O tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2026, “A valorização do Sistema Único de Saúde como direito universal”, propõe aos candidatos uma reflexão que vai além dos problemas enfrentados pela saúde pública brasileira. Para o professor de redação Cláudio Garcia, da Rede Chromos, a principal exigência da proposta é compreender a importância do SUS como uma conquista histórica e discutir os caminhos para fortalecer o sistema e garantir o acesso à saúde para toda a população.
Na avaliação do professor, o tema é familiar aos estudantes, já que o SUS está presente no cotidiano dos brasileiros por meio de campanhas de vacinação, atendimentos médicos, distribuição de medicamentos, transplantes e ações de prevenção de doenças. Essa proximidade, no entanto, não significa que a redação seja necessariamente fácil.
“Eu não classificaria o tema como fácil, tampouco como uma pegadinha. Considero que seja uma proposta familiar, historicamente urgente e argumentativamente complexa”, avalia, em conversa com a Rede 98.
Um dos principais cuidados apontados por Cláudio é não limitar o texto à apresentação de problemas como filas, falta de profissionais e dificuldades de atendimento. Embora sejam questões pertinentes, elas precisam estar relacionadas à discussão central: por que o SUS deve ser valorizado e qual é a importância do fortalecimento do sistema para garantir um direito universal.
O professor também destaca a dimensão histórica da proposta. Criado a partir das mobilizações do movimento da Reforma Sanitária e consolidado pela Constituição Federal de 1988, o SUS estabeleceu a saúde como direito de todos e dever do Estado. Nesse contexto, o candidato poderia recorrer ao artigo 196 da Constituição e aos princípios da universalidade, integralidade e equidade para fundamentar a argumentação.
A universalidade garante o acesso à saúde independentemente da condição econômica ou social. A integralidade prevê o cuidado em diferentes etapas, da prevenção ao tratamento e à reabilitação. Já a equidade considera as diferentes necessidades da população e a importância de políticas públicas capazes de reduzir desigualdades.
Repertórios e atualidades
Entre os caminhos possíveis para desenvolver o tema, Cláudio aponta acontecimentos recentes e questões que ganharam espaço no debate público. A pandemia de Covid-19, a importância das campanhas de vacinação, o sistema público de transplantes e a ampliação do Programa Farmácia Popular são exemplos que poderiam ser utilizados pelos candidatos.
O professor também menciona a possibilidade de relacionar a discussão a assuntos contemporâneos, como saúde mental, envelhecimento populacional, desigualdades sociais e negacionismo científico.
Outro aspecto importante é compreender que a atuação do SUS ultrapassa os atendimentos realizados em hospitais e unidades de saúde. A vigilância sanitária, o controle de epidemias e as campanhas de imunização são serviços que beneficiam toda a população, inclusive quem utiliza predominantemente a rede privada.
“Valorizar o SUS não significa ignorar seus problemas, mas reconhecer sua importância histórica e social e defender condições para que seus princípios sejam efetivamente concretizados”, afirma.
Concisão pode ser um dos principais desafios
Para o professor, um dos maiores desafios dos candidatos será selecionar as informações mais relevantes e organizar os argumentos dentro do limite de 30 linhas da redação.
Ele destaca três elementos que podem fazer a diferença no desempenho: concisão, brasilidade e estrutura. A primeira diz respeito à capacidade de desenvolver as ideias sem dispersão. A brasilidade envolve o uso de referências ligadas à história e à realidade brasileira. Já a estrutura exige uma introdução bem delimitada, argumentos consistentes e uma proposta de intervenção coerente.
Entre os repertórios nacionais que poderiam enriquecer o texto, Cláudio cita a Constituição de 1988, a Reforma Sanitária, o sanitarista Sérgio Arouca e as reflexões do geógrafo Milton Santos sobre desigualdades socioespaciais.
O professor ressalta, porém, que não basta mencionar referências históricas ou acontecimentos. É necessário explicar a relação entre esses conhecimentos, a valorização do SUS e a garantia do direito à saúde.
“Uma redação de excelência sobre esse tema precisará combinar domínio da estrutura textual, conhecimento da realidade brasileira e capacidade de síntese. Neste ano, o grande desafio não será necessariamente ter o que dizer, mas saber o que escolher para dizer”, conclui.
