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As estradas em Minas atrasam o desenvolvimento e colocam vidas em risco

Por

Paulo Leite

Paulo Leite
  • 13/04/2026
  • 09:13

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(IMAGEM ILUSTRATIVA/DER-MG)

(IMAGEM ILUSTRATIVA/DER-MG)

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Minas Gerais tem uma vocação quase natural para o turismo. O estado reúne cidades históricas, gastronomia poderosa, calendário cultural forte e uma malha de destinos que vai da fé ao barroco, da serra à cozinha de fogão a lenha. 

Não por acaso, mais de 32 milhões de turistas passaram por Minas em 2024, o turismo respondeu por quase 7% do PIB estadual e gerou mais de 433 mil empregos formais, com 13.457 novas vagas entre abril de 2024 e março de 2025. O problema é que Minas vende encanto, mas entrega, muitas vezes, estrada ruim. E uma estrada ruim é a forma mais eficiente de sabotar a própria vocação do estado.

O Rali BH-Tiradentes 

A viagem entre Belo Horizonte e Tiradentes é uma espécie de raio-X desse abandono. Na ida, a BR-040, principal eixo federal de ligação entre Minas e o Rio de Janeiro, expôs um trecho crítico na passagem por Congonhas, justamente um dos gargalos mais conhecidos da rodovia. A situação é tão reconhecida que a concessionária anunciou, para agora, abril de 2026, o início da preparação das obras de duplicação entre os quilômetros 602 e 612, em Congonhas, com obras mais pesadas previstas para agosto e conclusão apenas em 2027. O problema é um velho conhecido, o anúncio existe, o cronograma está posto, mas o sofrimento do motorista é no presente, não no release de imprensa.

Das estradas federais para as estaduais

Aí surge o trevo para São João del-Rei, pouco depois do arriscado trecho BH- Congonhas. Uma rodovia estadual e o motorista encantado vê pista dupla e respira aliviado. Isso não dura muito tempo, logo depois de Entre Rios de Minas inicia-se a aventura. O trecho piora, o acostamento desaparece e o mato toma conta da beira da estrada. Chega-se a Lagoa Dourada, alguns, para diminuir o stress, optam pelo rocambole e a empada, mal sabem o que lhes espera. 

O trecho estadual entre Lagoa Dourada e São João del-Rei, se transforma em Paris-Dacar. Traçado sinuoso da década de 50, curvas, sinalização precária e ausência de acostamento. Coitado do motorista que tiver que passar por uma situação de emergência.

O encanto de Tiradentes

Se tem um lugar que o turista não se cansa de visitar, é Tiradentes. A cidade traduz uma experiência sempre renovada de beleza. O turismo gastronômico e o enoturismo dão cada vez mais vida nova e mais motivos para a visitação da cidade e da região. Mas tem a viagem de volta.

Um novo caminho, a mesma decepção

Depois da experiência desanimadora da ida, o motorista descobre que pode voltar por outro caminho. Anima-se. Opta pela BR-265, entre Barbacena e a região de São João del-Rei, e a sensação se repete. Remendos, desgaste, insegurança e baixa qualidade de conservação. 

O governo federal já reconheceu a precariedade do eixo ao anunciar obras de recuperação em 64 quilômetros da BR-265, com investimento de R$54 milhões, destacando o histórico de acidentes e a necessidade de nova capa asfáltica, drenagem e sinalização. O motorista se pergunta: O que foi feito até então? Nada. Quando o próprio poder público admite, em ato oficial, que um trecho precisa de recuperação estrutural, é porque a situação deixou de ser incômoda e virou passivo.

O prejuízo é bem maior

Estrada ruim não é só desconforto. É um atraso econômico. É um custo logístico maior. É o frete mais caro. É desgaste de veículo. É perda de competitividade. É turista pensando duas vezes antes de voltar. 

Minas teve PIB nominal de R$275,3 bilhões no primeiro trimestre de 2025, com os serviços respondendo por mais da metade da produção econômica do estado. Dentro desse universo, turismo, comércio e transportes são peças vitais. Quando a infraestrutura rodoviária falha, não é apenas o carro do viajante que balança; balança junto a engrenagem inteira de uma economia que depende de circulação, consumo e previsibilidade.

No caso do turismo, o dano é ainda mais perverso porque é silencioso. Dados do Minas Santa 2025 mostram que o estado atraiu 550 mil visitantes e movimentou R$1,9 bilhão. No Carnaval de 2026, o estado reuniu 14,9 milhões de foliões e injetou R$5,83 bilhões na economia, com destaque para o crescimento do Carnaval nas cidades históricas. Tiradentes, São João del-Rei, Congonhas, Ouro Preto, Mariana e Diamantina estão justamente nesse mapa de ouro do turismo mineiro. Só que entre a propaganda oficial e a experiência real existe um asfalto esburacado. O turista pode até se apaixonar pela cidade, mas dificilmente esquece a estrada sofrível que percorreu para chegar até ela.

A triste realidade do asfalto

Os números gerais do estado deixam a crítica ainda mais dura. A Pesquisa CNT de Rodovias 2025 apontou que 65,4% da malha analisada em Minas estão em estado regular, ruim ou péssimo. A geometria das vias é um desastre à parte: 71,6% dos trechos têm avaliação regular, ruim ou péssima nesse quesito; 87,9% são pistas simples; 55,1% não têm acostamento; e 25,3% dos locais com curvas perigosas sequer contam com sinalização adequada. Minas ainda soma 138 pontos críticos e precisaria de R$15,84 bilhões para recuperação, segundo a CNT. Não é um detalhe técnico. É um retrato brutal de insuficiência estrutural.

E há um dado ainda mais cruel: o prejuízo gerado por acidentes nas rodovias mineiras foi estimado em R$2,15 bilhões em 2024, também segundo a CNT. Isso significa que a deterioração viária não se cobra apenas em desconforto, mas em dinheiro público, seguro, atendimento médico, perda de produtividade e destruição de patrimônio privado. E, claro, cobra em vidas. 

Na operação de Ano-Novo de 2026, a PRF registrou em Minas 193 sinistros, com 18 mortes e 236 feridos em apenas cinco dias nas rodovias federais sob sua circunscrição. Acidente não nasce só do pavimento, evidentemente. Mas pavimento ruim, sinalização deficiente, traçado precário e ausência de acostamento criam o ambiente ideal para o erro virar tragédia.

Promessas e mais promessas

O mais irritante é que tanto o governo federal quanto o estadual exibem algum repertório de promessa, mas o motorista continua dirigindo dentro do atraso. De um lado, a União reconhece gargalos, anuncia obra, licita, reprograma, sinaliza. De outro, o governo de Minas divulga investimento de mais de R$700 milhões em infraestrutura rodoviária em 2025 e projeta recuperar mais de 2,2 mil quilômetros de rodovias estaduais pelo programa Caminhos para Avançar. 

Ao mesmo tempo, o próprio noticiário oficial do DER registra interdições, meia pista e danos estruturais, informações obtidas junto ao órgão mostram que o plano do governo estadual de conceder cerca de 2.800 km de rodovias até o fim de 2025 fracassou em larga medida. Dos cinco projetos prometidos, apenas um foi leiloado. É falta de entrega compatível com a urgência.

Estradas em boas condições não são acessórios 

Minas não pode tratar as estradas como assunto lateral. Estrada, aqui, é política de turismo, política econômica, política de segurança e política de desenvolvimento regional. Uma BR-040 ruim na altura de Congonhas não atrapalha só o caminhão; atrapalha a conexão entre Belo Horizonte, o Campo das Vertentes e um conjunto de destinos que vivem de receber gente. Uma ligação estadual precária entre Lagoa Dourada e São João del-Rei não é apenas um aborrecimento local; é um gargalo que enfraquece uma cadeia que envolve hotel, restaurante, pousada, artesanato, guia turístico, posto de combustível e comércio.

No fim das contas, a má conservação das rodovias mineiras produz um triplo estrago. Fere a economia, porque encarece o estado e reduz eficiência. Fere o turismo, porque afasta o visitante e mancha a experiência. E fere vidas, porque transforma deslocamento em roleta. Minas tem patrimônio para encantar o Brasil e o mundo. O que não pode é continuar obrigando o viajante a atravessar o abandono para chegar até ele.

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Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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