Um contrato de advocacia de R$ 427 milhões previa o pagamento de honorários em caso de êxito em ações de interesse de Daniel Vorcaro que poderiam liberar R$ 8,5 bilhões em precatórios. A informação foi revelada pelo Metrópoles nesta segunda-feira (21/9), a partir de documentos e mensagens que constam em material enviado pela Polícia Federal (PF) ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo a reportagem, o contrato envolvia o escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos Advocacia, ligado à advogada Camilla Ramos, mulher do desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). Nas conversas divulgadas pelo veículo, assessores de Vorcaro se referiam a Newton e Camilla como integrantes da “Turma do KN”.
Ainda conforme o Metrópoles, “KN” era uma referência ao ministro Kassio Nunes Marques, do STF. As mensagens também mostram contatos de Newton e Camilla com Vorcaro durante o andamento de processos relacionados aos precatórios.
O material estava em um HD enviado pela PF ao gabinete do ministro André Mendonça, relator do Caso Master, em julho.
Contrato previa pagamento por êxito
De acordo com o Metrópoles, já era conhecida a contratação do escritório ligado a Camilla Ramos pelo Banco Master. A reportagem revelou, porém, o valor previsto no contrato: R$ 427 milhões caso houvesse êxito nas ações.
Os processos poderiam destravar R$ 8,5 bilhões em precatórios adquiridos por Vorcaro e relacionados a usinas de cana-de-açúcar.
Uma das mensagens divulgadas mostra Camilla comemorando um julgamento na Segunda Turma do STF.
“Boa tarde! Grande vitória hoje para as Usinas na 2ª Turma do STF! Placar 3×2 a favor das Usinas, para não aplicar o Tema 826”, escreveu.
Na sequência, ela mencionou diretamente Nunes Marques.
“E um excelente voto do Min Nunes Marques fazendo a distinção dos casos em que o título judicial trouxe os critérios da indenização.”
Segundo a reportagem, Nunes Marques, Dias Toffoli e Edson Fachin votaram por reconhecer o débito, enquanto Gilmar Mendes e André Mendonça divergiram.
Conversas mostram contatos com Newton Ramos
As mensagens divulgadas também registram conversas diretas entre Vorcaro e Newton Ramos sobre os processos.
Em novembro de 2024, Vorcaro escreveu ao desembargador: “Vai ter julgamento dia 4” e, em seguida, “Não sei se viu”. Newton respondeu posteriormente: “Lembrei” e “Tudo certo”.
Em outra conversa apresentada pelo Metrópoles, Newton encaminhou a Vorcaro uma reportagem sobre uma tentativa de conciliação em uma disputa bilionária envolvendo o setor de açúcar e álcool.
Camilla também procurou Vorcaro, em junho de 2025, para tentar marcar uma conversa entre o banqueiro e o marido.
“Olá! Amanhã estará em bsb ou sp?”, perguntou.
Vorcaro respondeu que estaria em Brasília pela manhã e em São Paulo à tarde. Camilla então escreveu: “Chega em sp que hrs? Newton estará lá até amanhã. Se der poderiam falar rapidamente?”
Pedidos de hospedagem
O material divulgado pelo Metrópoles também registra pedidos relacionados a hospedagens. Em fevereiro de 2025, um auxiliar de Vorcaro recebeu a seguinte mensagem: “Newton pedindo Fasano Itaim essa sexta a sábado pro KN, pode fazer neh?”
Outra conversa, de maio daquele ano, identifica nominalmente o ministro.
“Ministro Kassio me pediu para ver se vocês conseguem para ele uma tarifa promocional para o Fasano. Só uma diária. Entrando sexta e saindo sábado”, diz uma mensagem atribuída a Newton e encaminhada a Vorcaro.
Após ser questionado se autorizava o pedido, Vorcaro respondeu: “Pode pegar e colocar minha conta”.
Segundo o Metrópoles, mensagens também registram pedidos relacionados a acesso a eventos, entradas para a Fórmula 1, viagens de avião e camarote na Sapucaí enquanto Vorcaro buscava receber os valores dos precatórios.
Em uma delas, um assessor pergunta ao banqueiro: “Dani, turma do KN (Newton) me mandou aqui 6 nomes para colocar na lista do Camarote… posso encaminhar isso lá pra lista do Camarote, né?”
Em outra, o assessor afirma que Newton havia solicitado uma noite no Fasano Itaim e pergunta se a despesa poderia ser faturada para a Prime. Vorcaro respondeu: “Ok”.