Uma indústria de falsos médicos criados por inteligência artificial cresce nas redes sociais e tem como alvo preferencial os idosos. Os vídeos usam avatares realistas, com voz e rosto de médico, para passar recomendações de saúde que muitas vezes não têm base científica, e podem levar alguém a parar um medicamento por conta própria.
O tema foi debatido nesta terça-feira (28/7), no Buenos Dias, da Rede 98, com o geriatra Tércio Silva Ferreira, do Hospital Mater Dei.
Como o golpe funciona
A lógica por trás dos vídeos é comercial. O objetivo é gerar audiência e lucro, seja pela monetização no YouTube, seja pela venda de e-books, cursos e produtos. Para prender a atenção, os produtores apostam em títulos alarmistas e no apelo ao medo, passando a sensação de que o espectador corre um risco grave e imediato. Os avatares imitam a autoridade de um médico de verdade. Alguns vídeos até trazem a tarja “conteúdo gerado por inteligência artificial”, mas o alerta costuma passar despercebido pelo público mais velho.
Segundo Tércio Silva Ferreira, a terceira idade é mais vulnerável por três motivos. O primeiro é a falta de letramento digital: muitos passaram a vida sem smartphone e fazem um uso básico da tecnologia. O segundo são as dificuldades de visão e audição, que atrapalham perceber quando uma informação é falsa. O terceiro é o respeito à profissão médica. Ao ver alguém com aparência de médico na tela, a pessoa tende a confiar de imediato.
Os riscos para a saúde
O geriatra afirma que o WhatsApp é hoje um dos maiores desafios do consultório, porque a orientação médica precisa competir com conteúdos falsos que aparentam autoridade. Entre os perigos concretos estão interromper um medicamento de forma brusca, o que pode causar uma síndrome de descontinuação, e trocar o tratamento correto por soluções ditas naturais. Como resume o médico, nem tudo que é natural é inofensivo.
Ele reforça que as ferramentas de IA não substituem uma consulta. Elas não examinam o paciente e tendem a reforçar as crenças que a pessoa já tem. Na dúvida, a orientação é simples: escute o médico.
Como proteger a família
O médico defende o uso consciente e acompanhado da tecnologia, sem afastar o idoso do mundo digital. Na prática:
Fique de olho no que chega no celular de pais, avós e bisavós;
Converse e explique sempre que um vídeo tiver impacto direto sobre a saúde;
Confirme com um profissional antes de mudar qualquer tratamento por causa de algo visto na internet.
Tércio Silva Ferreira também vê espaço para regulamentação, como sinalizações mais claras de que um conteúdo foi gerado por IA.
