a emenda Pix. Eu sou contra emenda Pix e vou lutar no Senado para acabar com essa modalidade”, afirmou.
Críticas a Zema e à dívida de Minas
Áurea também criticou a política fiscal do ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) e afirmou que o Estado deixou de arrecadar recursos ao conceder benefícios fiscais a grandes empresas.
Para a candidata, Minas precisa honrar a dívida com a União, mas também deve buscar condições mais justas de pagamento. Ela defendeu ainda a revisão da política de incentivos fiscais para ampliar os investimentos em áreas como saúde, educação e segurança.
“Minas Gerais fez uma escolha nos últimos anos que foi desastrosa. O governo Zema isentou de impostos em torno de R$ 120 bilhões para os seus amigos empresários”, afirmou.
Segundo Áurea, os incentivos poderiam ser convertidos em investimentos públicos. “Não faz sentido o Estado deixar de arrecadar dinheiro e fazer gracinha para empresário superpoderoso e, com isso, deixar de investir nos direitos da população”, disse.
Terras raras
Sobre a exploração de terras raras em Minas Gerais, Áurea afirmou ser favorável à atividade, mas defendeu controle estatal, proteção ambiental e contrapartidas para os municípios atingidos.
A candidata disse que o Brasil precisa evitar repetir o modelo histórico de exportação de matérias-primas sem desenvolver tecnologia e indústria de beneficiamento no próprio país.
“Se a gente não tem uma indústria que vai gerar emprego de qualidade, formar mão de obra especializada, a gente vai fazer o modelo de sempre: mandar as nossas riquezas para fora e ficar com os danos socioambientais para nós”, afirmou.
Áurea também defendeu investimentos em universidades e institutos federais para formar mão de obra especializada e ampliar a pesquisa na área. Para ela, a exploração dos minerais estratégicos precisa estar vinculada a uma política de desenvolvimento tecnológico e industrial do país.
Retorno à disputa
Áurea também explicou por que decidiu voltar a disputar uma eleição depois de não tentar a reeleição para a Câmara dos Deputados em 2022.
Ela afirmou que a violência política contra mulheres, os ataques sofridos durante o mandato e a necessidade de priorizar a família pesaram na decisão de deixar o Congresso. Mãe de um menino de seis anos, ela disse que chegou a um momento em que precisou colocar o bem-estar e os cuidados com a família em primeiro lugar.
“Eu não estou aqui para perder a minha vida. Chegou uma hora que eu olhei para a minha situação e pensei: eu preciso priorizar o meu bem-estar, o cuidado com a minha família”, afirmou.
Agora, segundo ela, o cenário político brasileiro e os riscos à democracia contribuíram para o retorno à disputa. Áurea afirmou que se sentiu “convocada” a voltar à arena pública para enfrentar o avanço da extrema direita.
A candidata também apontou como um dos principais desafios da campanha ampliar seu conhecimento no interior de Minas Gerais. Em 2018, ela foi eleita deputada federal com mais de 160 mil votos, concentrados principalmente em Belo Horizonte e na Região Metropolitana.
“O meu maior desafio é me tornar mais conhecida”, afirmou. Segundo ela, a campanha para o Senado exige também explicar ao eleitor a importância da Casa e o fato de que, neste ano, serão dois votos para o cargo.