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A greve dos garis revela falha de gestão, fiscalização e contingência na limpeza urbana de BH

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Lixo acumulado no bairro Padre Eustáquio, no primeiro dia de greve dos garis

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Belo Horizonte voltou a encarar um daqueles problemas que não admitem improviso: a coleta de lixo domiciliar parou em parte da cidade por causa da paralisação dos garis, e o impacto aparece em horas, sacos acumulados, mau cheiro, risco sanitário e a sensação de que a capital funciona “no limite do limite”. 

A paralisação começou na manhã de segunda-feira, 19 de janeiro de 2026, por volta das 6h, com manifestação na sede da empresa Sistemma Serviços Urbanos, no bairro São Gabriel, próximo ao Anel Rodoviário.

O episódio é grave por si. Mas ele é ainda mais grave porque não nasce do nada. A limpeza urbana já vinha sendo alvo de queixas recorrentes, e a greve apenas acelera aquilo que estava mal resolvido. Quando o serviço essencial opera com planejamento frágil, frota esticada e gestão contratual burocrática, basta uma faísca trabalhista para virar incêndio.

O que está em disputa

Os trabalhadores relatam descumprimento de obrigações trabalhistas e condições precárias de operação como: atraso e irregularidade no depósito de FGTS, ausência de convênio médico, sucateamento ou insuficiência de caminhões, falta de manutenção, escassez de equipamentos de segurança e quadro reduzido, com efeito direto sobre jornada e risco de acidente.

Essas alegações têm um peso objetivo: não são “benefícios cosméticos”, são itens que, se confirmados, apontam para falhas básicas de conformidade trabalhista e segurança do trabalho, exatamente o tipo de problema que, em serviço pesado e de rua, vira lesão, afastamento, acidente e queda imediata de produtividade. Em limpeza urbana, a operação é física, contínua e sensível, se falta caminhão, se falta equipe, se falta EPI, o sistema colapsa rápido.

A empresa, por sua vez, rebate as acusações e sustenta que cumpre obrigações e fornece equipamentos, contestando a dinâmica do movimento.

Em paralelo, a SLU informa que acompanha a situação e declara estar adimplente com as obrigações contratuais relacionadas à prestação do serviço. Traduzindo para o que interessa ao cidadão. Pode até haver uma disputa entre “empresa x trabalhadores”, mas a cidade não pode ficar refém desse impasse. E é aqui que entra a crítica principal.

Terceirizar não é terceirizar responsabilidade

A SLU é a autarquia municipal responsável por elaborar, controlar e executar ações de limpeza urbana em BH. E a própria Prefeitura mantém, em transparência, a informação de que a Sistemma LTDA atende o Lote 2 (regionais Leste, Nordeste e Noroeste) no contrato identificado como Contrato 11/2020.

Ou seja: não estamos falando de um serviço “periférico”. Estamos falando de um contrato estruturante do cotidiano urbano. Se ele falha, a falha não é só operacional, é de governança.

Porque existe uma diferença enorme entre: “A Prefeitura pagou o contrato”, e, “o serviço foi entregue com qualidade, regularidade, segurança e conformidade”.

A adimplência financeira, sozinha, não resolve três perguntas que BH precisa responder com seriedade: Como está sendo feito o monitoramento da frota e do efetivo? (capacidade instalada x demanda real);  Como a fiscalização acompanha o cumprimento das obrigações trabalhistas críticas? (FGTS, condições, escalas, segurança); E qual é o plano de contingência quando a coleta para? (redundância, remanejamento, rotas emergenciais, comunicação)

Se a resposta for, “estamos acompanhando”, então a gestão está operando no modo que BH já conhece: reage quando o lixo aparece.

Impacto imediato: risco sanitário, ambiental e institucional

A paralisação afeta a coleta em áreas atendidas pela Sistemma, com impacto apontado nas regionais Leste, Nordeste e Noroeste.

Em poucas horas, o lixo acumulado vira vetor sanitário, é um problema ambiental, além da cidade perder a previsibilidade do básico.

Uma capital que falha no básico abre espaço para o improviso virar regra. Aí surge o “jeitinho” do descarte em lote, o saco largado no passeio, o lixo indo para a boca de lobo, e a Prefeitura depois gasta mais com entupimento, drenagem, zoonoses e limpeza corretiva. É o famoso barato que sai caro, e fica fedendo.

O que deveria acontecer 

Vamos direto ao ponto. BH precisa de resposta técnica e pública, em pontos básicos e fundamentais:

É necessária a urgente realização de uma operação emergencial feita em horas, não em dias.

Realização de uma auditoria e evidências, com documentos, não com notas para a imprensa, comprovando com objetividade a regularidade no recolhimento do FGTS e demais obrigações, pela empresa terceirizada.

A checagem técnica da frota, verificando as questões de quantidade de caminhões disponíveis, seu estado de conservação, as fichas técnicas que comprovem manutenção, e a idade média dessa frota.

A verificação de fornecimento dos EPI e protocolos de segurança relatados pelos trabalhadores.

É imprescindível estabelecer regras de governança contratual que funcione, com metas e indicadores públicos de regularidade de coleta, com penalidades financeiras, que privilegiem cláusulas mais rígidas de contingência e redundância operacional. Realizar fiscalização com rastreabilidade, e estabelecer canais diretos e transparentes para que os moradores acompanhem o serviço por regional.

A cidade não pode negociar com o lixo

Greve é direito e negociação é o caminho. Mas o cidadão não pode pagar a conta da má gestão, seja ela da empresa, seja do modelo de fiscalização, seja da arquitetura de contrato que não se sustenta quando a realidade aperta.

Se BH quer ser uma capital moderna, comece pelo que é mais antigo e mais essencial. Rua limpa, coleta regular, trabalhador protegido e contrato fiscalizado de verdade. Porque, quando a limpeza urbana vira crise, não é só o lixo que aparece. Aparece, sobretudo, o tamanho do descuido de quem deveria ter prevenido.

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Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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