Nesta última semana, o Brasil assistiu a uma cena que dividiu opiniões. O deputado federal por Minas Gerais, Nikolas Ferreira, saiu de Paracatu, no noroeste mineiro, e caminhou até Brasília. Foram sete dias, cerca de 240 quilômetros percorridos a pé.
Houve quem ironizasse. Houve quem se irritasse. Houve quem debochasse.
E talvez seja exatamente aí que mora o desconforto que precisamos encarar.
Porque, sejamos honestos: se um político caminhando te incomoda mais do que práticas de corrupção que historicamente assolam o país, o problema não está no gesto — está na nossa tolerância ao absurdo.
A frase é dura. E precisa ser. Ela revela algo incômodo sobre o nosso tempo: nós nos acostumamos com desvios institucionais, mas estranhamos o protesto visível. Aceitamos o abuso silencioso, mas rejeitamos gestos simbólicos que expõem falhas estruturais. Muitos se limitam a observar à distância, rolar o feed e apontar defeitos, sem qualquer disposição real para agir ou refletir. Concorde-se ou não com o ato, ele provoca — e isso incomoda.
O Judiciário brasileiro ocupa um papel central nesse cenário. Herdamos um sistema distante do cidadão comum, altamente técnico, construído para poucos compreenderem. Ao longo dos anos, ele se fortaleceu, ganhou protagonismo e passou a decidir sobre temas que impactam diretamente a vida, o patrimônio e o futuro das famílias. O problema é que, junto com esse poder, vieram a lentidão, a imprevisibilidade e uma crescente desconfiança social, amplamente debatida no espaço público.
Casos amplamente noticiados, envolvendo questionamentos sobre transparência, conflitos aparentes de interesses e patrimônio de autoridades envolvendo administração de bancos e resorts, por exemplo, contribuem para esse sentimento coletivo de insegurança. Independentemente de conclusões individuais, o fato é que a percepção social de falta de clareza fragiliza a confiança nas instituições.
Quando essa confiança se abala, as consequências são concretas. Muitas pessoas deixam de acionar as instituições para resolver suas questões burocráticas e vão se virando com o famoso jeitinho brasileiro. Famílias que deixam imóveis sem regularização. Patrimônios misturados com dívidas. Heranças consumidas por impostos mal planejados, como o ITCMD. Empresas familiares que enfrentam crises porque ninguém pensou na sucessão. E, ao final, a frase mais comum: “deixa que a Justiça resolve”.
Nem sempre resolve.
O Judiciário não organiza patrimônio, não reduz carga tributária e não preserva legado. Ele atua quando o conflito já está instaurado. E, depois que o dano ocorre, a sentença raramente recompõe por completo relações, tempo ou recursos. Em inventários, por exemplo, processos podem se arrastar por anos, prolongando disputas e desgaste emocional.
Por isso, advogar hoje exige mais do que litigar. Exige coragem para orientar com clareza, transparência para mostrar riscos e maturidade para propor mediação e conciliação antes que o conflito se torne irreversível.
Mediação não é fraqueza.
Conciliação não é renúncia irresponsável.
Planejamento sucessório não é pensar na morte — é proteger os vivos.
Como advogada que atua com sucessões, vejo diariamente patrimônios sendo corroídos pela falta de diálogo, pela ausência de planejamento e pela crença de que o Judiciário sempre dará conta de tudo.
Talvez a grande lição deste momento seja simples: não dá mais para terceirizar integralmente a responsabilidade pelos nossos conflitos. Em muitos casos, o caminho mais justo é aquele construído antes, com diálogo, mediação e decisões conscientes.
No Direito Sucessório, quem caminha antes evita que os herdeiros caminhem sozinhos depois — entre processos, impostos e mágoas.
Isso, sim, é um verdadeiro ato de responsabilidade. E não exige caminhar 240 quilômetros, em sete dias. Exige apenas disposição para agir antes que seja tarde.
