O discurso de Lula às vésperas do 1º de Maio tinha tudo para ser um gesto de reencontro com o trabalhador brasileiro. A data, afinal, é quase um altar político para um presidente que nasceu para a vida pública no sindicalismo, construiu sua biografia nas portas de fábrica, transformou o Dia do Trabalho em palco simbólico e sempre se apresentou como o intérprete natural do povo que acorda cedo, pega ônibus cheio, paga conta atrasada e tenta fazer o salário sobreviver até o fim do mês.
Mas há uma diferença enorme entre falar sobre o trabalhador e falar com o trabalhador.
E é justamente aí que mora o problema.
O presidente foi à televisão anunciar um novo pacote de renegociação de dívidas, um novo Desenrola Brasil, com descontos que podem chegar a 90%, juros limitados a 1,99% ao mês, prazo maior para pagamento, possibilidade de uso de até 20% do FGTS para quitar débitos e restrição temporária ao acesso a plataformas de apostas on-line para quem aderir ao programa. A medida deve alcançar dívidas de cartão de crédito, empréstimos pessoais e financiamento estudantil, segundo o anúncio feito pelo próprio Lula.
Uma medida eleitoreira
À primeira vista, parece uma medida socialmente simpática. E, de fato, há milhões de brasileiros esmagados pelo endividamento. Gente comum, trabalhadora, que caiu no cheque especial, se enrolou no cartão, recorreu a empréstimos caros, perdeu o controle da vida financeira e hoje vive sob o peso de uma bola de neve. Negociar dívida pode aliviar famílias, limpar nomes e devolver algum fôlego ao consumo.
Mas o problema é que o governo tenta vender alívio emergencial como se fosse solução estrutural.
E não é.
O pacote anunciado por Lula trata da febre, não da infecção. Ajuda quem já está endividado, mas não enfrenta as causas do endividamento: renda apertada, crédito caro, baixa produtividade, custo de vida elevado, descontrole fiscal, insegurança econômica e uma sociedade em que o trabalhador vive sempre a dois boletos do abismo.
O governo olha para o brasileiro superendividado e oferece um refinanciamento. Mas não explica por que tantos brasileiros chegaram a esse ponto. Não explica por que o salário rende pouco. Não explica por que o Estado custa tanto e entrega tão pouco. Não explica por que a economia segue dependente de estímulos, programas, renegociações, subsídios e remendos.
É o velho método: cria-se uma vitrine social para esconder a desorganização política.
Lula tenta recuperar conexão com o povo pelo caminho mais óbvio: o bolso. Só que o bolso do brasileiro não aceita poesia oficial por muito tempo. Ele sabe quando a conta fecha e quando não fecha. Sabe quando o governo fala bonito, mas a vida continua dura. Sabe quando o discurso vem embalado em promessa, mas a realidade chega em forma de boleto.
O uso de até 20% do FGTS para pagar dívida, por exemplo, merece uma discussão séria. O FGTS é uma poupança compulsória do trabalhador, pouco eficiente e de rentabilidade duvidosa. Foi criado com a “intenção” de proteger o cidadão em momentos de demissão, emergência e vulnerabilidade. Liberar parte desse dinheiro para renegociar dívida pode dar alívio imediato, mas também pode consumir uma reserva que deveria, de acordo com sua gênese, proteger o próprio trabalhador no futuro.
É como vender o extintor para pagar a fumaça.
O governo oferece ao cidadão a chance de usar o dinheiro que deveria ser colchão de segurança para apagar incêndio financeiro provocado, em grande parte, por uma economia que não consegue entregar estabilidade suficiente. Pode funcionar para alguns casos. Mas, como política pública, revela um diagnóstico incômodo. O trabalhador está tão pressionado que precisa recorrer à própria reserva forçada para conseguir respirar.
Uma cortina de fumaça
E ainda há o ponto das apostas on-line. Ao impedir por um ano o acesso de quem aderir ao programa às chamadas bets, Lula toca num problema real. As apostas viraram uma máquina de capturar renda popular. Entraram pela fresta da esperança, pela promessa de ganho fácil, pelo desespero de quem vê no palpite a chance de escapar da dureza diária. O governo acerta ao reconhecer o estrago.
Mas erra de novo ao agir tarde, depois que o problema já entrou na casa, sentou no sofá e começou a levar o dinheiro da família.
A restrição às bets, nesse contexto, parece mais uma confissão de culpa do que uma política preventiva. O Estado permitiu a expansão de um mercado agressivo, com publicidade massiva, celebridades, influenciadores e uma glamourização irresponsável da aposta. Agora, tenta fechar a torneira para quem já está com a casa alagada.
Apagando incêndio
O discurso de sete minutos, portanto, foi menos um projeto de país e mais uma tentativa de contenção de danos.
Lula sabe que chega ao 1º de Maio em momento difícil. Não é apenas uma questão de popularidade. É uma crise de comando. O presidente acaba de sofrer uma derrota histórica no Senado, com a rejeição da indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal. Foram 42 votos contrários e apenas 34 favoráveis, quando eram necessários 41 votos para aprovação.
A derrota não foi apenas de Messias. Foi de Lula. Foi do Planalto. Foi da articulação política. Foi a demonstração clara de que o governo já não consegue impor seus desejos nem em votações consideradas fundamentais.
Logo depois, veio outra pancada. O Congresso derrubou o veto presidencial ao PL da Dosimetria. Na Câmara, foram 318 votos contra o veto e 144 a favor. No Senado, 49 votos pela derrubada e 24 pela manutenção. Mais uma derrota expressiva, pública e incontornável.
Esse é o pano de fundo real do pronunciamento.
Lula não falou apenas como presidente no Dia do Trabalho. Falou como um líder acuado, tentando reencontrar popularidade, recompor narrativa e mostrar que ainda tem algo a oferecer ao eleitor comum. O pacote contra o endividamento, nesse sentido, tem menos cheiro de planejamento econômico e mais cheiro de operação política.
É uma tentativa de dizer: “eu ainda cuido de vocês”.
Mas o problema é que o país já não se convence apenas com esse tipo de gesto.
O Brasil mudou. O eleitor mudou. O trabalhador mudou. A paciência diminuiu. A desconfiança aumentou. A sociedade já não compra com facilidade a ideia de que todo problema pode ser resolvido com anúncio em cadeia nacional, programa de renegociação e discurso emotivo.
A velha máxima das promessas
O trabalhador quer renda, sim. Mas quer estabilidade. Quer emprego bom, não apenas crédito renegociado. Quer segurança jurídica, não apenas promessa de desconto. Quer inflação controlada, juros civilizados, contas públicas críveis, crescimento sustentável e governo com rumo.
O que Lula ofereceu foi um programa de alívio. O que o Brasil precisa é de uma estratégia de reconstrução.
Há uma diferença brutal entre tirar o nome do Serasa e tirar o país da desconfiança.
O governo continua apostando na política do remendo. Remenda dívida, remenda relação com o Congresso, remenda discurso, remenda base parlamentar, remenda narrativa. Mas não reorganiza o centro do problema: um governo que perdeu capacidade de coordenação, que coleciona derrotas institucionais e que parece mais interessado em recuperar popularidade do que em enfrentar a realidade.
O discurso do 1º de Maio deveria ter sido uma fala de lucidez. Poderia ter reconhecido erros, explicado caminhos, anunciado medidas de produtividade, simplificação, geração de emprego, qualificação profissional, controle de gastos e reorganização da máquina pública. Poderia ter sido o momento de Lula dizer ao país que entendeu o tamanho do desgaste.
Mas preferiu o caminho mais previsível: anunciar um pacote socialmente sedutor e politicamente conveniente.
Não se trata de negar a importância de ajudar famílias endividadas. Isso seria insensível e economicamente míope. O endividamento corrói a vida das pessoas, trava o consumo, destrói autoestima e empurra milhões para uma espécie de clandestinidade financeira. O problema não é renegociar dívidas. O problema é transformar renegociação em palanque.
O Brasil não precisa apenas de um novo Desenrola. Precisa de um governo que pare de enrolar.
Porque, no fundo, o pacote anunciado por Lula revela o paradoxo central do seu terceiro mandato. O presidente parece cada vez mais distante da realidade objetiva do país. Ele conhece os símbolos. Conhece as palavras. Conhece os gestos. Mas parece não perceber que a rua já não responde do mesmo jeito.
O risco do panelaço, das vaias ou da indiferença não nasce de uma conspiração. Nasce do cansaço. Nasce da percepção de que o governo fala muito e entrega pouco. Nasce da sensação de que Lula ainda se vê como personagem histórico, enquanto o brasileiro comum está tentando fechar o mês.
Sete minutos podem ser suficientes para um presidente mostrar grandeza. Também podem bastar para revelar isolamento.
No 1º de Maio, Lula escolheu anunciar uma medida de impacto popular. Pode até produzir algum efeito imediato. Pode ajudar famílias. Pode gerar manchete favorável. Pode dar ao governo um sopro de comunicação.
Mas não muda o essencial.
O governo continua politicamente frágil, institucionalmente derrotado e economicamente dependente de atalhos. Lula continua falando como se o país ainda estivesse disposto a lhe conceder crédito ilimitado. Só que o Brasil real já começou a cobrar juros.
E esses juros, presidente, não entram no Desenrola.
