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A política mineira: o verbo pachecar, a orelha puxada e o escândalo que não escolhe lado

Por

Paulo Leite

Paulo Leite
  • 19/06/2026
  • 09:59

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Cidade Administrativa, sede do Governo de MG | FOTO: Gil Leonardi/Imprensa MG

Cidade Administrativa, sede do Governo de MG | FOTO: Gil Leonardi/Imprensa MG

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Ontem e hoje foram dias deste colunista ter a orelha puxada. A política tem dessas coisas. A gente escreve, comenta, analisa, mexe no vespeiro e, de repente, aparece alguém com a régua na mão, pronto para medir a pancada. No meu caso, a régua veio de dois lados, do PL mineiro e de Gabriel Azevedo.

O PL não gostou da coluna em que eu disse que o partido, sob o comando do deputado federal Zé Vitor, entrou numa condução sem rumo e acabou refém da indefinição do senador Cleitinho Azevedo. Mas não se trata de recado, birra ou implicância. Trata-se de análise. E uma análise, para ser séria, não nasce de chute. Nasce de conversa, bastidor, leitura de cenário e escuta de gente que está dentro do próprio jogo.

Conversei com integrantes da executiva do PL, com deputados estaduais, com deputados federais e com lideranças que acompanham de perto a montagem do tabuleiro mineiro. A avaliação que ouvi, de forma recorrente, é que o PL ficou olhando o barco navegar enquanto Cleitinho decidiu remar no próprio ritmo. E Cleitinho, convenhamos, inventou o mais novo verbo da política mineira. Pachecar.

Eu pacheco, tu pachecas, ele pacheca.

Cleitinho está pachecando. Vai empurrando com a barriga, ganha tempo, aumenta o cacife, testa aliados, provoca adversários e deixa todo mundo esperando a próxima cena. É estratégia? Pode ser. É esperteza? Também pode ser. Mas, em eleição majoritária, chega uma hora em que o candidato precisa dizer a que veio. E, principalmente, com quem vem.

O problema de Cleitinho é que a indefinição já virou personagem principal da sua própria pré-campanha. Se ele disser agora que não será candidato ao governo de Minas, corre o risco de frustrar uma multidão de seguidores que enxergam nele um líder popular. Pode parecer recuo, fraqueza, medo da arena maior. Se disser que será candidato, entra num jogo mais pesado, com cobrança de programa, palanque, estrutura, alianças, economia, saúde, educação, segurança e capacidade real de governar.

É por isso que repito: se Cleitinho ganhar, ele perde. Se perder, perde também. Se ganhar, terá que governar Minas, que não cabe num vídeo de celular. Se perder, pode deixar pelo caminho parte do encanto que hoje alimenta sua força eleitoral. Popularidade é vento. Governo é chão duro.

O outro puxão de orelha

A outra orelha puxada veio de Gabriel Azevedo. Ele não gostou de eu ter dito que os pré-candidatos ao governo de Minas ainda não apresentaram programas consistentes de governo. E aqui faço a correção necessária. Gabriel me informou que o economista Marcos Lisboa coordena o seu programa. Isso muda a conversa. Marcos Lisboa é um dos economistas mais respeitados do país, com visão ampla, técnica e profundamente conectada aos problemas reais do Brasil.

Então, Gabriel, fica aqui o registro: quero ler esse programa. Quero estudá-lo. Quero saber se há ali mais do que boas intenções, mais do que frases bonitas, mais do que aquele velho cardápio genérico de campanha que promete eficiência, inovação, gestão moderna e futuro brilhante, mas não explica como pagar a conta nem como enfrentar a máquina enferrujada do Estado.

O mesmo vale para Mateus Simões. Quero conhecer o programa de governo, que seja público, claro, organizado, debatido. Minas não pode entrar em 2026 discutindo apenas quem sobe no palanque de quem. O Estado precisa saber o que cada candidato pretende fazer com as estradas, com a segurança, com a educação, com a dívida, com a saúde regional, com o metrô de Belo Horizonte, com a mobilidade nas cidades, com o projeto de desenvolvimento do estado. Minas não precisa de candidato decorativo. Precisa de rumo.

O PSB também vive sua própria novela. Jarbas Soares aparece como pré-candidato, fala-se em prévias, Tacilinho conversa com Gabriel Azevedo, Gabriel conversa com setores do PT, o PT conversa com meio mundo e ainda não resolveu com quem vai. Minas virou uma sala de espera. Todo mundo sentado, olhando para a porta, esperando alguém entrar com a resposta.

E é nesse cenário que Lula volta a Minas

A visita presidencial a Belo Horizonte e Divinópolis tem agenda administrativa, anúncios na área da saúde, investimentos e inauguração. Tudo isso é relevante. Saúde pública não é detalhe. Hospital, leito, radioterapia, atendimento pelo SUS, tudo isso importa, e muito. Mas ninguém deve fingir ingenuidade. Em ano eleitoral, agenda presidencial em Minas nunca é apenas agenda presidencial em Minas. Tem obra, tem placa, tem discurso, tem aperto de mão e tem cálculo político.

Lula chega a um Estado estratégico, o segundo maior colégio eleitoral do país, sem palanque definido. Rodrigo Pacheco saiu do radar como candidato ao governo. Marília Campos, que poderia ser uma solução natural para o PT, quer o Senado e carrega consigo uma história interna de desgastes com o próprio partido. Não é simples pedir agora que ela seja bombeira de incêndio que outros acenderam.

Marília conversa com setores que parte do PT costuma tratar como inimigos. Fala com empresários, dialoga com moderação, tem trânsito fora da bolha partidária. Para alguns petistas, isso é virtude. Para outros, pecado. E o PT, quando começa a discutir pecado interno, costuma transformar missa em congresso e congresso em briga de sacristia.

AInda tem a bomba Master

Mas Lula não desembarca em Minas apenas em meio ao dilema do palanque. Ele chega depois de mais uma explosão do caso Master, agora com a investigação batendo à porta de Jaques Wagner, seu aliado histórico, seu líder no Senado, seu “galego” de confiança.

E aqui é preciso separar as coisas com rigor. Investigação não é condenação. Busca e apreensão não é sentença. Ninguém deve ser tratado como culpado antes do devido processo legal. Jaques Wagner nega irregularidades, o PT declara confiança no senador, e cabe às autoridades apurar os fatos com prova, contraditório e transparência.

Mas também não dá para varrer o assunto para debaixo do tapete com discurso emocional. Corrupção investigada não se enfrenta com poesia institucional, nota de solidariedade ou sermão sobre amor. Corrupção, quando há indícios, deve ser investigada. Simples assim. Com lei, com prova, com defesa, com juiz, com Ministério Público, com Polícia Federal e com luz acesa.

O discurso de Davi Alcolumbre ou de qualquer autoridade que tente transformar indignação pública em falta de amor precisa ser colocado no lugar certo. O Brasil não está falando de desavença de família, briga de vizinho ou mal-entendido de condomínio. O Brasil está falando de suspeitas graves envolvendo banco, dinheiro, influência, agentes públicos, fundos, empresários, políticos e o sistema de poder.

E o caso Master tem uma característica especialmente corrosiva: ele não respeita a fronteira ideológica. A investigação já respingou na esquerda, na direita, no centro, em cima, embaixo, dos lados. Daniel Vorcaro, ao que tudo indica pelas apurações, não parecia interessado em cartilha partidária. O interesse era outro: acesso, influência, proteção, oportunidade e dinheiro.

O escândalo mostra como parte do poder brasileiro funciona como condomínio fechado. Por fora, os políticos gritam. Por dentro, almoçam juntos. No palanque, se acusam. Nos bastidores, fazem ponte. Em público, falam em povo. Em privado, discutem negócios, influência e sobrevivência.

Vorcaro aparece nesse enredo como operador de uma lógica conhecida. Aproximação, charme, sofisticação, avião, festa, interlocução, gentileza cara, promessa e, se as suspeitas se confirmarem, corrupção. É o velho Brasil de terno novo. Aquele país em que o poder se move menos por ideologia e mais por conveniência. A ideologia entra pela porta da frente para o eleitor ver. O interesse entra pela garagem.

Por isso Lula precisa falar. Não para condenar Jaques Wagner. Não para atropelar investigação. Mas para dizer, com clareza, que ninguém do seu entorno terá blindagem política. O presidente precisa afirmar que a apuração deve ir até o fim, alcance quem alcançar. Porque o silêncio, nesses casos, não é prudência: é neblina. E a neblina, na política, costuma proteger quem não quer ser visto.

Da mesma forma, a direita precisa abandonar a hipocrisia seletiva. Quando o escândalo bate no adversário, é corrupção. Quando encosta no aliado, é perseguição. Quando mira o outro lado, é limpeza. Quando mira o próprio quintal, é abuso. Essa régua torta destrói a credibilidade do debate público. Corrupção não muda de nome conforme o partido atingido. Corrupção é corrupção.

mas a vida continua…

Minas assiste a tudo isso enquanto seus candidatos ainda procuram programa, palanque e frase de campanha. O PL precisa decidir se será protagonista ou passageiro de Cleitinho. Cleitinho precisa decidir se quer liderar ou apenas manter a plateia em suspense. Gabriel Azevedo precisa apresentar o programa que diz ter. Mateus Simões também. O PT precisa resolver se quer candidatura própria, aliança possível ou mais uma novela interna. Lula precisa explicar como pretende construir palanque num Estado em que todo mundo conversa com todo mundo, mas quase ninguém assume compromisso definitivo.

E o eleitor mineiro? O eleitor mineiro está ali, como sempre, desconfiado, observando da janela. Mineiro não atravessa rua só porque alguém gritou do outro lado. Mineiro olha o tempo, mede a sombra, consulta o silêncio e só depois decide se vai.

A política de Minas está cheia de gente querendo puxar orelha de jornalista. Pode puxar. Faz parte. Orelha de jornalista foi feita para ouvir reclamação, bastidor, bronca, ameaça velada, elogio desconfiado e convite para café.

Mas a coluna continua de pé

Porque, no fim das contas, o papel do jornalismo não é agradar partido, candidato, governo ou oposição. É cutucar onde dói. É perguntar onde falta resposta. É desconfiar onde sobra certeza. É lembrar que política sem cobrança vira teatro. E teatro, em Minas, pode até ter bom ator. Mas o público, quando percebe um improviso ruim, não aplaude. Levanta e vai embora.

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Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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