Dez anos após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, os rejeitos de mineração continuam causando impactos ambientais na bacia do Rio Doce. Um estudo realizado com participação de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) indica que o material depositado na região alterou processos naturais da floresta e passou a funcionar como uma espécie de “filtro ambiental”, favorecendo espécies invasoras e dificultando a recuperação da vegetação nativa.
A pesquisa analisou como os rejeitos interferem na decomposição da matéria orgânica nas matas ciliares do Rio Doce. Esse processo é essencial para a ciclagem de nutrientes no solo, pois transforma restos de plantas e animais em substâncias que fertilizam a terra e sustentam o crescimento da vegetação. Segundo os pesquisadores, nas áreas afetadas pelo rejeito essa decomposição ocorre de forma muito mais lenta, comprometendo o equilíbrio ecológico.
Por outro lado, o estudo mostrou que espécies invasoras, como a gramínea braquiária, conseguem se decompor mais rapidamente nesses ambientes alterados. Isso significa que o novo cenário criado pelo rejeito favorece o avanço dessas plantas em detrimento das espécies nativas, o que pode modificar a estrutura da vegetação ao longo das margens do rio.
Para chegar aos resultados, os cientistas analisaram áreas impactadas e preservadas em diferentes regiões da bacia do Rio Doce. A pesquisa utilizou o método Tea Bag Index, combinado com folhas de espécies nativas e da braquiária, além de análises físicas e químicas do solo para entender como o rejeito altera o funcionamento do ecossistema.
Os dados foram coletados em 2023 em cinco regiões da bacia, com mais de dois mil pontos de amostragem. O trabalho reuniu 19 pesquisadores de instituições nacionais e internacionais, incluindo universidades do Brasil, Reino Unido, China e Estados Unidos.
De acordo com os autores, compreender essas mudanças é fundamental para orientar estratégias de recuperação ambiental na região. A recomendação é que projetos de restauração considerem as alterações no solo e adotem combinações de espécies vegetais que ajudem a restabelecer a ciclagem de nutrientes e conter a expansão de plantas invasoras.
O rompimento da barragem de Fundão ocorreu em 2015 e é considerado o maior desastre ambiental do Brasil. A tragédia liberou milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração, que percorreram cerca de 663 quilômetros de cursos d’água até o litoral do Espírito Santo, causando destruição ambiental e deixando 19 mortos.
