Aumentar o Bolsa Família não é um problema. O problema é o governo descobrir a inflação, a fome e a perda do poder de compra exatamente quando o eleitor está prestes a entrar na cabine de votação.
O governo Lula anunciou um reajuste de aproximadamente 15% no programa. O valor mínimo passará de R$600 para R$691, enquanto o benefício médio subirá de R$675 para R$777. A correção começa a valer em outubro, no coração do calendário eleitoral.
O anúncio foi feito apenas 17 dias antes do primeiro turno. O pagamento dos novos valores começa em 19 de outubro, entre as duas votações, caso haja segundo turno presidencial. É uma coincidência tão conveniente que permite pedir música no programa de domingo.
A “justificativa” do Planalto
O governo apresenta uma justificativa tecnicamente defensável. O benefício não era reajustado desde 2023 e perdeu poder de compra. A inflação acumulada no período chegou a aproximadamente 17%. Corrigir essa defasagem, portanto, é justo e necessário.
O Bolsa Família, embora tenha que ser revisto em seus critérios de concessão, é uma política social importante. Combate a pobreza, reduz a insegurança alimentar e protege famílias que não podem esperar o mercado de trabalho melhorar para colocar comida na mesa. Questionar o momento do reajuste não significa atacar seus beneficiários. Significa justamente defender o programa contra sua utilização eleitoral. Se a correção era necessária, por que o governo esperou até a véspera da eleição?
Inflação não aparece de surpresa. O governo acompanha mensalmente cada centavo da variação dos preços. Poderia ter estabelecido uma regra automática de atualização, com data fixa e critérios objetivos. Poderia ter apresentado a correção no começo do ano. Poderia tê-la incluído originalmente na proposta orçamentária de 2027.
Não fez nada disso.
Oportunismo eleitoreiro
O aumento foi anunciado em setembro, com Lula candidato à reeleição, numa disputa presidencial apertada e a poucos dias da abertura das urnas. O benefício maior chegará ao bolso de milhões de famílias justamente entre o primeiro e o segundo turnos.
O reajuste custará R$5,8 bilhões ainda em 2026 e acrescentará R$22,7 bilhões às despesas anuais em 2027 e 2028. O orçamento do programa deverá passar de R$157,1 bilhões para aproximadamente R$179 bilhões no próximo ano.
Não é troco esquecido no bolso do paletó.
O governo afirma que existe espaço fiscal e que o dinheiro virá da economia obtida com a redução da fila da Previdência. Também promete modificar a proposta orçamentária de 2027 para acomodar a nova despesa.
Mas essa explicação ainda precisa ser detalhada e apresentada aos brasileiros. O espaço fiscal não pode ser um coelho retirado da cartola a cada necessidade política. Se existir uma economia permanente de quase R$23 bilhões por ano, o governo deve mostrar de onde ela vem, como foi calculada e se poderá realmente sustentar o benefício nos anos seguintes.
A preocupação dos economistas não se limita ao valor. Mais despesas públicas, num ambiente fiscal frágil, podem pressionar a demanda, dificultar a queda da inflação e obrigar o Banco Central a manter os juros elevados por mais tempo. O governo entrega mais dinheiro com uma mão, mas pode colaborar para encarecer o crédito, a prestação e o financiamento com a outra.
A semelhança histórica
Em 2022, Jair Bolsonaro elevou o Auxílio Brasil para R$600 faltando 100 dias para a eleição. A medida foi acusada por Lula, que em programa de rádio disse tratar-se de medida eleitoreira. O PT, partido de Lula, divulgou nota repudiando a medida e acusando-a de uma tentativa de influenciar os eleitores mais pobres.
A crítica fazia sentido. Só que agora, Lula reproduz a mesma lógica. Muda o governo, muda o discurso, muda a embalagem, mas o oportunismo disfarçado de calendário continua sendo o mesmo.
Quando um adversário aumenta o benefício perto da eleição, é populismo. Quando o aliado faz, vira justiça social. A coerência, como sempre, parece ter perdido o cadastro.
O Bolsa família é programa de estado
Não se pode afirmar automaticamente que o reajuste seja ilegal. Uma suspeita política não equivale a uma condenação jurídica. Mas é impossível ignorar sua evidente utilidade eleitoral.
O Bolsa Família precisa ser protegido de governantes que se comportam como se o dinheiro saísse do bolso deles. O benefício não é presente do presidente, favor de candidato nem gesto de generosidade partidária. É uma política pública paga por nós, pagadores de impostos, e garantida pelo Estado.
A solução seria a criação de uma regra permanente e automática de correção. Data definida, índice conhecido, previsão orçamentária e distância segura das eleições. Assim, o beneficiário não fica refém da conveniência do presidente da vez e o programa deixa de ser usado como peça de propaganda.
A população vulnerável tem direito à recomposição de sua renda. O candidato à reeleição, porém, não tem o direito de apresentar essa recomposição como bondade pessoal. O reajuste pode ser justo. O momento escolhido é que cheira a campanha.
E, desta vez, o santinho eleitoral pode chegar disfarçado de comprovante bancário.
