A decisão do prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini, de impedir a realização de um campeonato de “farmar aura” em um parque público parece, à primeira vista, assunto pequeno. Não é.
Primeiro, porque existe uma questão objetiva, um espaço público não pode simplesmente ser apropriado para a realização de um evento organizado sem autorização da administração municipal. Há regras, responsabilidades e obrigações que precisam ser cumpridas. Nesse aspecto, o prefeito fez o que deveria fazer.
Mas o episódio é muito mais interessante pelo fenômeno cultural que revela.
“Farmar aura” é mais uma dessas expressões que desembarcaram no vocabulário dos jovens brasileiros vindas da cultura digital. Farmar, palavra herdada principalmente dos videogames, significa acumular alguma coisa repetidamente. Farmar aura seria, portanto, acumular pontos imaginários de carisma, prestígio ou admiração.
Na prática, é fazer alguma coisa que pareça interessante, ousada ou estilosa diante dos outros, ou, principalmente, diante de uma câmera.
E aí começa uma discussão muito mais importante do que o campeonato de Cuiabá.
A geração da plateia permanente
Cada geração cria suas bobagens. Felizmente.
Jovens sempre tiveram gírias que os pais não entendiam, roupas que os adultos consideravam horrorosas, músicas que provocavam desespero doméstico e comportamentos que pareciam anunciar o fim da civilização. A civilização sobreviveu.
Portanto, seria ridículo transformar “farmar aura” em sinal do apocalipse juvenil. O problema é outro.
Nunca uma geração viveu tão intensamente diante de uma plateia permanente. O celular transformou cada pessoa simultaneamente em personagem, diretor, cinegrafista, editor e distribuidor da própria existência.
Não basta viver uma experiência. É preciso registrá-la.
Não basta viajar. É necessário publicar.
Não basta comer. Fotografa-se o prato.
Não basta fazer exercício. Filma-se o exercício.
E agora parece que nem mesmo basta ter personalidade. É preciso performar seu carisma. É aí que “farmar aura” deixa de ser apenas uma brincadeira engraçada e passa a funcionar como uma pequena metáfora do nosso tempo.
Estamos transformando até a personalidade em produto para consumo.
Consciência não se farma
Existe uma diferença gigantesca entre construir personalidade e representar personalidade. A primeira demora. A segunda cabe num vídeo de quinze segundos.
Personalidade se constrói lendo, estudando, trabalhando, convivendo com pessoas diferentes, errando, acertando, amando, sofrendo, viajando, ouvindo música, discutindo ideias e descobrindo lentamente quem somos.
Isso dá um trabalho danado.
Talvez por isso seja tão tentador substituir todo esse processo por uma performance.
Faz-se uma pose, uma dança, uma acrobacia, um gesto qualquer. A câmera registra. O algoritmo distribui. Os outros aprovam. Pronto. Aura adquirida.
Mas existe uma pergunta que deveria preocupar pais, educadores e, principalmente, os próprios jovens. O que acontece quando a aprovação externa se torna indispensável para a construção da autoestima?
Quando tudo precisa ser validado pela plateia, a personalidade deixa de pertencer ao indivíduo. Passa a pertencer ao algoritmo.
As cópias digitais
Existe ainda outro aspecto particularmente curioso no Brasil.
Somos extraordinariamente rápidos para importar comportamentos da cultura digital norte-americana.
Chegam expressões, desafios, danças, gestos, maneiras de falar e até formas de comportamento que imediatamente começam a ser reproduzidas por aqui. Muitas vezes sem tradução, e quase sempre sem reflexão.
É uma espécie de macaquismo digital.
A expressão pode parecer dura, mas descreve um comportamento antigo com uma tecnologia nova, a ideia de que aquilo que chega dos Estados Unidos automaticamente representa modernidade. Não representa.
Há coisas extraordinárias produzidas pela cultura americana e outras absolutamente descartáveis. Exatamente como acontece na cultura brasileira, francesa, japonesa ou em qualquer outra.
O problema não é importar. O problema é copiar.
Uma cultura saudável conversa com outras culturas, absorve influências e depois as transforma.
Uma cultura insegura simplesmente imita.
E o algoritmo tornou essa imitação instantânea.
Uma bobagem inventada por adolescentes americanos numa terça-feira pode estar sendo repetida por adolescentes brasileiros na quinta.
Globalização cultural em velocidade de fibra óptica.
Jovem precisa também aprender a dizer não
Talvez uma das maiores tarefas da educação contemporânea seja ensinar algo que nenhuma escola consegue colocar facilmente numa prova. Capacidade de resistência.
Resistir ao algoritmo. Resistir à necessidade de pertencimento. Resistir à obrigação de participar de todas as tendências. Resistir à ideia de que, se todo mundo está fazendo, eu também preciso fazer.
Isso se chama consciência.
E consciência não significa virar um jovem sisudo, incapaz de brincar ou de fazer bobagem.
Muito pelo contrário.
A juventude precisa continuar sendo irreverente, exagerada, barulhenta e até um pouco absurda. Faz parte dela. Mas existe uma enorme diferença entre criar a própria irreverência e simplesmente reproduzir a irreverência que apareceu ontem numa rede social americana.
O primeiro comportamento é juventude. O segundo é consumo.
O prefeito acertou, mas não em tudo
Por isso, considero correta a decisão administrativa do prefeito de Cuiabá de impedir um evento organizado sem a necessária autorização para utilização de um parque público.
O poder público não precisa financiar, estimular ou simplesmente fechar os olhos para qualquer evento apenas porque ele ganhou popularidade nas redes sociais.
Espaço público tem regra.
Agora, isso não significa endossar tudo o que o prefeito declarou no episódio.
A tentativa de relacionar “farmar aura” com orientação sexual é completamente descabida. Uma coisa não tem absolutamente nada a ver com a outra. E é uma pena.
Porque uma declaração lateral e desnecessária acaba desviando a discussão da questão realmente interessante.
O debate não deveria ser sobre sexualidade. Deveria ser sobre formação.
Aura passa. Consciência fica.
Não precisamos criar uma guerra entre adultos e jovens. Precisamos criar jovens capazes de desconfiar tanto dos adultos quanto dos algoritmos.
Inclusive deste texto.
Questionar é parte fundamental da formação de qualquer pessoa.
O jovem pode dançar, brincar, fazer vídeos, inventar gírias e, se quiser, até “farmar aura”.
Seria ótimo, porém, que também aprendesse a farmar conhecimento, farmar leitura, farmar curiosidade, farmar independência intelectual.
Farmar coragem para não fazer aquilo que todo mundo está fazendo.
Porque existe uma ironia maravilhosa nessa história.
Talvez a pessoa com mais “aura” seja justamente aquela que não precisa demonstrar que tem.
Quem possui personalidade não precisa pedir confirmação à plateia.
Quem possui convicção não consulta o algoritmo.
E quem constrói consciência aprende uma coisa que nenhuma rede social consegue ensinar: a moda passa. A trend desaparece. O vídeo envelhece. A aura evapora.
Consciência fica.
