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Belo Horizonte, a cidade que ainda trata o lixo no improviso

Por

Paulo Leite

Paulo Leite
  • 07/04/2026
  • 09:23

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(IMAGEM ILUSTRATIVA/Melissa Reis/PBH/Divulgação)

(IMAGEM ILUSTRATIVA/Melissa Reis/PBH/Divulgação)

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Belo Horizonte sabe varrer o problema. O que ainda não aprendeu, de fato, é governá-lo. A capital mineira tem cobertura ampla de coleta domiciliar. Em tese, o serviço chega a praticamente todas as vias formalmente urbanizadas. Há regra, há horário, há rotina. O morador deve colocar o lixo para fora apenas nos momentos determinados, e a engrenagem pública gira. Mas essa é só a parte mais básica da história. Porque uma cidade moderna não se mede apenas pela capacidade de tirar o lixo da porta de casa. Mede-se, sobretudo, pela inteligência com que lida com o resíduo, pela tecnologia aplicada ao sistema e pela capacidade de evitar que a sujeira tome conta da paisagem urbana.

Evoluímos mas sem sair do lugar

Na prática, a capital segue presa, em grande parte, a um modelo antigo: sacos de lixo expostos nas calçadas, em dias e horários fixos, à mercê de rasgos, chuva, animais e improvisações tropicais que já viraram paisagem corriqueira. A boa notícia é que a cidade começou a ensaiar alguma modernização. 

Na Savassi, por exemplo, dois novos Pontos Limpos foram implantados em março de 2026 em locais onde eram recolhidas, em média, 3,4 toneladas por dia de resíduos descartados irregularmente. Porém quem passa por esse pontos limpos, por conta de uma coleta desorganizada e irregular, descobre que foram transformados em pontos sujos. 

O projeto-piloto de conteinerização no Hipercentro, lançado em outubro de 2025, mostra que o poder público finalmente percebeu o óbvio. Lixo em saco na rua é uma solução precária para uma metrópole de grande porte. O problema é que, por enquanto, isso ainda é piloto. E piloto, no Brasil, muitas vezes corre o risco de virar um monumento eterno à boa intenção.

Uma tímida coleta seletiva

O atraso fica ainda mais evidente quando se olha para a coleta seletiva. Belo Horizonte já possui estrutura, sim. Mas ela ainda alcança uma fatia pequena para o tamanho da cidade. Mais de 556 mil pessoas atendidas em 60 bairros parecem um número respeitável, até que se faça a conta: isso representa algo próximo de 23% da população estimada do município. 

A coleta seletiva existe, mas ainda não virou cultura urbana nem política pública de massa. Continua sendo quase um privilégio geográfico.

O problema do lixo orgânico

A compostagem municipal também existe, mas voltada sobretudo aos grandes geradores, como feiras e supermercados. Belo Horizonte já reconhece que o lixo orgânico tem valor e não deveria simplesmente ser enterrado ou misturado ao rejeito comum. Mas ainda não transformou esse entendimento em escala doméstica. E essa distinção é crucial. Uma cidade que apenas remove o lixo da vista pode até parecer organizada por algumas horas. Uma cidade que separa, reaproveita, recicla e transforma resíduos em matéria-prima está em outro patamar civilizatório.

O triste cenário do descarte clandestino

Enquanto isso, BH continua gastando energia demais para apagar incêndios urbanos criados pelo próprio modelo atrasado. O número de pontos críticos de descarte irregular é revelador. Havia cerca de 560 desses locais, com recolhimento de 130 mil toneladas por ano. É um volume brutal. Não é apenas uma questão de limpeza urbana; é um sintoma de falência do desenho operacional. A cidade também conta com 35 Unidades de Recolhimento de Pequenos Volumes para receber pequenos volumes, o que é importante, e elas receberam 140 mil toneladas em 2024. 

Mas o descarte clandestino continua sendo uma ferida aberta. Quando a gestão pública precisa correr atrás do lixo jogado irregularmente em dezenas e dezenas de pontos, não estamos diante apenas da falta de educação da população. Estamos diante também de um sistema que ainda não conseguiu se impor com eficiência, praticidade e inteligência.

A necessária gestão de resíduos 

Nova York, por exemplo, avançou pesadamente na conteinerização residencial e comercial. A lógica é simples e poderosa. Lixo precisa estar em contentor com tampa, não espalhado em sacos frágeis pelas ruas. O resultado é mais limpeza, menos improviso, menos ratos, menos sacolas rompidas e menos degradação visual. Não é milagre. É um método. É gestão urbana com alguma vergonha na cara.

Em várias cidades européias são usados contentores subterrâneos e sensores de enchimento que informam quando os reservatórios estão quase cheios. Isso significa que a coleta deixa de depender apenas de calendário cego e passa a obedecer a dados reais. Em áreas densas, centrais e de intensa circulação, isso é ouro. 

E Belo Horizonte tem vários territórios onde esse desenho faria enorme sentido: Centro, Barro Preto, Savassi, Lourdes, Santa Tereza, Centro do Barreiro e de Venda Nova, partes da Pampulha. Em vez de sacos amontoados na calçada esperando o caminhão e rezando para ninguém mexer, a cidade poderia operar com discrição, higiene e eficiência.

A coleta seletiva de verdade

Outra diferença gritante está na separação de recicláveis e orgânicos na origem. Na Europa, esse ponto já não é tratado como capricho ambientalista, mas como política essencial. Separar corretamente papel, metal, plástico, vidro e bio resíduo melhora a reciclagem, reduz a contaminação e aumenta o valor econômico do material coletado. Aqui, seguimos muitas vezes presos à lógica primitiva do “mistura tudo e depois vê o que dá”. É o retrato perfeito de quem ainda administra consequência em vez de planejar causas.

No caso do comércio, BH até possui regras para grandes geradores. Acima de determinado volume diário, a responsabilidade passa a ser do próprio gerador. Isso está juridicamente correto. Mas ainda falta algo decisivo. A padronização urbana visível, fiscalização efetiva e tecnologia de monitoramento. Sistemas modernos não entregam ao comerciante apenas a obrigação; entregam também padrão, regra clara, contentor adequado, janela de descarte e controle digital. O comerciante sabe o que fazer, o poder público sabe o que cobrar, e a cidade deixa de ser depósito eventual de saco preto mal colocado.

As rotas inteligentes 

Há ainda uma ideia que Belo Horizonte deveria ao menos começar a discutir sem susto e sem preguiça.Rota inteligente e cobrança que premie quem gera menos rejeito. Não estou falando de jogar custo no colo da população indiscriminadamente. Isso exigiria muito cuidado social. Mas para grandes geradores comerciais e condomínios de maior porte, já faria bastante sentido. Quem produz mais resíduo e exige mais estrutura deveria ter incentivos e regras para reduzir rejeito, separar materiais e melhorar sua performance ambiental. Hoje, o lixo ainda é tratado como problema genérico. Deveria ser tratado como tema de gestão, eficiência e responsabilidade compartilhada.

A verdade é que Belo Horizonte está no meio do caminho. Tem base institucional. Tem cobertura ampla de coleta comum. Tem URPVs. Tem um piloto de conteinerização. Tem coleta seletiva parcial. Ou seja: não está parada no século 19. Mas também está longe de ser uma cidade que administra resíduos com padrão do século 21.

A fotografia atual é a de uma capital que recolhe, mas ainda não transforma; limpa, mas ainda não organiza; reage, mas ainda planeja pouco.

Se Belo Horizonte quiser dar um salto real, a agenda parece bastante clara. Conteinerização obrigatória nas áreas centrais e comerciais. Contentores subterrâneos nos pontos mais adensados. Coleta separada de orgânicos para feiras, restaurantes e grandes condomínios. Sensores para otimizar rotas. E uma expansão muito mais agressiva da coleta seletiva porta a porta.

Não falta diagnóstico, falta ambição

Porque, no fim das contas, uma cidade moderna não é aquela que apenas tira o lixo da frente. É aquela que para de tratá-lo como destino inevitável e passa a tratá-lo como problema de inteligência urbana.

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Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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