O jornalismo mineiro perdeu, nesta quarta-feira (17), um dos gigantes das redações. Baptista José Patrus Chagas de Almeida era primoroso, tanto no texto quanto na forma de tratar os bastidores do Poder.
Pai do jornalista João Henrique do Vale, nosso colega de trabalho, Baptista deixa, além da família e dos amigos, uma história profundamente ligada ao jornalismo mineiro. Sua trajetória foi construída com o rigor de quem conhecia a política por dentro, mas jamais deixou de observá-la com o olhar crítico de quem sabia que o jornalista não pertence aos governos, aos partidos ou aos poderosos. Pertence ao leitor.
Formado em Comunicação Social pela PUC Minas, Baptista Chagas dedicou a maior parte de sua vida profissional ao jornal Estado de Minas, onde começou ainda jovem e percorreu praticamente todos os caminhos de uma grande redação. Foi repórter, editor, editorialista e colunista. Especializou-se na cobertura política e tornou-se um profundo conhecedor do Palácio da Liberdade, da Assembleia Legislativa, do Congresso Nacional e dos movimentos partidários de Minas e do país.
Na coluna “Em Dia com a Política”, acompanhou durante anos os bastidores do poder. Tinha informação, memória e fontes. Mas tinha, sobretudo, algo que não se aprende apenas nos bancos da universidade: a capacidade de compreender os silêncios, as entrelinhas e os gestos da política. Sabia que, muitas vezes, a notícia mais importante não estava no discurso pronunciado diante dos microfones, mas na conversa de corredor, na mudança de posição ou na ausência cuidadosamente calculada.
Baptista pertenceu a uma geração de jornalistas formada no cotidiano das redações, no telefone, na apuração persistente, na leitura atenta dos documentos e no convívio permanente com os fatos. Uma geração para a qual a credibilidade não era uma palavra de campanha publicitária, mas um patrimônio conquistado lentamente, matéria após matéria.
Colegas de profissão reconheciam nele o conhecimento acumulado, a disposição para o debate e a generosidade de quem dividia experiências com os mais jovens. Sua presença ajudou a formar profissionais e a preservar a memória política de Minas Gerais.
Para João Henrique do Vale e toda a família, fica o abraço solidário dos colegas e amigos. A perda de um pai não cabe inteiramente nas palavras. Há sempre uma parte da dor que permanece sem tradução.
Para o jornalismo, fica a obra de uma vida dedicada a contar, interpretar e fiscalizar o poder.
Baptista Chagas de Almeida deixa a redação, mas permanece na memória da imprensa mineira. Porque alguns jornalistas não apenas registram a história. Com seu trabalho, passam também a fazer parte dela.
