A madrugada do último sábado (3/1) marcou uma escalada inédita na crise entre Estados Unidos e Venezuela. O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e a esposa foram detidos, retirados do país e apresentados ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos, sob acusações relacionadas a ligação com o narcotráfico internacional e uso de armamento pesado.
Os movimentos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltaram a elevar o grau de tensão no continente americano. Desde o início do mandato, Trump tem citado países da região como alvos de tarifas, advertências políticas, disputas estratégicas envolvendo território e, em casos mais extremos, possíveis ações de força.
Trump X Venezuela
A Venezuela é o ponto mais sensível dessa escalada. Antes mesmo da operação, Trump vinha associando o governo venezuelano ao narcotráfico, à instabilidade regional e a riscos à segurança dos Estados Unidos. Além do discurso político, a pressão econômica se manteve por meio de sanções e restrições ao setor de petróleo.
Para o escritor e analista político Augusto de Franco, a atual política externa dos Estados Unidos indica oposição explícita ao multilateralismo e à lógica de regras internacionais, substituídas por uma visão em que o poder define limites e fronteiras. Segundo ele, o caso da Venezuela é excepcional por envolver um regime isolado internacionalmente. ‘Não acredito que isso aconteça com outros países das Américas’, acrescentou.
Trump X Colômbia
A Colômbia aparece como um dos casos mais sensíveis da escalada verbal de Trump. Apesar de ser aliada histórica dos Estados Unidos no combate ao narcotráfico, o país foi alvo de declarações recentes que associam o governo colombiano ao avanço do crime organizado. Questionado por repórteres, no último domingo (4/1), se os EUA realizariam uma intervenção na Colômbia similar à ocorrida na Venezuela, Trump disse: ‘Parece bom para mim’.
O republicano teceu duras críticas à administração colombiana, em uma referência direta ao presidente Gustavo Petro. ‘A Colômbia também está muito doente, administrada por um homem doente, que gosta de produzir cocaína e vendê-la aos Estados Unidos. Ele não vai continuar fazendo isso por muito tempo’, disparou Trump.
O presidente colombiano, Gustavo Petro, reagiu classificando as falas como ofensivas e infundadas, reafirmando que a cooperação com os Estados Unidos deve respeitar a soberania nacional.
Trump X Cuba
Após a ação na Venezuela, Cuba voltou a ser alvo de pressão ideológica. O país é altamente dependente do petróleo venezuelano. No último domingo (4/1), Trump declarou que Cuba não precisaria de uma intervenção militar, pois, segundo ele, já estaria em colapso econômico.
‘Não sei se eles vão resistir, mas Cuba agora não tem renda”, afirmou. “Toda a renda deles vinha da Venezuela, do petróleo venezuelano’, afirmou Trump.
Trump X Groenlândia
A Groenlândia voltou ao debate por seu valor geopolítico. Trump reiterou, nesta semana, o interesse dos Estados Unidos em ampliar o controle ou a influência sobre o território ligado à Dinamarca, citando razões de segurança no Ártico.
‘Precisamos da Groenlândia. A Groenlândia está repleta de navios russos e chineses’, disse.
Autoridades locais e o governo dinamarquês responderam afirmando que a ilha não está à venda e que qualquer decisão cabe à população local.
Para o analista político Augusto de Franco, a Groenlândia é uma questão estratégica, militar e geopolítica para Trump. Ele destaca que, na visão dos Estados Unidos, o controle da ilha é visto como um elemento de defesa diante de possíveis ameaças vindas do Ártico, especialmente da Rússia. No entanto, essa justificativa convive com uma relação ambígua entre Donald Trump e Vladimir Putin.
‘Há indícios recorrentes de alinhamento entre os dois, o que levanta dúvidas sobre a real natureza dessa suposta oposição. Trump frequentemente alterna ameaças públicas e recuos, criando um padrão de comportamento que sugere mais coordenação do que confronto efetivo’, avalia.
Trump X México
O México aparece no centro da agenda dos opioides nos Estados Unidos. Trump tem defendido uma postura mais agressiva contra cartéis de drogas, citando o impacto do tráfico e das overdoses nos americanos, especialmente relacionadas ao fentanil. Em declarações públicas, chegou a mencionar a possibilidade de operações diretas contra grupos criminosos, inclusive em território mexicano.
Em janeiro do ano passado, o Departamento do Interior dos Estados Unidos comunicou que o Golfo do México passaria a se chamar Golfo da América. Na ocasião, a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, respondeu, em tom irônico, que a América do Norte, incluindo os Estados Unidos, fosse chamada de “América Mexicana”.
Trump X Canadá
Mesmo aliados históricos não ficaram fora das declarações de Trump. O Canadá foi citado em disputas comerciais e em falas sobre soberania econômica. O presidente americano ameaçou tarifas mais duras sobre produtos estratégicos, o que aumentou a percepção de imprevisibilidade na relação bilateral, especialmente nos setores de energia e indústria automotiva.
Trump X Panamá
No Panamá, o foco é estratégico. Trump voltou a mencionar a necessidade de ampliar a influência dos Estados Unidos sobre o Canal do Panamá, alegando preocupação com a presença chinesa na infraestrutura logística da região. O governo panamenho reagiu reafirmando a soberania nacional e o caráter internacional do canal, peça central do comércio global.
Trump X Nicarágua
A Nicarágua entrou no radar de Washington por críticas ao governo de Daniel Ortega e pela agenda migratória. A pressão se materializa em sanções e em políticas internas dos Estados Unidos, como tentativas de rever programas migratórios temporários.
Em dezembro, o governo americano cobrou publicamente a libertação de presos políticos no país. A manifestação foi publicada pelo Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado.
EUA X El Salvador, Honduras e Guatemala
No Triângulo Norte da América Central, a principal motivação é o controle migratório. Trump já sinalizou a possibilidade de cortar ajuda externa, aplicar sanções ou ampliar deportações caso os governos da região não cooperem para reduzir o fluxo de migrantes rumo aos Estados Unidos.
Como fica o Brasil nesse cenário?
Diante do aumento das tensões no continente americano, o Brasil tende a ser cada vez mais cobrado a se posicionar. Para Augusto de Franco, o país reúne condições para exercer liderança regional, mas não vem cumprindo esse papel.
Segundo ele, parte dessa dificuldade está ligada ao histórico da política externa brasileira nas últimas décadas. Franco avalia que o país apoiou, de forma recorrente, governos populistas de esquerda e regimes autoritários na América Latina, o que compromete sua imagem internacional. ‘A história recente do Brasil é de apoio a governos ligados a ditaduras”, disse, citando Venezuela, Cuba e Nicarágua como exemplos centrais.
Esse histórico, na avaliação do especialista, impacta diretamente a credibilidade do Brasil no cenário global, especialmente na relação com os Estados Unidos.
Augusto de Franco também apontou incoerência na atuação brasileira ao comparar diferentes conflitos internacionais. ‘Os protestos do Brasil pela soberania da Venezuela não são levados a sério porque Lula não protestou da mesma forma quando Putin invadiu a Ucrânia’, disse.
Outro ponto destacado foi o aprofundamento das relações comerciais entre Brasil e Rússia nos últimos anos. Segundo o analista, esse movimento ampliou a desconfiança de países ocidentais.