Blocos que ajudaram a construir a identidade do Carnaval de Belo Horizonte estão fora da folia de 2026: sem patrocínio, sem apoio público efetivo e sufocados por custos cada vez mais altos, o Tamborins Tantãs e o Bloco do Bituca cancelaram os respectivos desfiles, escancarando a crise que atinge a festa de rua da capital.
Em nota divulgada no último sábado (31/1), o Bloco do Bituca informou que a razão para a decisão foi a “falta de patrocínio”, o que “impossibilita a realização do evento neste ano”. A expectativa de retorno fica para 2027, “com mais força, energia e alegria” e o apoio da comunidade.
No caso do Tamborins Tantãs, o produtor Felipe Martins afirma que o problema é estrutural e se arrasta há anos. “Desde 2023 a gente vem sofrendo com a falta de interesse das empresas”, diz. Para tentar viabilizar o desfile, a organização recorreu a leis de incentivo municipal, estadual e federal. Ainda assim, a liberação tardia das autorizações de captação e o fechamento antecipado dos editais pelas empresas inviabilizaram qualquer auxílio efetivo.
Editais travados e custos em alta
Além das leis de incentivo, o bloco também se inscreveu em diversos editais privados, sem retorno. “Várias empresas diziam que iam olhar, analisar e dar retorno, e nunca davam”, afirma. Em um dos casos, o resultado sequer havia sido divulgado a poucos dias do Carnaval. O período oficial de folia em BH começou no último sábado e segue até 22 de fevereiro.
O cenário se agravou com o aumento expressivo dos custos, explica o produtor do Tamborins Tantãs. “Em 2023 eu gastei cerca de R$ 20 mil no Carnaval. Este ano o custo era R$ 70 mil”, diz. Segundo ele, a estrutura permaneceu praticamente a mesma, mas os preços subiram em todos os serviços.
Felipe detalha que o orçamento inclui trio elétrico, bandas, cordeiros, carro de apoio, bandas convidadas, hidratação, camisetas, material de divulgação, estúdios, regente e equipe técnica. “É uma série de gastos que as pessoas nem imaginam que existam”, afirma.
Tentativas de arrecadação própria fracassaram
Sem patrocínio, o bloco tentou criar fontes próprias de renda ao longo do ano, mas sem sucesso. “Tentamos venda de produto, a galera não comprou. Tentamos vender camisa, não compraram. Tentei dar aula de dança, só três pessoas se inscreveram”, relata Felipe.
Diante desse cenário, a decisão foi cancelar o desfile. “Não desfilar foi a decisão certa, porque senão eu teria que bancar os R$ 70 mil do bolso”, afirma. Segundo ele, a saúde física e mental também pesaram na escolha.
Relação com a Belotur
O cancelamento já foi comunicado oficialmente à Belotur e aos órgãos públicos. Felipe relata que todo o processo ocorre por email, sem diálogo direto. “Eles respondem agradecendo as informações e dizendo que esperam o cadastro do bloco em 2027”, diz. Nenhuma tentativa de apoio, segundo o produtor, é prestada nesta etapa do processo.
Ele também critica atrasos recorrentes nos repasses da prefeitura. Em 2024, o Tamborins Tantãs foi contemplado por edital municipal, mas o dinheiro caiu apenas uma semana após o desfile. “Tive que pegar empréstimo para pagar trio e cordeiros”, afirma. Os juros e multas, segundo ele, não são ressarcidos.
De lá pra cá, o cenário não mudou significativamente. No início deste mês, representantes de outros blocos de rua denunciaram à Rede 98 o mesmo atraso no repasse dos auxílios. De acordo com os coletivos, o Carnaval é feito o ano inteiro, mas a verba só chega “na última hora”.
O produtor também aponta a limitação do edital de apoio promovido pela Belotur. “Ele contempla 105 blocos, de 612 cadastrados”, critica. Além disso, segundo Felipe, a nota de corte tem aumentado a cada ano, tornando a disputa mais difícil.
Competição também é por espaço
Coletivos, ligas e entidades do Carnaval da cidade também passaram a criticar publicamente a política cultural da gestão pública, que, segundo eles, prioriza megashows e atrações nacionais em detrimento dos blocos de rua e da cultura local.
Em nota divulgada na última sexta-feira (30/1), os grupos afirmam que a gestão pública “valoriza e facilita grandes produtores e iniciativas artísticas de fora de Minas Gerais”, enquanto os cortejos de rua seguem “com apoio escasso e sem políticas permanentes de fomento”.
A manifestação ocorre em meio ao anúncio de grandes nomes para a folia de 2026, como Luísa Sonza, Xamã, Clayton e Romário, Nattan, Zé Felipe e Banda Eva. Para os coletivos, esse modelo “esvazia territórios, precariza trabalhadores da cultura e desvirtua o espírito comunitário da folia”, além de ameaçar a sustentabilidade econômica e cultural dos agentes que constroem o Carnaval de BH.
Em nota enviada à reportagem, a Belotur descartou qualquer priorização ou investimento adicional de recursos públicos municipais em megaeventos ou atrações nacionais.
“As contratações de artistas de fora da cidade ou do estado são realizadas pelos organizadores dos blocos, com recursos próprios ou de parceiros privados. Cabe ressaltar que não compete ao poder público municipal interferir ou vetar escolhas artísticas feitas pelos organizadores, desde que estejam em conformidade com a legislação vigente e com as regras estabelecidas para o Carnaval”, rebateu a empresa.
História e futuro do Tamborins Tantãs
Fundado em 2017 por Ney Mourão, o Tamborins Tantãs nasceu com a proposta de resgatar a forma correta de tocar o tamborim nos blocos de rua. Após a morte do fundador, durante a pandemia, Felipe Martins assumiu parte da condução do projeto.
O bloco construiu sua trajetória no entorno do Mercado Central, com desfiles temáticos e criativos, como festa junina no Carnaval, história da música e moda sustentável.
Para o futuro, Felipe garante que o projeto não acabou. “A gente só não conseguiu colocar o bloco na rua esse ano”, afirma. A expectativa é reorganizar a estrutura e buscar novos caminhos para viabilizar o retorno em 2027, mantendo viva a identidade de um dos blocos mais simbólicos do Carnaval de Belo Horizonte.
