Um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) revelou que, durante a pandemia de covid-19, os riscos de abuso sexual infantil cresceram, enquanto o número de atendimentos a essas vítimas nos serviços de saúde diminuiu.
A pesquisa, coordenada pelo professor Ed Wilson Rodrigues Vieira, analisou como a Atenção Primária à Saúde (APS) no Brasil lidou com esses casos em meio à crise sanitária. No período, a prioridade dos serviços foi o enfrentamento da covid-19, o que acabou impactando o acompanhamento de outras situações graves, como a violência contra crianças.
Para chegar aos resultados, os pesquisadores analisaram dados de 2017 a 2020, considerando atendimentos de crianças de até 9 anos vítimas de abuso sexual. Ao todo, foram mais de 5 mil consultas registradas, cerca de um quarto delas durante a pandemia. A maioria das vítimas era menina (quase 80%), principalmente entre 5 e 9 anos.
Apesar de alguns indicadores apontarem aumento nas taxas de atendimento em determinados meses da pandemia, o cenário geral mostra uma queda nas consultas. Segundo os pesquisadores, isso não significa que os casos diminuíram, pelo contrário. A redução pode indicar dificuldade de acesso aos serviços de saúde e menor número de denúncias.
Durante o isolamento social, muitos fatores contribuíram para aumentar o risco de violência. Crianças passaram mais tempo dentro de casa, muitas vezes convivendo com possíveis agressores. Além disso, escolas fechadas, suspensão de atividades e a redução do funcionamento de serviços de proteção dificultaram a identificação e denúncia dos casos.
Outro dado preocupante é que, na maioria das situações, os abusos foram cometidos por pessoas próximas, como familiares. O tipo de violência mais relatado foi o toque genital.
Entre os meninos, os dados chamam atenção: houve uma queda significativa nos atendimentos entre crianças de 5 a 9 anos. Para o pesquisador, isso pode indicar que os casos ficaram ainda mais invisíveis, já que o abuso contra meninos costuma ser menos identificado e denunciado.
Os resultados reforçam a necessidade de fortalecer a Atenção Primária à Saúde, especialmente em momentos de crise. Segundo os autores, é fundamental garantir que serviços essenciais continuem funcionando, para que casos de violência contra crianças não deixem de ser identificados e acompanhados.
