Belo Horizonte trata a Pampulha como relíquia, quando deveria tratá-la como destino. E há uma diferença monumental entre uma coisa e outra. Relíquia é aquilo que se guarda com medo de perdê-la.
Destino é aquilo que se projeta com inteligência.
A decisão da Prefeitura de Belo Horizonte de criar uma comissão para discutir a possibilidade de privatização de equipamentos da Pampulha pode até ser um começo administrativo, mas está longe de tocar no que é real no problema. Porque a discussão sobre a Pampulha não pode ser reduzida a um debate burocrático sobre gestão de ativos públicos.
Qual é a vocação da Pampulha?
A Pampulha exige uma conversa muito maior, mais ousada e mais honesta. Qual é, afinal, a vocação contemporânea daquele território? O que Belo Horizonte quer fazer, de fato, com um dos espaços urbanos mais belos, simbólicos e subaproveitados do Brasil?
A cidade, há décadas, olha para a Pampulha como quem contempla uma fotografia antiga. Bonita, histórica, admirável, mas congelada. E esse é precisamente o erro. A Pampulha não pode continuar vivendo como se estivesse parada nos anos 1940 e 1950, ainda sob o encanto inaugural da visão de Juscelino Kubitschek, Oscar Niemeyer, Burle Marx e Cândido Portinari.
A força desse conjunto nunca esteve apenas na beleza do traço moderno. Esteve, sobretudo, no fato de ele ter sido uma ousadia. A Pampulha nasceu como ruptura, como invenção, como gesto de vanguarda. O que se fez depois, porém, foi transformá-la em peça de museu a céu aberto. Bela, sim, mas domesticada pelo medo de pensar grande.
Um Patrimônio Cultural
É verdade que a Pampulha carrega o peso e a honra de ser Patrimônio Cultural da Humanidade, título concedido a Belo Horizonte pela Unesco. Isso impõe deveres, critérios, limites e responsabilidades. E esses compromissos, diga-se, não foram plenamente cumpridos até hoje. A própria questão da qualidade da água da lagoa permanece como símbolo eloquente dessa contradição crônica: celebramos a paisagem, mas negligenciamos sua essência. Vendemos a imagem, mas não resolvemos a estrutura. Exibimos o cartão-postal, mas convivemos com a precariedade ambiental.
E essa precariedade não se limita à lagoa. O Parque Ecológico, que deveria ser uma extensão qualificada da experiência urbana e ambiental da Pampulha, muitas vezes se apresenta, via de regra, como um esgoto a céu aberto, num retrato de abandono incompatível com a grandeza histórica, turística e simbólica daquele território. É uma espécie de maquiagem urbanística, bonita na fotografia, frágil, e por vezes degradada, na realidade.
Preservar não é paralisar
Mas justamente por isso o debate precisa amadurecer. Tombamento não é sinônimo de mumificação. Patrimônio não deve ser uma desculpa para a mediocridade urbanística, nem para a preguiça política. Ao contrário, quanto mais valioso é um território, mais inteligente, sofisticada e corajosa deve ser a sua reinvenção.
Hoje, a Pampulha vive cercada por uma lógica de proteção que, na prática, é incompleta e até hipócrita. Há um cinturão de preservação formal em torno da lagoa e de seus equipamentos mais sensíveis, mas ele funciona de maneira parcial, quase cenográfica. Porque, do cinturão para dentro, tenta-se impor uma rigidez protetiva, porém, do cinturão para fora, a cidade se esgarça em desordem urbanística, ocupação sem unidade, ausência de visão integrada e crescimento sem grandeza. Ou seja: protege-se uma moldura, mas abandona-se a tela. O resultado é uma Pampulha que não se realiza nem como santuário histórico, nem como centralidade urbana moderna.
E esse talvez seja o maior pecado de Belo Horizonte em relação à Pampulha: a cidade não lhe deu uma vocação à altura do seu potencial.
É preciso qualificação
A orla da lagoa poderia ser uma vitrine de urbanismo qualificado, hospitalidade, gastronomia de excelência, lazer sofisticado, cultura viva e ocupação inteligente do espaço público. Poderia ser, sem exagero algum, uma das áreas urbanas mais especiais do país. Mas não é. A beira da lagoa, salvo exceções, ainda opera num registro de improviso, subutilização e baixa ambição. Há bares, movimento, frequência popular, e isso tem seu valor. Belo Horizonte é, sim, a capital dos bares, e essa identidade merece respeito. Mas a Pampulha não pode ser reduzida a isso. Ela precisa de uma camada superior de qualificação.
Precisa abrigar restaurantes de referência, experiências gastronômicas que façam sentido para um território com peso simbólico internacional, equipamentos de ponta, arquitetura contemporânea de alta qualidade e atividades econômicas compatíveis com o seu estatuto urbano e cultural.
Precisa, sobretudo, ser preparada para receber hotelaria de alto padrão, com hotéis de luxo capazes de qualificar o turismo local, ampliar a permanência dos visitantes, atrair eventos, executivos e turistas de maior poder de consumo e inserir a Pampulha, de fato, em um circuito turístico mais sofisticado, à altura da relevância que ela tem.
A cidade precisa perder o medo da palavra sofisticação. Sofisticação não é elitismo. Sofisticação é qualidade. É critério. É projeto. É capacidade de fazer melhor.
O mesmo vale para a discussão sobre moradia e uso urbano. É tabu em Belo Horizonte admitir que a Pampulha pode, e talvez deva, receber uma requalificação imobiliária muito mais séria, seletiva e planejada.
A capital atrai cada vez mais executivos, profissionais qualificados, investidores, pesquisadores, empresários e quadros técnicos que poderiam encontrar naquela região um espaço excepcional de residência e convivência. Em vez disso, parte desse público acaba buscando alternativas em outros municípios, em vetores metropolitanos ou em bairros que não oferecem nem de longe a mesma potência paisagística e simbólica.
A Pampulha poderia ser um polo residencial de altíssimo nível, com parâmetros urbanísticos rigorosos, exigência arquitetônica, sustentabilidade, integração ambiental e respeito real ao patrimônio. Não para destruí-la, mas para ativá-la.
Uma cidade não pode ser congelada
Porque cidade viva não é cidade congelada. Cidade viva é cidade habitada, usada, reinventada e economicamente pulsante.
A grande questão é que Belo Horizonte, quando fala da Pampulha, ainda raciocina com culpa, não com visão. Trata qualquer proposta de transformação como ameaça, quando ela deveria ser encarada como oportunidade, desde que, naturalmente, conduzida com seriedade, técnica, transparência e compromisso com o interesse público.
O verdadeiro risco não está em discutir novos usos. O verdadeiro risco está em continuar fazendo de conta que o modelo atual basta. Não basta.
A Pampulha precisa ser repensada, repaginada e, em certo sentido, reinaugurada. Não no espírito da demolição, mas no da atualização. Ela precisa reencontrar a vocação de vanguarda que a fez nascer. Precisa deixar de ser apenas reverenciada para voltar a ser imaginada.
Privatizar equipamentos, por si só, não resolve. Pode melhorar a gestão de determinados espaços, atrair investimento, profissionalizar operação e ampliar eficiência. Tudo isso é legítimo. Mas é só ferramenta. Não é projeto de cidade. Sem um plano urbano consistente, sem um redesenho sério de vocações, sem parâmetros claros de ocupação, sem requalificação ambiental definitiva, sem a recuperação real de áreas degradadas como o Parque Ecológico, sem investimento sério em turismo qualificado e sem coragem política para romper tabus, a discussão ficará confinada ao varejo administrativo, e a Pampulha continuará sendo um monumento magnífico à indecisão de Belo Horizonte.
Já passou da hora de a capital encarar a Pampulha não como um problema a ser tutelado, mas como uma possibilidade a ser realizada.
Belo Horizonte ganhou da história um lugar raro. Um território onde natureza, arquitetura, memória e paisagem se encontram de forma quase irrepetível. O que faltou até aqui não foi beleza. Foi ambição. Faltou visão. Faltou a coragem de transformar um cartão-postal em projeto urbano de verdade.
A Pampulha merece mais do que reverência. Merece futuro. Merece turismo de qualidade, hotelaria à altura de sua paisagem e espaços públicos que honrem o título internacional que a cidade recebeu.
