PUBLICIDADE
CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Quando uma cidade vira rio, não é ‘surpresa’, é retrato da realidade

Siga no

(Foto: Reprodução/Redes Sociais)

Compartilhar matéria

A noite de ontem, 29 de janeiro de 2026, entregou a Belo Horizonte aquele tipo de lembrança que a gente queria apagar com pano de chão, mas não dá: temporal forte, concentrado, com vento, granizo e a velha coreografia dos alagamentos. Segundo registro noticioso, a chuva passou de 51 mm no fim da tarde/início da noite e veio acompanhada de rajadas de até 52,2 km/h.

O estrago visível foi imediato: motorista ilhado, carro submerso, rua virando corredeira. E teve um capítulo que BH conhece bem: árvore no chão. Em pouco mais de uma hora, o Corpo de Bombeiros registrou ao menos 16 quedas de árvores entre 18h e 19h15. Na prática, a cidade perdeu, por alguns minutos, a diferença entre avenida e córrego.

O poder público reagiu, mas reação não é prevenção

No calor do momento, houve medida correta: bloqueio de trechos de avenidas por risco de transbordamento de córregos. É o tipo de decisão que salva vidas, evita imprudência alheia e reduz o estrago.

Só que esse é o ponto: bloquear avenidas durante o risco é remédio de urgência. Necessário, sim. Mas é o SUS do asfalto: atende o trauma, não resolve a causa.

Porque a pergunta que BH se faz todo verão não é “vai chover?”. A pergunta é: por que a cidade continua se comportando como se chuva forte fosse evento raro, quando janeiro sempre diz o contrário?

Janeiro já “passou do ponto”

Dados da Defesa Civil mostraram que, ainda na manhã de 23 de janeiro, a Regional Oeste já somava 402,4 mm, ou 121,6% do volume esperado para o mês; e a média histórica de janeiro em BH é de 330,9 mm. Ou seja: antes mesmo do mês acabar, a cidade já estava operando acima do “limite de normalidade” que costuma usar como régua.

Isso não elimina a responsabilidade individual (ninguém deve atravessar rua alagada como quem atravessa a faixa de pedestre). Mas empurra a responsabilidade pública para o centro do palco: o excepcional virou frequente. E, quando isso acontece, plano de contingência deixa de ser documento, vira rotina.

“Mas a Prefeitura faz limpeza, faz obra…”

A PBH divulga ações robustas: fala em cerca de 100 mil limpezas de bocas de lobo e reforço em macrodrenagem, com limpeza de cursos d’água, como o Arrudas. Também há comunicado sobre mais de 81 mil limpezas de bocas de lobo e 39 obras de drenagem em 2025.

Isso é trabalho real. O problema é outro: o cidadão não sente “número”, sente resultado. Se os mesmos pontos seguem virando piscina, se as mesmas vias viram armadilha, se o mesmo córrego dá susto no mesmo lugar, então a cidade está gastando energia, e dinheiro, sem conseguir quebrar o ciclo.

BH precisa tratar chuva como política pública permanente, e não como temporada de série que volta todo ano com o mesmo roteiro.

O que faltou, e o que precisa virar prioridade

Prevenção com nome, sobrenome e mapa público


BH precisa de um painel simples e atualizado: quais são os pontos críticos, qual obra está prevista, prazo, custo e responsável. Sem isso, a cidade vive de boato e “promessa de verão”.

Microdrenagem com meta por regional (e auditoria social)


Limpeza de boca de lobo não pode ser manchete solta, tem que ser meta, cronograma e verificação. A população entende a planilha; o que não dá para entender é alagamento repetido.

Arborização: poda preventiva e manejo de risco


Dezesseis quedas em pouco mais de uma hora expõem a fragilidade. Árvore é patrimônio, mas árvore sem manejo é risco. A cidade precisa tratar isso como segurança urbana, com prioridade para vias de grande fluxo e áreas historicamente afetadas.

Cidade-esponja: menos cimento, mais inteligência


Há iniciativas em debate e financiamento público falando em jardins de chuva, asfalto permeável, bueiros inteligentes e outras medidas de adaptação. Isso não é perfumaria: é infraestrutura do século XXI. BH não vai vencer a chuva no grito, vai conviver com ela com engenharia, permeabilidade e planejamento.

Comunicação de risco que chegue antes do susto


Bloquear avenidas é certo. Mas o ideal é que o cidadão saiba por que, quando, qual alternativa e qual comportamento evitar, antes de ficar ilhado.

Chuva forte não é desculpa; é teste

O temporal de ontem foi um teste de estresse. E o resultado foi aquele boletim que constrange, a cidade reagiu, mas continua devendo prevenção estrutural. A Prefeitura não precisa prometer que nunca mais vai alagar, isso é propaganda. Precisa prometer e cumprir algo mais sério. Reduzir a reincidência, dar previsibilidade, cortar risco e mostrar serviço com transparência.

Porque, no fim, a chuva passa. O prejuízo fica. E a sensação também: a de que, em Belo Horizonte, o verão ainda manda mais do que a Prefeitura, quando deveria ser o contrário.

Compartilhar matéria

Siga no

Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

Webstories

Mais de Entretenimento

Mais de 98

Patrocínio é bom. O retorno, enorme. E a conta chama atenção

Gratidão, submissão e a ‘cilada’ da direita: Kassab fala por Tarcísio, Tarcísio fala por Bolsonaro

Pacheco no União Brasil? O raciocínio não fecha

Orelha e o país sem limite

Fórum Econômico Mundial, Davos 2026 e o Agronegócio

Quando a caminhada incomoda mais do que a corrupção

Últimas notícias

Burger King dará sanduíche de graça a quem tiver o app da Serasa; veja endereços em BH

Maxiane vence Prova do Líder e assume primeira liderança feminina do BBB 26

Slash confirma que próximo álbum do Guns N’ Roses terá apenas músicas inéditas

Presidente Lula faz cirurgia de catarata e recebe alta hospitalar

Carnaval 2026: 3 segredos para uma maquiagem resistente ao sol e à chuva na folia

Igreja São José, no Centro de BH, é palco de casamento exibido em reality show da Netflix

VÍDEO: Morador de rua conta como ajudou vítima em temporal em BH

Bombeiros iniciam retirada de árvore que caiu na avenida Nossa Senhora do Carmo, em BH

Chegada de ciclone extratropical aumenta alerta de temporais em Minas Gerais