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A fé não precisa de crachá oficial

Por

Paulo Leite

Paulo Leite
  • 19/05/2026
  • 08:52

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(CMBH/Divulgação)

(CMBH/Divulgação)

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A Câmara Municipal de Belo Horizonte informa que foi sancionada a Lei 12.015/2026, criando o Dia Municipal do Dirigente Cristão de Empresas, a ser celebrado em 18 de junho. A justificativa é reconhecer empresários que pautam sua gestão por valores como ética, responsabilidade social, solidariedade, justiça e respeito à dignidade humana. A proposta é do vereador Bruno Miranda, do PDT, e foi sancionada pelo prefeito Álvaro Damião.

A intenção pode até parecer simpática. Afinal, quem seria contra ética, solidariedade, justiça e respeito à dignidade humana? O problema está justamente aí: esses valores não pertencem a uma religião, a uma igreja, a uma denominação, a um grupo específico ou a uma categoria espiritual de empresários. Esses atributos deveriam ser exigência mínima de toda a sociedade.

A virtude não está somente na religião

Empresário cristão deve ser ético. Empresário judeu também. Empresário muçulmano também. Empresário espírita também. Empresário ateu também. Empresário agnóstico também. E, convenhamos, empresário sem religião nenhuma também não está dispensado de respeitar funcionário, cliente, fornecedor, cidade, meio ambiente e lei.

O poder público não pode criar hierarquia moral entre cidadãos com base em crença religiosa. Quando ele institui uma data oficial para reconhecer “dirigentes cristãos de empresas”, ainda que sem má intenção, passa uma mensagem delicada. A de que há uma virtude pública especial associada a uma identidade religiosa específica. E isso não é bom nem para o Estado, nem para a fé.

A fé verdadeira não precisa de carimbo da prefeitura. Não precisa de medalha no calendário oficial. Não precisa de solenidade, faixa, placa, púlpito legislativo ou fotografia em evento institucional. A fé se mostra na prática. No pagamento correto dos salários. Na relação honesta com o consumidor. Na recusa à corrupção. No respeito ao empregado mais simples. Na responsabilidade social que não vira peça de marketing. No lucro legítimo, sim, mas sem transformar gente em parafuso de planilha.

O empresário que age corretamente não precisa ser celebrado por ser cristão. Deve ser respeitado por ser correto. E o empresário que se diz cristão, mas explora, sonega, humilha, atrasa salário ou trata funcionário como peça descartável, não vira exemplo só porque carrega uma Bíblia na mesa ou uma frase devocional na parede da empresa.

Ética não precisa de sobrenome

Sejamos honestos. Ética pública não pode ter sobrenome religioso. A ética é republicana. A solidariedade é humana. A justiça é universal. A dignidade da pessoa humana é princípio de civilização, não propriedade de um segmento.

Belo Horizonte tem problemas demais para que a política continue se dedicando à fabricação de datas comemorativas. A cidade precisa discutir calçadas, drenagem, população em situação de rua, transporte coletivo, segurança urbana, limpeza, desenvolvimento econômico, licenciamento, moradia, ocupação do Centro, cuidado com a Pampulha, revitalização da Savassi. Precisa de menos homenagem simbólica e mais entrega concreta.

O calendário oficial vai virando uma espécie de mural de boas intenções. Todo grupo quer o seu dia. Toda causa quer sua placa. Toda identidade quer seu reconhecimento. E assim o poder público vai trocando o trabalho duro da gestão pela liturgia confortável da homenagem.

Não se trata de negar a importância dos cristãos na vida econômica e social de Belo Horizonte. Evidentemente, muitos empresários cristãos contribuíram e contribuem para a cidade. Mas o mesmo se pode dizer de empresários não cristãos. A cidade não foi construída por uma só fé, por uma só tradição, por uma só visão de mundo. Belo Horizonte é resultado do trabalho de gente diversa, de crenças diversas, origens diversas e convicções diversas.

O Estado é laico

O Estado deve respeitar todas as religiões. Mas exatamente por isso não deve privilegiar nenhuma. Quando a prefeitura e a Câmara transformam uma identidade religiosa específica em objeto de reconhecimento oficial, entram num terreno escorregadio. Hoje é uma homenagem aparentemente inofensiva. Amanhã, outros grupos pedirão tratamento semelhante. Depois, virá a disputa por quem merece mais reconhecimento, mais visibilidade, mais solenidade, mais legitimidade pública.

E a pergunta inevitável será: por que uns sim e outros não?

O bom dirigente empresarial, seja cristão ou não, precisa gerar emprego, pagar impostos, respeitar contratos, cumprir a legislação trabalhista, tratar pessoas com dignidade, inovar, investir, produzir riqueza e devolver algo à comunidade onde atua. Isso basta. Aliás, isso já é muito.

O poder público não deveria perguntar qual é a fé do empresário. Deveria perguntar se ele respeita a cidade. Não deveria premiar identidade religiosa. Deveria cobrar conduta pública. Não deveria criar uma vitrine para valores que pertencem a todos. Deveria garantir que esses valores sejam praticados por todos.

A fé, quando é profunda, dispensa holofote. A virtude, quando é verdadeira, não precisa de decreto. E a política, quando é séria, não transforma o calendário público em catálogo de homenagens.

Belo Horizonte merece uma Câmara preocupada menos em celebrar segmentos e mais em resolver problemas. Porque, no fim das contas, o cidadão não quer saber se o empresário homenageado é cristão, judeu, ateu ou espírita. Quer saber se ele gera bons empregos, paga salários em dia, respeita o consumidor, cumpre a lei e ajuda a cidade a andar para frente.

Esse, sim, deveria ser o verdadeiro dia municipal: o dia do trabalho honesto, da responsabilidade pública e da igualdade entre todos os cidadãos. Sem distinção de fé. Sem privilégio simbólico. Sem confundir a virtude com a identidade religiosa.

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Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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