Há menos de uma semana, Cleitinho Azevedo estava numa praça de Divinópolis, cercado por apoiadores, microfones e câmeras, desafiando o próprio partido. Em tom exaltado, classificou como mentira a informação de que desistiria e proclamou: “Eu sou candidato”. Na segunda-feira, em Brasília, a paisagem era completamente diferente. Sentado ao lado do presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, e do dirigente estadual Euclydes Pettersen, chorou e anunciou que não disputará o governo de Minas Gerais.
Entre o grito de Divinópolis e as lágrimas de Brasília transcorreram apenas cinco dias. Politicamente, porém, parece ter passado uma eternidade.
É preciso separar as coisas com responsabilidade. Cleitinho perdeu recentemente o irmão mais novo, Matheus Azevedo, vítima de complicações provocadas por uma leucemia. O sofrimento familiar é real, profundo e não deve ser objeto de especulação ou ironia. Ao anunciar a desistência, o senador disse que precisava cuidar da saúde mental, da mãe e da família. Essa dimensão humana merece respeito absoluto.
Mas respeitar a dor não significa suspender a análise política. Não se julga a lágrima. Julga-se a sequência de decisões que levou até ela.
O indeciso Cleitinho
O problema de Cleitinho não foi desistir. Qualquer pessoa tem o direito de reconhecer que não reúne condições emocionais para enfrentar uma campanha. O problema foi ter transformado sua decisão numa novela de capítulos contraditórios, submetendo o partido, aliados, adversários e eleitores a meses de indecisão.
Cleitinho dizia que não queria ser candidato. Depois dizia que poderia ser. Em seguida, condicionava a candidatura à escolha do vice. Depois desaparecia das reuniões. Faltou à convenção estadual do Republicanos.
Deixou passar o prazo estabelecido pela direção da legenda. Quando o partido anunciou que não o lançaria, reagiu com uma manifestação em praça pública e, aos gritos, garantiu que ninguém lhe retiraria a candidatura. Poucos dias depois, retirou-a. Essa sucessão de movimentos prejudica seriamente a imagem construída pelo senador.
Cleitinho sempre se apresentou como um político espontâneo, direto, previsível e diferente das lideranças tradicionais. Sua principal mercadoria eleitoral nunca foi um grande projeto administrativo. Foi a imagem de autenticidade. O homem que fala o que pensa, enfrenta os poderosos e não negocia princípios em salas fechadas.
Essa imagem sofreu um forte abalo.
O eleitor pode perdoar uma mudança de posição quando ela é explicada com clareza. O que dificilmente perdoa é a sensação de que foi conduzido por uma sucessão de impulsos. Um candidato a governador precisa demonstrar equilíbrio, capacidade de decisão e respeito aos compromissos assumidos. Governar Minas não é gravar um vídeo de indignação. É administrar conflitos, escolher caminhos e sustentar decisões mesmo quando a arquibancada começa a vaiar.
Cleitinho deixou a impressão de que não controlou a própria candidatura. Foi controlado pelas circunstâncias, pela família política, pelas pressões partidárias e por seu temperamento. Liderava as pesquisas e, ainda assim, conseguiu chegar ao final das convenções menor do que entrou.
Sua contribuição para a construção das eleições mineiras foi profundamente negativa. Durante meses, Cleitinho ocupou o centro do tabuleiro sem decidir se jogaria. Partidos esperaram. Possíveis aliados suspenderam conversas. Candidatos ao Senado condicionaram seus movimentos à escolha dele. O PL preparou planos diferentes. O Republicanos adiou decisões. A Federação União Progressista permaneceu olhando para o relógio.
Minas Gerais ficou politicamente paralisada pela indecisão de quem aparecia como favorito.
A desistência não encerrou a confusão
A convenção da federação formada por União Brasil e Progressistas, realizada na noite de segunda-feira, terminou sem oficializar Aro como candidato ao governo. Ele fez discurso de candidato, foi tratado pelas lideranças como o nome da federação e declarou estar à disposição. Mas a ata deixou a decisão em aberto, aguardando negociações que podem se estender até o limite legal de 5 de agosto.
É a eleição da ata em branco, da chapa incompleta e da decisão adiada.
Todos esperavam que a saída de Cleitinho abrisse imediatamente o caminho para Marcelo Aro. Não abriu. O que parecia uma solução revelou outro emaranhado. Republicanos, União Brasil, Progressistas, Podemos e PL discutem alianças estaduais, mas esbarram nas escolhas nacionais de suas direções.
O cenário nacional
O Progressistas decidiu permanecer neutro na eleição presidencial. O Republicanos também escolheu a neutralidade, depois de 19 diretórios estaduais defenderem essa posição, contra sete favoráveis a Flávio Bolsonaro e apenas um inclinado a Lula. O Podemos igualmente descartou uma coligação nacional com o PL e decidiu preservar sua independência.
Na teoria, a neutralidade permite liberdade aos diretórios estaduais. Na prática, produz uma babel eleitoral. Cada estado poderá montar um palanque diferente, reunir adversários nacionais na mesma fotografia e separar aliados estaduais na disputa presidencial.
Em Minas, isso dificulta a formação de uma aliança minimamente coerente. Marcelo Aro pode reunir Republicanos, União Brasil, PP e Podemos, mas ainda precisa resolver sua relação com o PL. E o PL não procura apenas um candidato ao governo. Procura um palanque para Flávio Bolsonaro no segundo maior colégio eleitoral do país.
Um problema para o Bolsonarismo
A neutralidade dessas legendas também deixou Flávio Bolsonaro largado politicamente na pista. O PP vetou a participação de Tereza Cristina na chapa, embora a senadora tivesse aceitado inicialmente a proposta e ainda demonstrasse esperança de uma reversão. O Podemos, por sua vez, descartou a indicação de sua presidente, Renata Abreu. O Republicanos rejeitou a aliança nacional e eliminou outra possibilidade de vice, a economista Daniella Marques.
O resultado é uma candidatura presidencial que busca uma vice como quem procura cadeira quando a música já está terminando. Duas portas do centro-direita se fecharam. A possibilidade de chapa pura deixou de ser ameaça e passou a ser uma alternativa concreta.
Tudo isso revela uma política empobrecida, conduzida menos por projetos e mais por conveniências. Partidos evitam escolher um candidato presidencial para preservar alianças regionais. Candidatos estaduais evitam declarar apoios para não perder tempo de televisão. Lideranças proclamam convicções em público e negociam exceções em particular.
Cleitinho. O símbolo visível dessa desordem
Saiu da disputa alegando, legitimamente, razões pessoais. Mas deixa para trás partidos desorganizados, aliados frustrados, um eleitorado confuso e uma imagem política arranhada. A popularidade poderá sobreviver. A credibilidade, entretanto, terá de ser reconstruída.
Na política, o grito produz manchetes. A lágrima produz comoção. Mas é a coerência que produz liderança.
Cleitinho gritou que era candidato quando já não controlava a candidatura. Chorou ao desistir quando todos esperavam uma confirmação. Entre uma cena e outra, perdeu a oportunidade de demonstrar que estava preparado para governar Minas.
Antes mesmo de começar a campanha, foi derrotado pela própria indecisão.
