O Minas Trend voltou a colocar Belo Horizonte no centro da moda brasileira não apenas como vitrine de tendências, mas como um termômetro do setor. Entre desfiles e negociações, o evento traça um retrato mais amplo da indústria em Minas Gerais: criativa, em expansão em nichos como o infantil, mas ainda pressionada por desafios estruturais, sobretudo na gestão e na competitividade. A 98 News marca presença na cobertura ao longo dos três dias de evento.
Salão de negócios concentra estratégia e revela perfil do mercado
No coração do Minas Trend, o salão de negócios segue como principal eixo econômico do Minas Trend. É ali que a moda mineira se conecta com o mercado nacional. Segundo Rogério Vasconcelos, presidente da Câmara da Moda da Fiemg, o perfil do comprador que chega ao evento ajuda a entender o posicionamento do setor.
“O comprador que vem ao Minas Trend não está buscando volume, está buscando diferenciação. É um público mais exigente, de classe A e B, que quer um produto com identidade, com acabamento mais cuidadoso, muitas vezes com esse valor do feito à mão, do artesanal. É uma peça que precisa funcionar quase como uma vitrine dentro da loja dele, algo que se destaque.”
Essa lógica sustenta o modelo do evento. “A gente consegue atrair compradores de todo o Brasil. Do Norte ao Sul, tem gente vindo aqui justamente atrás desse produto que não é massificado. E isso abre muitas oportunidades para quem está expondo.”
Digital avança, mas pressão externa cresce
A transformação no consumo também redesenha o setor. O avanço do digital e das plataformas internacionais mudou a dinâmica de compra e obrigou empresas a se adaptarem.
“Hoje não existe mais espaço para quem fica parado. O empresário precisa entender o digital, precisa aprender, fazer curso, buscar alternativa. A inteligência artificial já é uma realidade e quem não acompanhar isso vai ficar para trás.”
Ao mesmo tempo, cresce a pressão de produtos importados de baixo custo. “Existe uma concorrência que a gente considera desleal. O produto chega aqui com um preço muito baixo, muitas vezes sem a mesma carga tributária que a indústria brasileira tem. E isso cria uma distorção enorme”, destaca.
Para ele, o debate vai além do preço. “Quando se fala em reduzir imposto de produto importado, precisa falar também de reduzir o imposto de quem produz aqui dentro. Senão, você cria uma competição que não é equilibrada.”
Cadeia da moda é extensa e pouco compreendida
Um dos pontos mais enfatizados no evento foi o desconhecimento sobre o custo real da moda.
“Quando alguém olha uma peça pronta e acha caro, normalmente está olhando só o final do processo. Mas esse produto passou por muita gente antes de chegar ali. Começa no estilista, que criou aquilo. Depois vai para o modelista, que transforma a ideia em forma. Vai para o corte, passa pela facção, volta para acabamento, revisão, embalagem… e ainda tem o marketing, que é o que gera valor e desejo”, pontua.
“A costura é só uma parte da cadeia. É uma cadeia muito mais complexa do que parece”, resume Rogério Vasconcelos, que reforça: “A moda é uma das maiores empregadoras do país. Quando a gente fala que um em cada dez empregos está ligado a esse setor, a gente está falando de uma estrutura muito grande, que precisa ser entendida e valorizada”.
Moda infantil cresce e ganha protagonismo
Dentro desse cenário, a moda infantil aparece como um dos segmentos mais dinâmicos do Minas Trend. Na quinta edição do Minas Trend Kids, o crescimento é impulsionado por uma lógica própria de consumo, como explica Taciana Teodoro, diretora da Top Agency.
“A grande diferença da moda infantil para a adulta é que a criança cresce e cresce rápido. Uma roupa que serve hoje pode não servir daqui a três meses, principalmente na primeira infância. Isso faz com que o consumo seja mais constante e o mercado mais dinâmico”, conta.
Ela compara com o comportamento adulto. “O adulto consegue repetir roupa, consegue manter um guarda-roupa por mais tempo. A criança não. E é isso que torna o segmento tão especial e tão relevante.”
Criança passou a influenciar diretamente o consumo
Além da reposição constante, há uma mudança geracional importante. “Na nossa época, a gente vestia o que os pais compravam. Hoje, não. As crianças têm acesso à informação, às redes sociais, às tendências. Elas sabem o que querem e participam da decisão. Muitas vezes, elas são decisivas na hora da compra.”
Sustentabilidade vira exigência da nova geração
Outro movimento que chama atenção é a consciência ambiental. “Hoje, a criança pergunta. Pergunta se é sustentável, pergunta de onde vem o tecido, como aquela roupa foi feita. Isso não é mais discurso de marca, é cobrança real.”
Segundo ela, essa mudança vem da formação. “Os colégios trabalham muito isso, e elas levam essa consciência para dentro de casa. É uma geração que já nasce com essa preocupação.”
Desfile infantil exige estratégia e cuidado
Nos bastidores, o desafio do segmento vai além da estética. “A gente sempre fala que o principal é a criança estar feliz ali. Não adianta ter uma roupa linda se a criança não está confortável, se não está bem. A integridade física e emocional vem antes de qualquer coisa.”
“Quando a criança está à vontade, isso aparece na passarela. Traz leveza, naturalidade. E isso valoriza a marca”, continua ela. Taciana ainda explica que o processo é rigoroso. “O casting é muito delicado. A altura, o perfil, tudo interfere. Um centímetro pode mudar o caimento de uma roupa. Então, tudo é muito pensado, mas sempre de forma leve, para que a criança goste de estar ali.”
Criatividade é forte, mas gestão ainda limita negócios
Se a criação é reconhecida, a estrutura ainda é um ponto frágil no setor da moda, o que pode gerar gargalos, conforme explica Vivi Assunção, analista do IEL (Instituto Euvaldo Lodi).
“A técnica, na maioria das vezes, não é o problema. Esses negócios nascem de pessoas que sabem fazer muito bem, que têm domínio do produto, que são costureiras, bordadeiras, profissionais com muita habilidade. O que falta é a gestão. Falta organização financeira, falta planejamento, falta separar o que é da empresa e o que é pessoal.”
Ela aponta um padrão recorrente. “Quando o negócio começa a crescer, muitas vezes ele trava porque não tem estrutura. A pessoa sabe produzir, mas não sabe precificar, não sabe escalar, não sabe administrar.”
Parceria tenta destravar crescimento
Uma parceria entre IEL e Sebrae tenta enfrentar esse cenário. “Quando a gente une forças, consegue ampliar o alcance. Os projetos são subsidiados, então o custo para a empresa diminui. Isso facilita o acesso a consultorias, a formação, a orientação.”
O objetivo é direto: “Ajudar esse pequeno negócio a se estruturar para crescer e se manter ao longo do tempo.”
Setor mantém expectativa, mas com foco em sobrevivência
Mesmo com desafios, o setor mantém perspectiva de recuperação. “O empreendedor, por natureza, é esperançoso. A gente sempre acredita que vai melhorar”, defende ela.
