O Ministério da Saúde anunciou nesta segunda-feira (08/6) a suspensão temporária da vacinação contra a dengue com o imunizante do Instituto Butantan. A decisão foi tomada por precaução após o registro de reações graves e duas mortes suspeitas entre vacinados.
O anúncio foi feito em coletiva de imprensa com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e representantes do Butantan.
Segundo o Ministério da Saúde, das 500 mil doses aplicadas no país, foram identificados 42 casos de reações severas possivelmente ligadas à vacina. Entre eles, três casos graves, dos quais dois resultaram em óbito.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, explicou a decisão de suspender a vacinação.
“A nossa decisão nesse momento é por descontinuar de forma temporária a atual estratégia de vacinação do uso da vacina do Butantan da dengue no país”, afirmou.
Padilha destacou que a medida segue a lógica da precaução científica.
“Uma das fortalezas do nosso Programa Nacional de Imunização, que reforça cada vez mais sua credibilidade, é sempre seguir a ciência, as evidências científicas, trabalhar sempre com a lógica da proteção da população brasileira. Muitas vezes na área da saúde a precaução é a melhor medida”, disse o ministro.
Quais são os três casos graves registrados
O Ministério da Saúde detalhou o quadro clínico de cada um dos três casos:
- Caso 1: mulher de 39 anos apresentou febre, dores musculares e náuseas seis dias após a vacinação. Evoluiu para dengue grave com choque, precisou ser internada em Unidade de Terapia Intensiva (UTI), mas se recuperou.
- Caso 2 (óbito): mulher de 48 anos desenvolveu sintomas de dengue grave 19 dias após receber a vacina. O quadro incluiu comprometimento neurológico com meningoencefalite, e a paciente morreu.
- Caso 3 (óbito): homem de 58 anos apresentou febre cinco dias após a vacinação e evoluiu rapidamente para dengue grave com choque refratário. Ele também morreu.
Padilha ressaltou, no entanto, que ainda não há provas de que as mortes foram causadas pela vacina.
“Nós tivemos três casos graves. Desses, dois óbitos. Sem, até esse momento, nas investigações já feitas pelos sistemas municipais de vigilância estadual, escutando os especialistas, não existe dados suficientes para estabelecer uma causalidade da vacina com a ocorrência desses três casos graves, mas é um sinal de alerta”, afirmou o ministro.
Reações não haviam sido observadas em estudos clínicos
Durante a coletiva, o ministério informou que os efeitos graves registrados não tinham aparecido nas pesquisas feitas anteriormente pelo instituto. A vacina do Butantan foi testada em 11 mil pessoas, em 16 estudos de fase um, além de estudos de fase dois e fase três. Os voluntários foram acompanhados por cinco anos. O estudo teve repercussão internacional e foi publicado pela revista Nature.
Os 42 casos de reações severas representam 0,008% do total de vacinados e foram classificados como eventos muito raros, porém não previstos nos estudos clínicos nem descritos na bula.
O ministro detalhou o que será feito a partir de agora para investigar os casos.
“Ministério da Saúde, Anvisa e Instituto Butantan vão aprofundar a investigação tanto nos 42 casos, buscar fator de risco nessas 42 pessoas, identificar com pessoas que tomaram na mesma época se tem alguma outra diferença, fazer uma espécie de estudo caso controle em relação a isso, investigar inclusive cadeia de frios, questões logísticas, aplicação”, disse Padilha.
Quem deve ser acompanhado agora
A orientação do Ministério da Saúde é que pessoas vacinadas nos últimos 21 dias façam acompanhamento em uma unidade de saúde local para observar possíveis reações adversas. Devem ser observados os seguintes sintomas:
- Febre
- Dor abdominal intensa e contínua
- Vômitos persistentes
- Tontura
- Sangramentos
- Sonolência intensa
- Irritabilidade
- Sinais de desidratação
- Piora do estado geral
Vacina continua guardada nas unidades de saúde
A suspensão é temporária e não significa o descarte do imunizante. As doses devem permanecer nas unidades básicas de saúde e nas redes de frio dos estados e municípios até que novas investigações sejam concluídas.
Padilha reforçou a confiança no Butantan e na eficácia do imunizante.
“O Ministério da Saúde tem toda a confiança na capacidade institucional científica do Instituto Butantan de fazer essa investigação, de aprofundar esses estudos. É uma vacina que, com a sua eficácia, vai nos ajudar a enfrentar a dengue no país”, declarou o ministro.
A pasta também destacou a queda de 97% nos óbitos por dengue em 2026, em comparação com 2024, e de 92% no número de casos. A vacina do Butantan é a primeira do mundo aplicada em dose única e a primeira totalmente brasileira. A imunização começou no início deste ano com foco nos profissionais de saúde da atenção primária.