O som da terra descendo a encosta ainda ecoa na memória dos moradores de Três Moinhos. Trinta dias após o temporal que devastou a Zona da Mata mineira, o cenário em Juiz de Fora é de casas interditadas, veículos sob a lama e famílias que aguardam respostas definitivas do poder público.
Na noite de 23 de fevereiro de 2026, o volume de chuva em Juiz de Fora atingiu um terço da média esperada para todo o mês de dezembro. O desastre deixou 65 mortos e cerca de 8 mil desabrigados na cidade, que ocupa o quinto lugar no ranking nacional de municípios com mais registros de desastres naturais, segundo o Cemaden.
Sobrevivência e perdas em Três Moinhos
Gilvan Leal, 55 anos, escapou por pouco do desmoronamento graças ao aviso da irmã. Morador da comunidade Três Moinhos desde o nascimento, o pedreiro agora dorme em uma garagem improvisada e vê sua residência condenada.
“No que eu ia entrar aqui para poder pegar uns documentos, aí minha irmã falou assim: ‘não entra não, Gilvan’. Aí me segurou, não entrei. Na hora que eu pensei em entrar, que eu dei dois passos, desceu tudo com lama lá de cima lá, arrebentou tudo aí”, recorda Gilvan.
Para o morador, o auxílio financeiro é secundário diante da necessidade de reconstrução: “Eu não quero nem dinheiro deles não, que vai me dar R$ 700, vai me dar R$ 1.200. Eu só quero uma solução para chegar, vem a máquina, derruba esse troço aqui que eu vou fazer meu barraco e vou continuar minha casa. É isso que eu quero”.
Impacto econômico e isolamento
A feirante Kasciany Pozzi também enfrenta dias de paralisia. Além do luto pela perda de um tio, ela lida com a interdição de sua casa e o prejuízo total na produção de cana-de-açúcar. Sem acesso às vias, que permanecem bloqueadas por lama, a renda da família foi interrompida.
“Muita cana jogada fora. Não só perdas materiais, mas perda financeira, que é o único ganho que a gente tem, são as canas. Então, o caminhão não consegue sair, a kombi está atolada. Então é a renda que a gente tem, agora a gente está sem renda nenhuma porque a prefeitura não libera a rua. Então tem que liberar a rua para os carros. Como é que o caminhão vai sair, voando?”, questiona Kasciany.
Angústia no Jardim Parque Burnier
No Jardim Parque Burnier, a aposentada Maria da Conceição Couto Almeida, 62 anos, relata a surpresa ao descobrir que vivia em uma zona de perigo. A saída emergencial da residência, apenas com a roupa do corpo, transformou a tranquilidade em incerteza constante.
“A gente nunca ficou sabendo que aqui era área de alto risco. E agora, de repente, fala que é área de alto risco, vem demandando a gente sair assim, sair com a roupa do corpo. A moça que mora por cima da minha casa saiu porque está toda trincada a casa dela. Quer dizer, se a dela cair, põe a minha em risco”, explica Maria da Conceição.
Respostas das autoridades e auxílio
O Governo Federal decretou estado de calamidade pública para Juiz de Fora, Matias Barbosa e Ubá, classificação posteriormente rebaixada para situação de emergência. Confira as principais medidas anunciadas:
- Auxílio Federal: Estimado em cerca de R$ 7.300 por família atingida.
- Auxílio Municipal: Projeto de lei em elaboração pela Prefeitura de Juiz de Fora para amparar moradores e comerciantes.
- Prevenção: A Prefeitura de Matias Barbosa realiza visitas técnicas com o Ministério das Cidades para obras de drenagem.
A Prefeitura de Juiz de Fora informou que as ações priorizam a preservação de vidas e seguem critérios técnicos. O Governo de Minas Gerais não enviou resposta até o fechamento desta reportagem.
Serviço
- Defesa Civil de Juiz de Fora: Atendimento pelo telefone 199.
- Cadastro de Benefícios: Informações nas unidades do CRAS de cada região.
- Doações: Centros de arrecadação municipais (consultar site da prefeitura).
*Com informações de Agência Brasil
