A República brasileira perdeu o direito ao domingo.
Antigamente, domingo servia para almoço de família, futebol, cochilo depois do café e aquela esperança ingênua de que Brasília pudesse ficar algumas horas sem inventar um problema novo.
Agora não. Você acorda, coloca a água para ferver e, antes de o café passar, já existe ministro investigando ministro, candidato investigado, Polícia Federal explicando relatório, Supremo centralizando processo e alguém pedindo a abertura de mais um sigilo.
Nem no domingo a República tem sossego.
O caso Banco Master já deixou há muito tempo de ser apenas uma investigação sobre um banco. Virou uma espécie de raio-X desconfortável das relações entre dinheiro, política, advocacia, Judiciário e poder.
Neste domingo, Edson Fachin assumiu pessoalmente a condução do procedimento que decidirá se existem elementos suficientes para uma investigação formal contra Alexandre de Moraes em razão das relações reveladas entre o ministro e Daniel Vorcaro.
É importante repetir, porque em tempos de torcida a vírgula também precisa de segurança policial: Moraes não foi condenado, mas a abertura de investigação significa desconfiança porque há fatos novos que exigem respostas.
A perícia da Polícia Federal indica que Moraes teria feito ao menos duas edições no arquivo do contrato de aproximadamente R$131 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia de sua família.
Editar documento não é crime.
Participar da elaboração de contrato também não é, por si só, crime.
Mas a informação muda o tamanho da pergunta.
Porque já não se discute apenas se o escritório de sua mulher tinha um cliente poderoso.
Discute-se agora qual foi exatamente a participação do próprio ministro na construção daquele contrato.
O que ele alterou? Por que alterou? Quando? Qual era seu grau de conhecimento sobre o negócio?
E existe alguma relação entre essa participação e os contatos posteriores de Daniel Vorcaro com ele?
Essas perguntas não condenam ninguém.
Mas já são grandes demais para caber no silêncio.
E talvez seja exatamente por isso que Fachin resolveu puxar o freio de emergência institucional.
Centralizou procedimentos. Assumiu a relatoria.
Determinou que o material chegue aos demais ministros.
Gilmar Mendes e Cristiano Zanin pedem acesso integral aos dados extraídos do telefone de Vorcaro.
Parece óbvio, e deveria ser.
Se onze ministros decidirão se um dos seus deve ser investigado, convém que os onze estejam olhando para os mesmos documentos.
É o mínimo.
Só que, nesta crise, o mínimo começou a parecer luxo.
De um lado, Moraes acusou André Mendonça de promover divulgação seletiva de documentos.
Do outro, Mendonça disse que não poderia jogar na praça pública dados bancários, fiscais e pessoais protegidos por lei.
Ambos apresentam argumentos que merecem consideração.
E esse é exatamente o problema: quando todos possuem alguma razão e muita desconfiança, o processo precisa ser maior que seus protagonistas.
O Supremo não pode parecer uma coleção de onze gabinetes disputando versão.
Precisa voltar a parecer tribunal.
Os problemas de Flávio
Enquanto isso, Flávio Bolsonaro, que vinha utilizando o caso Master como munição contra Moraes, descobriu que a fumaça também chegou perto de sua própria campanha.
Documentos mostram que ele é formalmente investigado em procedimento relacionado ao financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro.
Investigação não é denúncia. E denúncia não é condenação.
Mas também aqui surgem perguntas que precisam de respostas.
Quem financiou? Quanto pagou? Como os recursos circularam?
Existem despesas privadas misturadas com dinheiro ligado ao projeto?
A Polícia Federal também identificou pagamentos relacionados ao deputado Mario Frias, roteirista do filme, incluindo faturas de cartão e hospedagens.
Pode haver explicação perfeitamente legal.
Que apareça.
Aliás, talvez este seja o grande serviço público involuntário produzido por toda essa crise.
A direita está reaprendendo a importância da presunção de inocência quando a investigação bate em sua porta.
A esquerda, por sua vez, está redescobrindo a beleza da transparência quando a suspeita alcança Alexandre de Moraes.
Quem sabe, depois de algumas semanas, consigamos estabelecer uma regra universal.
Vale investigar Lulinha? Vale.
Flávio Bolsonaro? Também.
Alexandre de Moraes? Com certeza.
André Mendonça? Da mesma forma.
O nome do investigado não deveria alterar o Código de Processo Penal.
Mas vivemos num país em que até princípio constitucional corre o risco de ganhar preferência partidária.
E no meio desse tumulto a eleição.
Em Minas, pelo menos, o cenário parece um pouco menos confuso.
Cleitinho aparece com 37% no Datafolha.
Patrus Ananias tem 13%.
Kalil, 11%.
Mateus Simões, Flávio Roscoe e Gabriel Azevedo estão com 4%.
Brasília pega fogo e a eleição mineira vai ficando quase tediosamente organizada.
Cleitinho lidera.
Os outros tentam descobrir quem consegue alcançá-lo.
Mas há um detalhe interessante.
Na disputa presidencial dentro de Minas, Lula e Flávio Bolsonaro aparecem praticamente empatados num eventual segundo turno.
Minas pode estar decidindo com relativa tranquilidade quem deseja para governador e, ao mesmo tempo, continuar profundamente dividida sobre quem quer no Palácio do Planalto.
É quase uma especialidade mineira.
Moderação numa urna. Guerra civil emocional na outra.
E assim chegamos a este domingo
Fachin organiza os processos.
Moraes precisa explicar um contrato.
Mendonça precisa explicar suas decisões.
Flávio precisa explicar uma investigação.
Lula tenta defender transparência sem parecer interferir.
O Supremo tenta salvar sua própria autoridade.
E nós tentamos apenas tomar café.
Talvez seja essa a grande imagem da política brasileira de 2026.
A República não fecha para descanso.
Não existe mais expediente reduzido.
Não existe domingo.
Cada dia amanhece com um novo documento, uma nova acusação e alguma autoridade explicando por que o problema é culpa da autoridade ao lado.
Seria cômico se não fosse institucionalmente tão sério.
O país precisa descobrir o que aconteceu no caso Master.
Precisa investigar sem proteger. Precisa acusar sem exagerar. Precisa julgar sem torcer.
E precisa lembrar que, no fim de tudo, democracia não funciona pela quantidade de gente gritando que já sabe quem é culpado.
Funciona quando alguém reúne as provas, garante defesa, aplica a mesma regra para todos e finalmente chega a uma conclusão.
Até lá, façamos o possível.
Passemos o café.
Porque, pelo jeito, nem no domingo a República tem sossego
