A Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou, nessa quarta-feira (25/3), uma resolução histórica que reconhece o tráfico transatlântico de africanos escravizados como “o mais grave crime contra a humanidade”. O texto foi adotado pela Assembleia Geral da ONU com 123 votos favoráveis, três contrários e 52 abstenções, entre elas, a de Portugal, único país lusófono a não apoiar a medida.
A resolução marca um posicionamento contundente sobre um dos períodos mais violentos da história global. O documento destaca que a escravização em larga escala de africanos representou uma ruptura profunda na trajetória da humanidade, cujos impactos atravessaram séculos e continentes, com reflexos ainda presentes nas desigualdades atuais.
Entre os pontos centrais, a declaração recomenda que os Estados-membros considerem apresentar pedidos formais de desculpas pelo tráfico de escravos, além de contribuírem para a criação de um fundo internacional de reparações. A iniciativa busca avançar no reconhecimento das injustiças históricas e promover justiça, dignidade e direitos humanos para africanos e pessoas de ascendência africana.
O texto também enfatiza que as reivindicações por reparações representam um passo concreto rumo à reparação dessas injustiças. Nesse contexto, a ONU solicita a restituição de bens culturais retirados de seus países de origem, como obras de arte, artefatos, documentos e peças históricas, sem custos, reforçando a importância de seu valor cultural, espiritual e histórico.
A proposta foi apresentada pelo presidente de Gana, John Mahama, país diretamente afetado pelo comércio transatlântico de escravos. Na votação, Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Moçambique votaram a favor e copatrocinaram o texto, defendido por Timor-Leste.
Durante o debate, a presidente da Assembleia Geral, Annalena Baerbock, destacou que a escravidão deixou um legado de famílias despedaçadas e desigualdades persistentes. Segundo ela, enfrentar esse passado é um imperativo moral coletivo, que exige não apenas reconhecimento, mas ações concretas para combater discriminações históricas e construir sociedades mais justas e inclusivas.
Já o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que honrar as vítimas do tráfico transatlântico exige mais do que palavras. Para ele, o enfrentamento desse passado é essencial para a construção de um futuro baseado na liberdade, igualdade e justiça.
A adoção da resolução reforça o compromisso internacional em lidar com um dos capítulos mais sombrios da história, abrindo caminho para debates mais amplos sobre reparação e responsabilidade histórica.
