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O verdureiro incoerente

Por

Paulo Leite

Paulo Leite
  • 04/08/2026
  • 12:29

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(Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado)

(Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado)

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Não há absolutamente nenhum problema em um verdureiro governar Minas Gerais.

Ao contrário. A política brasileira precisa de homens e mulheres que conheçam o trabalho duro, que saibam quanto custa acordar cedo, enfrentar dificuldades e viver a realidade das pessoas comuns. A origem humilde nunca foi defeito. Muitas vezes, é justamente dela que surgem os melhores líderes.

Eu não teria qualquer dificuldade em ser governado por um verdureiro. Mas gostaria que fosse um verdureiro coerente. É justamente essa coerência que parece escapar de Cleitinho Azevedo.

Nas últimas vinte e quatro horas, Minas assistiu a uma sequência de acontecimentos que dificilmente encontra paralelo recente na política estadual.

A cruel cronologia

Ontem, Cleitinho apareceu ao lado do presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, e do deputado federal Euclydes Pettersen em um vídeo emocionante. Chorando, anunciou que não disputaria o governo de Minas. A mensagem transmitia claramente ao eleitor que aquela era uma decisão definitiva. O partido tratou o assunto como encerrado.

Parecia o fim da história.

Hoje, porém, na convenção estadual do Republicanos, tudo mudou. Sem sequer constar da programação oficial do evento, Cleitinho pediu a palavra, fez um discurso improvisado e declarou que queria voltar a ser candidato ao governo. Mais do que isso, apresentou uma nova versão para os fatos.

Disse que nunca havia desistido da candidatura. Afirmou que sempre esteve apenas analisando a situação. Explicou que a doença e, depois, a morte do irmão impediram que tivesse tranquilidade para tomar uma decisão naquele momento. Contou que, após a divulgação do vídeo, recebeu manifestações de apoio de milhões de pessoas, da própria mãe e de familiares, o que lhe deu forças para continuar.

Segundo sua versão, depois de gravar o vídeo, telefonou para Marcos Pereira pedindo que ele não fosse divulgado porque já havia decidido permanecer candidato. O presidente do Republicanos, porém, estaria em uma reunião e o vídeo acabou sendo publicado.

É uma explicação humana. O luto merece respeito. Ninguém pode medir a dor de quem perde um irmão. Mas a política exige outra análise.

Porque o problema deixou de ser emocional. Passou a ser institucional.

Se o vídeo não representava mais sua vontade, por que foi gravado? Se representava, por que deixou de valer poucas horas depois? E, sobretudo, como um candidato ao governo permite que uma decisão dessa importância seja anunciada publicamente sem que exista absoluta convicção sobre ela?

A entrevista concedida por Cleitinho após a convenção amplia essa sensação de improviso. Ao ser questionado sobre as idas e vindas, respondeu que jamais havia dito que desistira da candidatura. Mas milhões de mineiros assistiram justamente ao vídeo que produziu essa compreensão. Ao explicar os acontecimentos, apresentou uma sequência de decisões tomadas e revistas em poucas horas, sempre condicionadas a novos acontecimentos, novas conversas e novos apelos.

Para quem pretende administrar um Estado com mais de vinte milhões de habitantes, isso não transmite segurança.

Transmite incerteza.

A reação de Marcos Pereira

Foi então que ocorreu o momento politicamente mais significativo de todo esse episódio. Marcos Pereira, presidente nacional do Republicanos, reagiu publicamente.

Deixou claro que a decisão anunciada anteriormente permanecia válida e que não voltaria atrás.

Foi uma desautorização pública. Rara. Constrangedora. É extremamente simbólica.

De um lado, um senador tentando convencer o próprio partido de que ainda era candidato. Do outro, o presidente nacional dizendo que a decisão estava tomada.

A pergunta que fica para o eleitor é inevitável

Qual Cleitinho deve ser levado em consideração? O que gravou um vídeo anunciando que estava fora? O que chorou ao comunicar essa decisão? O que, menos de vinte e quatro horas depois, tentou desfazer tudo em um discurso improvisado?

Ou o que, na entrevista, afirmou que nunca havia desistido? As quatro versões não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.

Governar Minas Gerais exige muito mais do que popularidade.

Exige previsibilidade. Exige estabilidade.

Exige capacidade de decidir e, principalmente, de sustentar as próprias decisões.

Uma campanha envolve partidos, prefeitos, vereadores, deputados, dirigentes, equipes jurídicas, técnicos, apoiadores e milhares de eleitores. Todos precisam confiar que existe uma liderança capaz de indicar um rumo claro.

Quando a principal dúvida passa a ser se o próprio candidato continuará candidato no dia seguinte, o problema deixa de ser eleitoral.

Passa a ser um problema de credibilidade.

Nada disso diminui o sofrimento pessoal vivido por Cleitinho. Seu luto merece respeito. Mas o eleitor não escolhe apenas um homem de boa-fé.

Escolhe alguém que terá de decidir sobre saúde, educação, segurança pública, infraestrutura, orçamento bilionário e a vida de milhões de mineiros. Nessas funções, emoção e sensibilidade são importantes. Mas a coerência é indispensável.

Repito: Minas Gerais pode, perfeitamente, ser governada por um verdureiro. Mas dificilmente será bem governada por um verdureiro incoerente.

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Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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