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Depois do smartphone: a próxima revolução pode estar diante dos nossos olhos

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Em 2007, Steve Jobs apresentou um aparelho que mudaria nossa relação com a tecnologia. O iPhone não inventou o telefone celular, a internet móvel ou a tela sensível ao toque, mas reuniu essas tecnologias em uma experiência tão simples que redefiniu toda uma indústria. Quase vinte anos depois, o smartphone continua sendo o centro da nossa vida digital. É por ele que conversamos, trabalhamos, compramos, pagamos, fotografamos, navegamos e consumimos informação. A pergunta que começa a movimentar novamente a indústria de tecnologia é inevitável: qual será o dispositivo capaz de fazer com o smartphone aquilo que o smartphone fez com os celulares tradicionais?

Uma das respostas começa a aparecer diante dos nossos olhos. Literalmente. Os óculos inteligentes deixaram de ser apenas experimentos futuristas e começam a ganhar escala comercial. Segundo a Counterpoint Research, o mercado mundial de smart glasses cresceu 212% no primeiro semestre de 2026, em comparação com o mesmo período do ano anterior. A IDC, utilizando uma classificação mais ampla de dispositivos XR, contabilizou aproximadamente 7,1 milhões de unidades no primeiro semestre, avanço de 70,5%. As metodologias são diferentes, mas a direção é a mesma: uma categoria que durante anos viveu de promessas começa a conquistar consumidores reais.

A Meta está no centro desse movimento. Em parceria com a EssilorLuxottica, dona da Ray Ban, conseguiu algo que tentativas anteriores não alcançaram: transformar tecnologia vestível em um produto que se parece, antes de tudo, com um par de óculos. Em fevereiro de 2025, a EssilorLuxottica informou que os Ray Ban Meta haviam ultrapassado 2 milhões de unidades vendidas desde o lançamento. Ao divulgar os resultados de 2025, a companhia informou que seus óculos com recursos inteligentes venderam mais de 7 milhões de unidades apenas naquele ano. No Meta Connect de setembro de 2026, Meta e EssilorLuxottica anunciaram que pretendem chegar ao final do ano com mais de 100 opções de óculos, distribuídas entre marcas como Ray Ban, Oakley e Meta Glasses. O que antes era um produto experimental começa a se transformar em uma plataforma.

E a disputa não ficará restrita à Meta. O Google prepara seus primeiros óculos baseados em Android XR para 2026, trabalhando com Samsung, Qualcomm e marcas como Warby Parker e Gentle Monster. Fabricantes asiáticos também avançam sobre a categoria. Isso importa porque grandes mudanças tecnológicas raramente acontecem quando apenas uma empresa aposta nelas. Quando diferentes ecossistemas começam a disputar desenvolvedores, hardware, sistemas operacionais e consumidores, surge um sinal mais consistente de que uma nova plataforma pode estar sendo construída.

Mas por que os óculos poderiam ameaçar um dispositivo tão poderoso quanto o smartphone? A resposta talvez esteja menos no que eles fazem e mais em onde estão. O smartphone exige um ritual que repetimos dezenas ou centenas de vezes diariamente: retirar o aparelho do bolso, desbloquear a tela, encontrar um aplicativo, tocar, digitar e olhar para baixo. Os óculos estão posicionados exatamente onde nossa atenção já está: diante dos nossos olhos. Se conseguirem assumir mensagens, chamadas, navegação, fotografia, tradução, pagamentos e acesso rápido a informações, poderão eliminar progressivamente vários dos motivos pelos quais hoje retiramos o celular do bolso.

É nesse ponto, e não como protagonista, que a inteligência artificial entra nesta história. Durante décadas, nossa relação com computadores dependeu principalmente de mecanismos de entrada de informação. Digitamos comandos nos primeiros computadores, usamos teclado e mouse nos PCs, pequenos teclados físicos nos celulares e, depois do iPhone, teclados virtuais e toques na tela. Os dispositivos mudaram, mas continuamos dizendo às máquinas o que fazer por meio de botões, menus e comandos. Óculos não combinam com essa lógica. Ninguém deseja carregar um teclado para conversar com os óculos ou navegar por dezenas de menus projetados diante dos olhos.

A IA conversacional começa a resolver justamente esse problema. Em vez de digitar, podemos falar. E, diferentemente dos antigos assistentes de voz, os novos sistemas conseguem compreender conversas mais naturais, manter contexto e combinar voz com aquilo que câmeras e sensores estão percebendo. Isso permite imaginar uma relação muito diferente com o dispositivo: olhar para um prédio e perguntar “o que é isso?”, caminhar por uma cidade e pedir “me leve até o restaurante”, olhar para uma placa e dizer “traduza para português”, receber uma mensagem e responder sem tocar em nenhuma tela. A IA não é o destino dessa transformação. Ela é a interface que pode tornar os óculos utilizáveis.

Essa talvez seja a mudança mais profunda. O computador pessoal nos ensinou a digitar. O mouse nos ensinou a clicar. O smartphone nos ensinou a tocar. Os próximos dispositivos podem simplesmente nos permitir falar e olhar. A interação deixa de depender de uma tela para se tornar uma conversa contextual com a tecnologia. Se isso acontecer, a tela que carregamos no bolso começa a perder parte de sua importância, porque muitas tarefas deixam de exigir que paremos aquilo que estamos fazendo para operar um aparelho.

Isso não significa que o smartphone desaparecerá amanhã. O mercado ainda movimenta mais de um bilhão de aparelhos por ano e nenhuma categoria de óculos se aproxima dessa escala. Existem problemas importantes de bateria, peso, preço, design, qualidade das telas e, principalmente, privacidade. Uma câmera posicionada permanentemente no rosto levanta questões que a indústria ainda precisará responder: quando ela está gravando, quem está sendo registrado, onde esses dados são armazenados e como as pessoas ao redor saberão quando o dispositivo está ativo. A morte do smartphone, portanto, não deve ser tratada como previsão, mas como uma possibilidade tecnológica que começa a ganhar elementos concretos.

Aliás, talvez o smartphone não morra de uma vez. Pode morrer aos poucos. O relógio inteligente já retirou dele algumas notificações. Os fones assumiram música, chamadas e comandos de voz. Os óculos podem absorver navegação, fotografia, comunicação, tradução e acesso a informações. O telefone permaneceria no bolso, funcionando inicialmente como bateria, conexão e capacidade computacional para dispositivos distribuídos pelo corpo. Até que, em algum momento, percebamos que aquela tela que já foi o centro absoluto da nossa vida digital passou boa parte do dia sem ser utilizada.

Foi exatamente assim que muitas tecnologias desapareceram. Não porque alguém anunciou sua morte, mas porque gradualmente deixamos de precisar delas. Câmeras compactas, aparelhos de GPS, tocadores de MP3, agendas eletrônicas e tantos outros dispositivos não foram simplesmente destruídos pelo smartphone. Suas funções foram absorvidas por uma interface melhor. Agora, pela primeira vez em quase duas décadas, começa a surgir uma candidata capaz de fazer o movimento inverso: absorver funções do próprio smartphone.

É por isso que os números dos óculos inteligentes merecem atenção. Crescimentos de três dígitos ainda partem de uma base pequena e precisam ser observados com cautela. Mas, quando são acompanhados por milhões de unidades comercializadas, entrada de grandes fabricantes, marcas tradicionais de moda e investimentos de empresas como Meta, Google e Samsung, deixam de representar apenas uma curiosidade tecnológica. Começam a indicar a formação de um novo mercado.

Em 2007, Steve Jobs colocou a internet em nossas mãos e ensinou bilhões de pessoas a tocar em uma tela. Quase vinte anos depois, talvez a próxima grande reinvenção da computação pessoal seja exatamente o contrário: tirar a tela das nossas mãos. Se os óculos inteligentes conseguirem combinar design, conectividade e uma interface conversacional suficientemente natural, o sucessor do smartphone talvez não seja outro aparelho que carregaremos no bolso.

Talvez seja algo que simplesmente colocaremos no rosto pela manhã e esqueceremos que estamos usando.

E, quando isso acontecer, talvez não seja necessário decretar a morte do smartphone.

Bastará perceber que paramos de olhar para ele.

Código Aberto. Decodificando o Futuro.

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Harlen Duque

CEO Sucesu Nacional e líder em transformação Digital na Wblio , especialista em transformação de negócios pela Stanford University , piloto de automobilismo virtual e um apaixonado pela cultura de inovação.

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