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A placa que grita: falta gente para trabalhar

Por

Paulo Leite

Paulo Leite
  • 18/05/2026
  • 08:31

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(Reprodução/Redes sociais)

(Reprodução/Redes sociais)

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Há uma fotografia que resume melhor do que muitos relatórios a dificuldade de quem empreende no Brasil real. Não é uma tabela do Ministério da Economia. Não é um gráfico colorido de consultoria. Não é discurso de palanque.

É uma faixa pendurada na frente de um restaurante.

Nela, a Degustare Gourmet, em Belo Horizonte, oferece R$100 para quem indicar um trabalhador que seja contratado. A lista de vagas é longa: atendente, chefe de cozinha, cozinheiro, padeiro, chapista, auxiliar de cozinha, salgadeira, recepcionista, subgerente, gerente. E ainda promete premiações mensais e “ótimo salário”.

A imagem é simples, quase banal. Mas ela diz muito.

Diz que o empreendedor não está apenas procurando funcionário. Está caçando trabalhador. Está pedindo socorro na calçada. Está transformando recrutamento em campanha de indicação, quase como quem procura cachorro desaparecido, documento perdido ou parente sumido.

Emprego não pode ser discurso político

O Brasil acostumou-se a falar do desemprego como tragédia, e ele é. Mas agora começa a conviver também com outra tragédia, mais silenciosa e mais incômoda: a falta de mão de obra disposta, qualificada e disponível para ocupar vagas que existem.

E esse é um debate que o país precisa fazer sem romantismo, sem gritaria ideológica e sem a velha mania nacional de transformar todo problema em torcida organizada.

Porque há uma pergunta na porta de muitos restaurantes, padarias, bares, lojas, oficinas, hotéis e pequenos comércios: onde estão os trabalhadores?

A resposta não cabe numa frase. Mas passa por três pontos fundamentais. Baixa qualificação, mudança cultural diante do trabalho e um sistema de benefícios públicos que, em alguns casos, pode desestimular a formalização ou o retorno ao emprego.

Benefício é ponte e não sofá

Não se trata de demonizar programas sociais. Seria uma brutalidade intelectual. Benefício público é necessário em país desigual. Há famílias que dependem desse apoio para comer, vestir os filhos, pagar passagem e sobreviver. O Estado não pode lavar as mãos diante da pobreza.

Mas uma coisa é proteger quem precisa. Outra é criar um ambiente em que parte da população passa a calcular se vale a pena aceitar um emprego formal, cumprir horário, pegar ônibus cheio, responder a chefe, trabalhar sábado, feriado e fim de semana, para, no fim, ganhar pouco mais do que receberia ficando fora do mercado formal.

Quando esse cálculo começa a pesar contra o trabalho, alguma coisa está errada.

O problema não está na existência do benefício. Está no desenho do benefício. Benefício precisa ajudar a pessoa a atravessar o rio, não convidá-la a morar na margem. Precisa proteger sem aprisionar. Amparar sem acomodar. Dar fôlego sem matar o impulso.

O Brasil criou uma estrutura pública muito eficiente para distribuir auxílio, mas pouco, ou quase nada eficiente, para qualificar, treinar, encaminhar e reinserir pessoas no mercado. O resultado é um país onde há gente precisando de renda e há empresas precisando de gente. Mas uma coisa não encontra a outra.

É como se tivéssemos a fome de um lado e a comida do outro, separadas por um balcão quebrado.

Quem paga a conta é o pequeno empresário

O pequeno empresário sente isso na pele. Ele não escreve tese. Ele abre a porta cedo, paga imposto, compra mercadoria, enfrenta fiscalização, aluguel, energia cara, encargo trabalhista, inadimplência, concorrência desleal, burocracia e, agora, a dificuldade de encontrar funcionário.

O restaurante precisa de cozinheiro. A padaria precisa de padeiro. O bar precisa de garçom. O comércio precisa de atendente. A obra precisa de servente. A indústria precisa de técnico. Mas aparece pouca gente, muita gente aparece sem preparo, alguns desistem no primeiro obstáculo e outros simplesmente somem depois da entrevista.

O sumiço virou parte do processo seletivo. Marca entrevista e não vai. Aceita a vaga e não aparece no primeiro dia. Começa numa semana e abandona na outra. O empresário virou gerente de recursos humanos, psicólogo, cobrador, conselheiro, treinador e, em muitos casos, quase babá de adulto.

É duro dizer isso, mas é preciso, há uma crise de responsabilidade no mercado de trabalho.

A baixíssima qualificação 

Muitos trabalhadores não dominam o básico. Chegam sem formação técnica, sem experiência, sem noção de atendimento, sem disciplina de horário, sem capacidade de comunicação e, às vezes, sem compreensão mínima do que é uma rotina profissional. Não é culpa individual apenas. É falha de um país que destruiu sua educação básica, desprezou o ensino técnico e vendeu a ilusão de que diploma vale mais do que competência.

Durante anos, o Brasil tratou o trabalho manual, operacional e técnico como atividade menor. Como se cozinheiro, padeiro, eletricista, mecânico, marceneiro, balconista, operador de máquina, técnico de refrigeração e motorista fossem peças secundárias da economia. Não são. São a espinha dorsal do país que funciona.

A economia real vive de gente que acorda cedo, pega no batente, resolve problema e entrega serviço.

O drama é que essa gente está cada vez mais difícil de encontrar.

E o setor de alimentação talvez seja um dos retratos mais claros dessa crise. Restaurante não pode esperar. A fome do cliente não aceita reunião de alinhamento. O almoço precisa sair ao meio-dia. O pão precisa estar pronto de manhã. A chapa precisa funcionar no horário. A recepção precisa sorrir mesmo quando o dia está torto. É um setor intenso, cansativo, exigente e com pouca margem para erro.

Quando falta um trabalhador, a cozinha sente. Quando faltam vários, o negócio sangra.

Quem paga essa conta?

O empresário paga primeiro. Depois paga o cliente, com serviço pior, fila maior, preço mais alto e atendimento irregular. No fim, paga a cidade, porque comércio fraco significa menos emprego, menos imposto, menos circulação de renda e mais lojas fechadas.

A placa da Degustare é, portanto, mais do que uma propaganda de vagas. É um boletim médico da economia urbana. Ela mostra que o paciente está de pé, mas com febre.

Há também uma contradição brasileira que precisa ser encarada. O país fala muito em emprego, mas fala pouco em produtividade. Fala muito em direito, mas pouco em dever. Fala muito em inclusão, mas pouco em preparo. Fala muito em oportunidade, mas pouco em mérito, esforço e permanência.

Emprego não é favor

Emprego é contrato. De um lado, o empregador precisa pagar corretamente, respeitar a lei, oferecer condições dignas e tratar gente como gente. Do outro, o trabalhador precisa cumprir horário, aprender, respeitar cliente, zelar pelo serviço e entender que salário não é prêmio de presença: é consequência de entrega.

O equilíbrio está se perdendo.

E quando esse equilíbrio se perde, o empreendedor vira o vilão automático da narrativa. Se anuncia vaga, dizem que paga pouco. Se exige experiência, dizem que exclui. Se cobra disciplina, dizem que explora. Se reclama da falta de trabalhador, dizem que está exagerando.

O que a faixa da Avenida do Contorno revela?

A faixa na porta do restaurante desnuda o Brasil. É necessário que o país pare de fingir que o problema não existe. Programas sociais devem continuar, mas precisam conversar com capacitação, emprego e formalização. Quem pode trabalhar deve ser estimulado a trabalhar. Quem precisa de formação deve ser treinado. Quem está no benefício deve ter porta de saída digna, não armadilha de permanência.

Também é preciso valorizar o ensino técnico com a seriedade que ele merece. O país não precisa apenas de mais bacharéis perdidos no mercado. Precisa de bons cozinheiros, padeiros, mecânicos, eletricistas, programadores, cuidadores, técnicos industriais, profissionais de atendimento, operadores e gestores de pequena empresa.

O Brasil ainda acha que formação profissional é plano B. Não é. Para milhões de pessoas, é o melhor plano A.

O trabalho precisa voltar a ser visto como construção de vida, não como castigo social. Trabalhar cansa, claro. Mas não trabalhar também cobra seu preço, e cobra caro. Cobra em dependência, perda de autonomia, baixa autoestima, fragilidade familiar e exclusão.

O empreendedor, por sua vez, também precisa se adaptar. É preciso treinar, criar um ambiente melhor, oferecer perspectiva, organizar escala, respeitar limites e entender que a nova geração tem outra relação com o trabalho. Nem tudo é preguiça. Às vezes é desalento. Às vezes é falta de orientação. Às vezes é simples despreparo.

Mas também não dá para dourar a pílula. Há, sim, uma parcela que quer renda sem compromisso, benefício sem contrapartida e oportunidade sem esforço. E país nenhum se sustenta assim. Nem com poesia, nem com planilha, nem com discurso de ministro.

A placa da Degustare deveria ser lida pelas autoridades como um alerta. Não apenas pelas secretarias de emprego, mas pelas áreas de educação, assistência social, desenvolvimento econômico e planejamento urbano.

Porque quando um restaurante precisa pagar recompensa para encontrar funcionário, não estamos diante de um caso isolado. Estamos diante de um sintoma.

O Brasil precisa reconstruir a ponte entre assistência e trabalho, entre escola e profissão, entre oportunidade e responsabilidade.

Do contrário, veremos cada vez mais faixas como essa pelas ruas com comerciantes oferecendo prêmio por indicação, empresários desesperados. Com clientes mal atendidos, negócios reduzindo horário e a economia real funcionando aos trancos.

No fundo, aquela placa diz uma frase que não está escrita, mas está gritando:

há vagas, falta preparo; há empresas, falta gente; há trabalho, falta uma política séria para fazer o trabalhador chegar até ele.

E enquanto o país não enfrentar isso, o empreendedor brasileiro continuará fazendo o que sempre fez: abrindo a porta, pagando a conta, segurando o rojão, e pendurando na fachada o pedido de socorro que Brasília insiste em não enxergar.

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Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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