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De mineiro pra mineiro: a costura de Gabriel e o “poder silencioso” de Pacheco

Por

Paulo Leite

Paulo Leite
  • 04/03/2026
  • 20:35

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Gabriel Azevedo e Rodrigo Pacheco
(Foto: Gabriel Azevedo / Assembleia de Minas e Rodrigo Pacheco / Agência Senado)

(Foto: Gabriel Azevedo / Assembleia de Minas e Rodrigo Pacheco / Agência Senado)

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Há um tipo de política que não se anuncia com fogos, nem com live histérica, nem com frase de efeito. Ela acontece do jeito mineiro de acontecer: mesa posta, conversa comprida, “uai” bem colocado, e um acordo que às vezes nasce antes de virar palavra, nasce no tom da prosa.

Na tarde de hoje, em Brasília, num almoço/reunião estavam à mesa Gabriel Azevedo, pré-candidato ao governo de Minas pelo MDB, o senador Rodrigo Pacheco, o presidente da legenda em Minas e deputado federal, Newton Cardoso Júnior e o também deputado federal, Luiz Fernando Faria. No cardápio as visões de cada um sobre os rumos da política mineira.

Gabriel, nas palavras dele,  saiu extremamente satisfeito com a conversa que definiu como um “diálogo longo como tem que ser entre mineiros”. 

Mas o texto não é apenas registro de encontro. É um roteiro de intenções. Gabriel quer consolidar ideias na cabeça do eleitor e, sobretudo, na cabeça do sistema político mineiro. Quer deixar claro que a sua pré-candidatura existe e está de pé, que ela tem diálogo com gente grande, que sua pré-candidatura não é caça clique, e sim de resultado. 

Na conversa com essa coluna Gabriel  deixou claro:  sai do “eu” e vai para o “nós”. Quem está sozinho é só pretensão; quem exibe aliados vira fato político.

Mas, e Pacheco?

Nesse ponto, entra o personagem mais importante do texto. Conversei com fontes próximas a Pacheco que relataram que o senador na conversa com os membros do MDB disse que não está se filiando a partido algum neste momento, mas que estuda filiar-se e que a janela decisiva vai até 4 de abril. Na analogia de quem conversei a história se resume a: primeiro a definição do time pelo qual vai jogar, depois a posição que ocupará no campo.

Pacheco fez questão de registrar para Gabriel que é inverídica a informação de que ele estaria se filiando ao MDB a pedido de Lula. É um desmentido com endereço, não apenas uma correção. Porque, em ano eleitoral, filiação a pedido de alguém vira rótulo, e rótulo gruda fácil.

A oposição a Zema.

E aí vem o pulo do gato. Pacheco não está apenas esperando o prazo. Ele está desenhando estratégia. Ele e Gabriel conversaram sobre a possibilidade de convergência dos dois para discutir a composição de chapas e formar um campo político que se apresente como oposição ao governo Zema. Na conversa entre eles a possibilidade de compor uma frente envolvendo vários partidos, (MDB, PSB, PSDB e possivelmente União Brasil, definida a questão da federação com o Progressista).

Aqui, o silêncio deixa de ser mistério e vira ferramenta. Porque quem controla o relógio controla a mesa, e, enquanto o relógio é controlado, o entorno vai se organizando: alianças, telefonemas, compromissos, chapas.

Gabriel faz uma escolha retórica: abre a discussão do Executivo e imediatamente amplia para o Legislativo. Diz que “a democracia precisa de parlamento repleto de gente compromissada”. Engenharia do poder é o que decide se um governo governa ou se vira um leilão semanal de sobrevivência. Em Minas, qualquer projeto que ignore o Legislativo não é projeto: é poesia sem editora.

Traduzindo do mineirês para o português direto: não se trata só de construir discurso, trata-se de construir musculatura.

Gabriel se apresenta como protagonista do movimento para a montagem de um campo democrático em Minas. Aqui vale prestar atenção ao vocabulário. Campo democrático não é apenas uma etiqueta; é uma tentativa de demarcar fronteira moral e prática.

A construção do arco partidário aparece como objetivo imediato. Gabriel fala em conversar com outras legendas e acena para uma expansão da coalizão. Isso importa porque mostra um movimento de frente, não de trincheira, é tentativa de juntar peças dispersas num desenho minimamente governável.

E aqui mora um ponto delicado, e talvez o mais interessante, campo democrático é expressão bonita, mas significa na verdade território disputado. Todo mundo se diz democrático quando convém; o diabo está nos métodos. Democracia não é só falar contra a briga, é aceitar regra do jogo, aceitar limite institucional, aceitar imprensa crítica, aceitar fiscalização, aceitar oposição. Se o campo democrático for apenas um centro confortável, vira marketing. Se vier com compromisso verificável, transparência, metas, governança, indicadores, pactos com educação e saúde, vira projeto.

Pacheco se apresenta como alguém disposto a operar não apenas como nome, mas como articulador de base, ajudando a arrumar o tabuleiro eleitoral para produzir oposição com cadeira, não com frase.

A busca por discurso e programa.

No fim, o texto é uma tentativa de organizar uma narrativa mineira contra a histeria nacional: “de mineiro para mineiro”. É um bom enquadramento. Mas o enquadramento sem conteúdo vira moldura vazia.

Por isso, se eu tivesse que resumir o que Gabriel está fazendo, eu diria assim: ele tenta transformar um almoço em sinal político; tenta converter conversa em arquitetura; tenta provar que sua pré-candidatura é mais do que vontade, é articulação.

A pergunta que fica para Minas é outra: essa costura vai produzir um campo democrático robusto, com programa, ou só uma colcha de retalhos para atravessar o prazo de filiação?

Se o “de mineiro para mineiro” vier com esse pacote de realidade, pode virar caminho. Se vier só como antítese de clique de internet, vira apenas anotação em guardanapo de restaurante.

E Minas, cá entre nós, já está velha demais para se apaixonar por anotação de guardanapo.

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Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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