Quatro anos após o início da invasão da Rússia à Ucrânia, o conflito segue ativo com milhares de mortos, cidades destruídas e impactos diretos na economia e na segurança internacional.
Adriano Gianturco, coordenador do curso de Relações Internacionais do Ibmec, analisa os cenários possíveis daqui para frente:
A atual guerra é considerada uma escalada do conflito iniciado em 2014, com a anexação da Crimeia pela Rússia. Qual era o objetivo da Rússia em ampliar essa invasão?
Gianturco: Por um lado, simplesmente uma expansão territorial. Que obviamente, todo mundo gosta, especialmente países que são potências. Também uma questão estratégica territorial, geográfica, geopolítica, que une neste caso tanto o exemplo que você trouxe da Crimeia quanto essa a última etapa dessa guerra. Dentro deste conjunto, eu destacaria especialmente a famosa questão que foi muito falada, da OTAN: grandes potências não se toleram um à outra, especialmente nas próprias fronteiras. Então, certo ou errado que seja, com a expansão da OTAN para o leste, na direção da Rússia, a Rússia, obviamente, se sente ameaçada e tenta ampliar sua zona de controle.
O presidente Vladimir Putin iniciou a ofensiva com a expectativa de uma vitória rápida, mas as tropas russas recuaram da região de Kiev diante da forte resistência ucraniana. Quais fatores explicam esse recuo e o fracasso da estratégia inicial de Moscou?
Gianturco: Quem se defende tem sempre uma posição de vantagem. É muito mais difícil atacar que se defender. Existem várias teorias, vários cálculos bélicos diferentes, mas alguns cálculos mais consolidados alegam que você precisa de uma superioridade numérica de três vezes. Então, três vezes o número de militares que defende. E depois, claro, o grande fator foi a ajuda da União Europeia e dos Estados Unidos, porque concretamente, sem isso, a Ucrânia não teria resistido muito tempo. Então, foi essa ajuda em parte econômica, em parte militar, em parte de estratégia, de inteligência, que fez com que a Ucrânia conseguisse resistir até agora.
Quais os maiores impactos do conflito mundialmente?
Gianturco: Em primeiro lugar, evidentemente, uma desaceleração da economia em comparação ao que poderia ter tido, porque quando dois países entram em um conflito armado, a economia daqueles dois países de quem está envolvido, obviamente, sente e recua. Eles crescem menos do que poderiam crescer ou às vezes geralmente até entram em crise. Em segundo lugar, também continua impactando o comércio global. A inflação e os preços da Europa antes eram mais baixos, agora aumentaram. Também houve um grandíssimo aumento de refugiados e deslocados que fugiram da Ucrânia para a Polônia, para outros países da União Europeia. Ainda destacaria, sem sombra de dúvida, uma questão sobre política energética e climática. Vários países tentam fazer algumas coisas, só que alguns deles são muito dependentes da importação do gás, da energia da Rússia. E aí, ficam com as mãos engessadas e não podem fazer muito.
O presidente dos Estados Unidos tem pressionado durante esses anos um acordo de paz. Mas o que é que está em jogo para os Estados Unidos?
Gianturco: Em primeiro lugar, a imagem e a reputação do presidente Trump, que falou abertamente, se comprometeu em conseguir esse acordo de paz muito rápido. Então essa é uma questão pessoal de credibilidade dele, mas que também tem algumas repercussões políticas. Em segundo lugar, porque estabilidade no mundo significa manutenção do status quo.
Quais as principais conquistas e derrotas dos dois países nesse conflito?
Gianturco: Todo mundo está perdendo. Concretamente, para a Ucrânia, isso me parece mais evidente porque é o país que foi atacado. Então, já em 2014 perdeu a Crimeia, que era parte relevante, se não uma das mais importantes e estratégicas. E hoje ‘tá’ sob risco de perder outras duas regiões. Além disso, mesmo se sair sem perda territorial deste conflito, obviamente, é um país que está agora devastado, com a economia devastada, cidades bombardeadas, vários mortos. Então, a Ucrânia, não vejo como pode sair dessa ganhando alguma coisa.
Quais são os cenários na sua análise possíveis e mais prováveis do desfecho desse conflito e quais os impactos duradouros que essa guerra vai levar para a Europa e para a ordem internacional?
Gianturco: Tudo pode acontecer banalmente, porque se amanhã o Ocidente parar, por exemplo, de apoiar a Ucrânia, a Ucrânia vai ser engolida em um segundo pela Rússia. Hoje nós estamos falando de Putin e Zelensky, mas se estes líderes ou um dos dois mudar, muda tudo. Hoje estamos num ponto morto, porque os dois poderes estão… os dois lados estão bastante balanceados.
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