Uma tendência curiosa, e um tanto quanto inusitada, tem ganhado espaço nas redes sociais nos últimos dias: corredores estão colocando saquinhos com nata ou creme de leite dentro da mochila para, com o balanço da corrida, fazer manteiga. Em outra versão, há quem leve misturas com gelo para tentar fazer sorvete durante o treino.
A trend, conhecida como #ButterRun, surgiu fora do Brasil, viralizou nas redes sociais e logo começou a ganhar adeptos por aqui. A ideia pode até parecer divertida, mas especialistas acendem um alerta para riscos importantes envolvendo segurança alimentar.
A nutricionista clínica, esportiva e comportamental Micaele Ramos explica que o principal problema está na forma de conservação dos alimentos. “O creme de leite pasteurizado, que é o que encontramos no supermercado, até pode ser mais seguro em determinadas condições. Mas a nata, principalmente se não for industrializada, já oferece mais risco”, afirma.
Outro fator de risco está na manipulação. Mesmo que o ambiente externo não seja, por si só, o maior problema, a forma como o alimento é manuseado pode facilitar a contaminação. “É essencial ter atenção com a higiene das mãos, unhas limpas e sem esmalte, além de, sempre que possível, reforçar a higienização com álcool em gel”, orienta a nutricionista.
A avaliação é reforçada pela nutricionista Rúbia Magalhães, que destaca que tanto o creme de leite quanto a nata são alimentos altamente suscetíveis à contaminação. “Eles possuem alta quantidade de água livre, além de serem ricos em gordura e nutrientes, o que favorece o crescimento de microrganismos. Outro ponto é o pH próximo do neutro, que não é suficiente para inibir essas bactérias”, explica.
Segundo ela, o ponto crítico é a temperatura. “Os alimentos não devem permanecer na chamada ‘zona de perigo’, que vai de 5°C a 60°C. Nessa faixa, há maior proliferação de microrganismos, o que pode causar problemas de saúde”, alerta.
Além disso, o próprio método improvisado de preparo preocupa. “Fazer manteiga ou sorvete dessa forma não é seguro, principalmente se os ingredientes não forem pasteurizados. O alimento pode ser contaminado e não estar adequado para consumo”, diz.
Segurança em primeiro lugar
Sobre o preparo improvisado, Rúbia é categórica: “Do ponto de vista científico, não é seguro. Apesar de a agitação conseguir transformar a nata em manteiga, isso acontece sem controle de temperatura e higiene. Não há garantia de que o recipiente esteja devidamente higienizado, o que pode favorecer a multiplicação de microrganismos”.
No caso do sorvete, o cenário pode ser ainda mais preocupante. “Não há congelamento suficiente para inibir essas bactérias, então o alimento pode permanecer em uma faixa ideal para o crescimento microbiano”, alerta.
Rúbia também chama atenção para os riscos de manipulação fora de um ambiente adequado. “Há possibilidade de contato com suor, mãos que não estão devidamente higienizadas e superfícies contaminadas, como a própria mochila. O movimento constante ainda pode favorecer a entrada de ar e contaminantes, aumentando o risco de contaminação cruzada”, explica.
E mesmo depois de pronto, nem sempre é possível identificar se o alimento está seguro. “Alguns sinais, como cheiro azedo, sabor alterado ou textura diferente, podem indicar problema. Mas a ausência desses sinais não garante segurança. Existem microrganismos que produzem toxinas sem alterar aparência, cheiro ou sabor”, alerta.
Apesar do apelo criativo, a recomendação é clara: transformar a mochila de corrida em uma “mini cozinha” pode não ser a melhor ideia. “A segurança alimentar deve sempre vir em primeiro lugar”, reforça Micaele.
