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Sinfonia das montanhas: o legado dos compositores mineiros, de Lobo de Mesquita à Geração Z

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isolamento entre as serras e a herança do ciclo do ouro forjaram o que musicólogos chamam de "acorde mineiro" (IMAGEM ILUSTRATIVA/Pixabay)

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Se o Rio de Janeiro é o palco e a Bahia é o ritmo, Minas Gerais é a harmonia. No calendário cultural, o dia 15 de janeiro marca o Dia Mundial do Compositor, uma data para celebrar os criadores que, muitas vezes nos bastidores, definem a trilha sonora de gerações inteiras.

Em nenhum outro lugar do Brasil a composição é tão intrínseca à identidade geográfica quanto em Minas. O isolamento entre as serras e a herança do ciclo do ouro forjaram o que musicólogos chamam de “acorde mineiro”: uma sonoridade rica em tensões e inversões, que não busca resoluções fáceis, um reflexo direto da topografia e da melancolia contemplativa do estado.

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Século do Ouro: música como ascensão social

A história da música erudita brasileira começa nas montanhas. Durante o século XVIII, enquanto a extração de ouro financiava igrejas opulentas, ela também sustentava uma cena musical vibrante em Vila Rica (Ouro Preto) e no Arraial do Tijuco (Diamantina).

Diferente da arquitetura, que permaneceu visível, o “Barroco Mineiro” ficou silenciado em arquivos por séculos. A composição era uma atividade dominada por mulatos livres que, em uma sociedade escravocrata, viam na música uma rara via de ascensão social e prestígio intelectual.

O “Bach Brasileiro”: A figura central é José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita (1746–1805). Sua obra mais célebre, a Antífona de Nossa Senhora (Salve Regina), transcende a função litúrgica com um dramatismo que hoje o coloca ao lado de gênios europeus do período.

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Turismo sonoro: Hoje, ouvir uma missa de Lobo de Mesquita dentro de uma igreja histórica oferece uma experiência sensorial do passado que nenhum livro consegue replicar.

Construção do Brasil: Ary Barroso e a Era do Rádio

Com o declínio do ouro, a música desceu a serra. No início do século XX, surge em Ubá a figura titânica de Ary Barroso (1903-1964). Ele representa a transição do compositor artesão para o midiático.

Ary não apenas compôs sucessos; ele construiu a identidade nacional no exterior. Sua obra-prima, “Aquarela do Brasil” (1939), inaugurou o samba-exaltação.

A Lenda da Tempestade: Relatos históricos indicam que Ary compôs a canção em uma noite de tempestade torrencial. Os trêmulos ao piano na introdução e a grandiosidade da melodia teriam sido inspirados pelos trovões daquela noite.

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Direitos Autorais: Ary também foi um pioneiro sindical. Fundador da União Brasileira de Compositores (UBC), sua combatividade garantiu a profissionalização da classe artística no país.

Revolução de Santa Tereza: O Clube da Esquina

Nos anos 60 e 70, Belo Horizonte tornou-se o laboratório de uma revolução estética. O bairro de Santa Tereza foi o berço do Clube da Esquina, um movimento que fundiu a toada rural, o canto coral das igrejas mineiras, o jazz e o rock progressivo dos Beatles.

A parceria entre Milton Nascimento e Lô Borges criou uma linguagem harmônica onde as dissonâncias criavam uma atmosfera de “suspensão”, análoga à neblina das cidades históricas.

O Mistério da Capa: Uma das maiores curiosidades da MPB envolve a capa do álbum duplo de 1972. Os dois meninos na estrada de terra não são mineiros, mas garotos fotografados por acaso em Nova Friburgo (RJ). A imagem crua tornou-se o ícone visual da mineiridade, representando a conexão com a terra.

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Raízes: invenção do sertanejo moderno

Minas Gerais atua como o elo entre a tradição caipira e a indústria pop massiva.

O Inventor de Ritmos: Tião Carreiro, nascido no Norte de Minas, criou o “Pagode de Viola”. Ele introduziu uma divisão rítmica percussiva e complexa no instrumento, diferenciando-se do cururu tradicional.

A Arena: No cenário contemporâneo, o Maestro Pinocchio (compositor e produtor) trouxe arranjos orquestrais para a sanfona, moldando o som de Jorge & Mateus e criando a arquitetura do “Sertanejo Universitário” atual.

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Pop, Rock e o futuro urbano

A partir da década de 90, Minas provou que não vive apenas de nostalgia. O Skank, liderado pelo psicólogo e compositor Samuel Rosa, começou como uma banda de dancehall jamaicano e evoluiu para o Britpop. O hit “Garota Nacional” (1996) liderou paradas na Espanha, provando a capacidade mineira de exportar grooves urbanos.

Hoje, a banda Lagum, liderada por Pedro Calais, representa a face atual. Com uma mistura de reggae e pop leve, o grupo traduz as angústias da Geração Z, ocupando os espaços digitais com a mesma desenvoltura que seus predecessores ocupavam os festivais da TV.

Roteiro turístico musical

Para quem deseja vivenciar essa história, Minas oferece roteiros imersivos:

Caminhos do Barroco: Museus de Arte Sacra e concertos em órgãos históricos em Tiradentes e Mariana.

Circuito Clube da Esquina (BH): Inclui o famoso cruzamento das ruas Divinópolis e Paraisópolis, o Bar do Museu Clube da Esquina e o Edifício Maletta.

Vesperata (Diamantina): Músicos tocam das sacadas dos casarões históricos, tradição viva da era das serestas.

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Roberth R Costa

Atuo há quase 13 anos com jornalismo digital. Coordenador Multimídia. Rede 98 | 98 News

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