A política mineira tem dessas coisas, quando parece que uma porta se fechou, alguém deixa uma fresta aberta. Quando um nome é descartado publicamente, ele continua sendo cochichado nos bastidores. Quando uma candidatura parece enterrada, aparece um interlocutor dizendo: “calma, ainda não acabou”.
É exatamente esse o clima no tabuleiro da sucessão estadual em Minas Gerais.
A esquerda quer um nome para chamar de seu
No campo da esquerda e da centro-esquerda, a declaração do presidente nacional do PT, Edinho Silva, de que Rodrigo Pacheco não quer mais ser candidato ao governo de Minas não encerrou completamente o assunto. Pelo menos não nos bastidores petistas de Minas. Em conversas com integrantes da executiva estadual do partido, ainda existe a avaliação de que Pacheco permanece como uma possibilidade remota, difícil, talvez improvável, mas ainda tratada como uma alternativa a ser mantida viva.
É a velha política mineira no seu estado mais puro, ninguém fecha a porteira antes de ver se o gado não está no curral.
Rodrigo Pacheco continua sendo, para setores da esquerda e da centro-esquerda, o nome mais competitivo para organizar um palanque amplo em Minas. Tem trânsito institucional, moderação, presença nacional e capacidade de conversar com setores que o PT sozinho dificilmente alcançaria. O problema é que Pacheco, até aqui, tem dado sinais de que não quer entrar nessa disputa. E política tem dessas coisas. O partido quer, aliado insiste, presidente pressiona, mas candidato que não quer ser candidato costuma ser um problema maior do que solução.
Ainda assim, a esquerda não trabalha com uma única ficha. O PT e seus aliados seguem flertando com todos os nomes possíveis e disponíveis. Rodrigo Pacheco segue no radar. Jarbas Soares também aparece como alternativa. Alexandre Kalil nunca desaparece completamente do imaginário político mineiro, mesmo quando parece distante. Gabriel Azevedo, com sua candidatura já colocada em outro campo partidário, também é observado nesse ambiente de dispersão, cálculo e tentativa de sobrevivência eleitoral.
O ponto central é simples: a esquerda mineira ainda não encontrou um nome capaz de unir desejo, viabilidade, estrutura e competitividade. Tem nomes. Tem conversas. Tem sondagens. Tem cenários. O que ainda falta é o principal: uma candidatura com cara de projeto.
Mas a Copa vem aí
Enquanto isso, a Copa do Mundo chega como uma espécie de intervalo providencial. A bola começa a rolar em 11 de junho e a final está marcada para 19 de julho. Nesse período, o país troca o palanque pela televisão, o cafezinho político pelo bolão, e os bastidores entram no famoso banho-maria. Ninguém deixa de conversar, é claro. Política não tira férias, apenas muda de mesa. Mas o ritmo diminui, a pressão pública baixa e as decisões tendem a ser empurradas para depois do apito final.
Depois da Copa, em meados de julho, o caldeirão volta a ferver. E aí os partidos terão menos tempo para tergiversar, menos espaço para ensaios e mais necessidade de escolher caminho.
E a direita?
Na direita, o cenário também está longe de estar resolvido. O PL, que vinha orbitando em torno da possibilidade de composição com Cleitinho Azevedo, agora volta a aquecer o nome de Vittorio Medioli, ex-prefeito de Betim, empresário conhecido e figura de peso na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
Medioli tem perfil empresarial, experiência administrativa e capilaridade em uma cidade estratégica. Seu nome agrada a setores do PL que buscam uma candidatura com musculatura administrativa e capacidade de dialogar com o eleitorado de direita sem depender exclusivamente da lógica das redes sociais. Mas há um obstáculo importante, dentro da própria família de Medioli haveria resistência à candidatura ao governo. E em política, família contrária não é detalhe doméstico; pode ser freio de mão puxado.
Mesmo assim, o nome voltou a circular com força. O PL sabe que precisa de um cabeça de chapa capaz de sustentar a disputa estadual, negociar alianças, bancar palanque nacional e conversar com o bolsonarismo sem se limitar a ele. Medioli pode ser esse nome? É o que setores do partido tentam avaliar.
E Cleitinho?
Aí está uma das maiores interrogações do momento. Publicamente, o senador segue postando vídeos dizendo que é mais candidato do que nunca. Mas, segundo relatos de bastidores, ele já teria comunicado a pessoas próximas e ao PL que não pretende disputar o governo. A equação, nesse caso, mudaria completamente: Cleitinho deixaria de ser o possível cabeça de chapa e passaria a ser um ativo eleitoral de apoio, talvez indicando o vice, talvez funcionando como fiador popular de uma candidatura construída pelo PL.
Essa movimentação faz sentido dentro da lógica política. Cleitinho tem capital eleitoral, linguagem direta, presença digital e uma base fiel. Mas disputar o governo de Minas é outra prateleira. Exige estrutura, programa, alianças regionais, tempo de televisão, palanque municipal, capacidade de compor com grupos muito diferentes e disposição para enfrentar a máquina pesada da política estadual.
A dúvida é se Cleitinho quer transformar popularidade em candidatura majoritária ou se prefere preservar o mandato, manter o protagonismo nacional no Senado e influenciar a eleição sem carregar sozinho o peso da disputa.
E aí, como é que fica?
O que se desenha, portanto, é um cenário de suspensão. A esquerda ainda não desistiu completamente de Pacheco, mas procura alternativas. A direita ainda não definiu se aposta em Cleitinho, Medioli ou em uma composição que una força eleitoral, estrutura partidária e palanque nacional.
Minas chega à Copa como chega muitas vezes aos grandes momentos políticos: cheia de versões, cheia de cautela, cheia de conversas reservadas. Aqui, ninguém atravessa a rua sem olhar para os dois lados, e, se possível, sem avisar para onde está indo.
Durante a Copa, os bastidores devem esfriar. Mas esfriar, em política, não significa congelar. Significa apenas cozinhar em fogo baixo. Depois do Mundial, quando o país guardar as camisas, desmontar os telões e voltar a olhar para a vida real, a sucessão mineira voltará ao centro da cena.
E aí, sim, será preciso separar desejo de realidade, blefe de projeto, sondagem de candidatura.
Até lá, Minas segue no seu velho e conhecido compasso: um pé no silêncio, outro no cochicho. A política mineira não grita antes da hora. Ela sussurra. Mas, quando decide falar alto, costuma mudar o rumo do jogo
