O Grupo Gennius, controlador das redes Habib’s, Ragazzo e Tendall, teve o pedido de recuperação judicial aceito pela Justiça de São Paulo. A empresa acumula R$ 265,2 milhões em dívidas e agora terá que apresentar uma proposta para reorganizar os débitos e manter as operações.
Apesar da crise financeira, os restaurantes continuam funcionando. A recuperação judicial não determina o fechamento das unidades e, neste primeiro momento, não altera o atendimento aos clientes.
O processo envolve 178 empresas e dois produtores rurais ligados ao grupo. Entre as principais marcas estão o Habib’s, com 119 lojas no país, o Ragazzo, com 26 unidades, e a rede de churrascarias Tendall, com seis estabelecimentos.
O que muda a partir de agora?
Com a decisão da Justiça, o grupo passa a contar com mecanismos previstos na recuperação judicial para reorganizar sua situação financeira. Parte das cobranças e ações contra as empresas fica temporariamente suspensa, dentro das regras estabelecidas pela legislação.
O próximo passo será a apresentação de um plano de recuperação aos credores, com as condições propostas para o pagamento das dívidas. A partir daí, começam as discussões sobre prazos, valores e outras medidas necessárias para reestruturar o negócio.
A recuperação não significa que as dívidas foram perdoadas. Elas passam a ser tratadas dentro de um processo coletivo de negociação.
Por que o grupo chegou a essa situação?
Nos documentos apresentados à Justiça, o Grupo Gennius relaciona a crise a uma série de mudanças que afetaram o setor de alimentação nos últimos anos.
A pandemia teve impacto importante, principalmente sobre restaurantes instalados em áreas de grande circulação. Com o trabalho remoto e híbrido, o fluxo de consumidores em regiões comerciais e shoppings mudou mesmo depois da retomada das atividades presenciais.
Ao mesmo tempo, o crescimento do delivery modificou a maneira como os clientes fazem suas refeições. A expansão das entregas ajudou a preservar as vendas, mas também trouxe pressão sobre o modelo tradicional de restaurantes físicos.
O cenário financeiro foi agravado pela alta dos juros. Com empréstimos e outras obrigações mais caros, aumentou a parcela da receita necessária para cobrir despesas financeiras.
Quanto o grupo deve?
O processo aponta um passivo de R$ 265.207.959,83. A maior parte está concentrada em dívidas sem garantia específica, que somam aproximadamente R$ 241,7 milhões e incluem compromissos com bancos, fornecedores e outros credores.
Também estão registrados cerca de R$ 22,3 milhões em débitos trabalhistas e aproximadamente R$ 1,15 milhão em dívidas com micro e pequenas empresas.
E quem trabalha nas lojas?
A recuperação judicial não provoca demissões automaticamente. Os restaurantes seguem em atividade e os contratos de trabalho continuam válidos.
Os salários e demais obrigações gerados depois do pedido de recuperação devem continuar sendo pagos normalmente. Já eventuais débitos trabalhistas anteriores à abertura do processo passam a ser considerados dentro da recuperação judicial.
Por isso, neste momento, a principal mudança para os trabalhadores é a forma como eventuais dívidas antigas serão tratadas, e não uma interrupção automática dos contratos.
Existe risco de fechamento de unidades?
Não há determinação de fechamento das lojas. A continuidade das operações é, inclusive, um dos objetivos da recuperação judicial. A ideia é permitir que a empresa continue gerando receita enquanto negocia seus débitos.
Isso, porém, não impede que mudanças sejam feitas posteriormente. Caso o plano de recuperação preveja uma reorganização da operação, o grupo poderá avaliar o fechamento de unidades que apresentem prejuízo, venda de ativos ou outras estratégias para reduzir custos.
Essas decisões dependerão do plano que será apresentado e das negociações com os credores.
O que acontece com as franquias?
As unidades franqueadas não fazem parte do processo de recuperação judicial informado pelo Grupo Gennius.
A entrada da franqueadora no processo também não encerra automaticamente os contratos existentes. Os franqueados devem continuar observando as obrigações previstas nos acordos, enquanto acompanham os desdobramentos da recuperação.
Problemas concretos na operação, como falta de produtos, falhas nos sistemas, interrupção de publicidade ou ausência de suporte, podem exigir uma análise específica de cada contrato.
Grupo tentou evitar a recuperação
A recuperação judicial foi adotada depois de uma tentativa de negociação com os credores.
Em junho, o Grupo Gennius buscou uma proteção temporária da Justiça enquanto participava de um processo de mediação. A intenção era negociar os débitos sem interromper o funcionamento das empresas.
Segundo o grupo, a situação se agravou com a retenção de recursos por instituições financeiras e com o risco de interrupção de serviços considerados essenciais para as operações.
Um dos pontos de preocupação era a continuidade dos sistemas tecnológicos utilizados pelas empresas. Uma eventual paralisação poderia afetar vendas, gestão e outros serviços necessários ao funcionamento das lojas.
Sem conseguir chegar a um acordo, o grupo apresentou o pedido de recuperação judicial na segunda-feira (24). A Justiça aceitou a solicitação no dia seguinte.
Qual será o próximo passo?
Agora, o Grupo Gennius terá que avançar na elaboração de um plano para reorganizar suas finanças. A proposta será apresentada aos credores e deverá indicar como e em quais condições os débitos serão pagos.
O processo pode levar à renegociação de prazos e valores e também incluir medidas para tornar a operação mais eficiente.
Até que essas etapas avancem, Habib’s, Ragazzo e Tendall continuam funcionando normalmente. O futuro das unidades e a forma de pagamento dos R$ 265 milhões em dívidas serão definidos ao longo do processo de recuperação judicial.
