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Michael: cinebiografia encanta fãs, mas observa lenda à distância

Por

Ludmila Souza

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Michael é uma cinebiografia dirigida por Antoine Fuqua. (Foto: Reprodução / Michael)

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O que esperar de um filme sobre uma lenda? Ter expectativas contidas parece o mais sensato nesses caso, e foi assim que fui à pré-estreia de Michael. O filme, produzido por Graham King, o mesmo de Bohemian Rhapsody, estreou no Brasil no último dia 21 de abril e já bateu recordes, com impressionantes US$ 217,4 milhões em bilheteria mundial.

A cinebiografia de Michael Jackson se revela excessivamente protocolar, um longa que prefere a segurança das fórmulas ao risco de encarar a complexidade de seu personagem.

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A narrativa segue a estrutura clássica da ascensão, da infância pobre no condado de Gary, em Indiana, nos Estados Unidos, ao estrelato global, mas transforma esse percurso em um compilado apressado de marcos já conhecidos, sem demonstrar interesse real em aprofundá-los. Há um evidente reducionismo de Michael à sua dimensão performática. Sua infância solitária, o fascínio por Peter Pan, a relação com animais, os primeiros sinais de isolamento, a plástica no nariz e a luva para esconder o vitiligo aparecem como notas ilustrativas, nunca como elementos dramáticos capazes de sustentar uma investigação mais densa. O filme prefere sugerir excentricidades a compreendê-las.

Essa superficialidade se estende à dinâmica familiar. A violência e o controle exercidos por Joe Jackson surgem diluídos em uma encenação que flerta com o caricatural, potencializada pela atuação de Colman Domingo,  e que, em vez de tensionar o trauma, o transforma em mais um obstáculo genérico. A ascensão dos Jackson 5 também é tratada como uma montagem inevitável: rápida, eficiente e dramaticamente pouco significativa.

Quando Quincy Jones entra em cena, ainda no começo da trajetória, o filme ensaia uma mudança de eixo, sugerindo um olhar mais atento ao talento e à pressão que moldavam o jovem artista. Ainda assim, tudo é resolvido com a mesma pressa que marca o restante da narrativa. Os conflitos são apresentados, mas raramente desenvolvidos; os temas surgem, mas não ganham corpo.

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Não por acaso, o filme funciona melhor quando se entrega às performances, que, diga-se de passagem, são muito bem executadas pelo elenco, especialmente por Jaffar Jackson, sobrinho de Michael, que dá vida à estrela com primor. Essa força cênica, porém, em vez de dialogar com o drama, acaba por substituí-lo. A narrativa se organiza como uma sucessão de números e marcos históricos, ainda que haja uma ressalva promissora no recorte que vai até 1988, ponto de virada na carreira do artista, quando as polêmicas começam a se intensificar.

Ao evitar zonas de desconforto e optar por um recorte seguro, o filme se aproxima de uma cinebiografia autorizada no sentido mais restritivo: organiza, celebra e suaviza. O resultado é um filme que observa a lenda à distância, sem se arriscar a encará-la de frente.

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Ludmila Souza

Graduada em jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). É fotógrafa e amante de narrativas visuais.

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