Na política é assim. Se não tem assunto, nem anúncio, tem ruído. E ruído, quando encontra ressonância, pode virar informação, dessas tortas, confusas, que não aparecem sozinhas. Alguém divulgou. Alguém espalhou. E, no meio do caminho, a notícia errada ganha pernas, vira conversa séria, chega à mesa do café como se tivesse saído de ata e com carimbo.
Foi o que aconteceu quando alguns portais começaram a circular que Rodrigo Pacheco estaria articulando uma mudança de rota. Segundo esses meios existiria uma conversa com o PT, filiação ao MDB e candidatura ao governo de Minas. A história veio com aquele tempero clássico de bastidor quente, com reunião aqui, negociação ali, confirmação logo acolá. Só que o enredo começou a trombar com a realidade, e isso é importante, porque a realidade, em política, não é acessória. É essencial.
O MDB, em nota, negou a filiação. E não foi uma negativa genérica, dessas que deixam janela aberta para “mas vai que”. A executiva do partido em Belo Horizonte, domicílio eleitoral de Pacheco, disse com todas as letras: Pacheco não está se filiando.
O próprio Rodrigo Pacheco desmentiu pessoalmente os rumores. Eu mesmo tive acesso a uma mensagem do senador negando essa informação. E ele foi além: afirmou que não faria sentido se declarar candidato por uma legenda que já tem postulante ao cargo.
Daí a cena está montada: se o partido diz “não” e o próprio interessado diz “não”, por que o assunto insiste em dizer “sim”?
Porque a pergunta central não é: Pacheco vai ou não vai. A pergunta é outra, muito mais reveladora. A quem interessa parecer que Pacheco vai para o MDB?
Em política, boato raramente é órfão. Ele tem padrinho. Às vezes, tem até herança.
O primeiro interessado: o PT e a urgência de um desenho eleitoral
O primeiro interessado possível é o PT, que está sob pressão para fechar um desenho eleitoral em Minas. Em meio à pressão interna, o presidente nacional do partido, Edinho Silva, que estaria em Belo Horizonte, cancelou a agenda. E na pauta de Edinho estavam reuniões para discutir articulações e estratégias eleitorais.
Isso não é detalhe. Isso é sintoma.
Traduzindo sem rodeios. Quando um partido ainda não tem um caminho limpo e um nome redondo na pista, ele busca gravidade política. Busca alguém que organize o debate, atraia alianças, gere expectativa. Mesmo que a expectativa não vire candidatura, ela já serve para mover peças. Serve para testar reações, medir rejeição, estimular conversas que estavam emperradas e, principalmente, para não parecer parado enquanto os outros já estão correndo.
Numa disputa de governo, ficar sem enredo é morrer por inanição. Então, criar a sensação de que há um nome grande em negociação é, muitas vezes, uma maneira de dizer que tem jogo, tem movimento, tem rumo. Mesmo que ainda não tenha.
O segundo interessado: quem quer tumultuar o MDB
O segundo interessado são os que querem tumultuar e criar confusão no MDB.
Porque o MDB não é mesa de bar onde se muda o combinado depois do segundo chope. O partido tem candidato, tem campanha em andamento, tem direção, tem estrutura. Plantar a tese do nome inevitável é um jeito eficiente de provocar ruído, gastar energia, dividir foco e obrigar a legenda a ficar reagindo, explicando, desmentindo, em vez de pautar, avançar e consolidar.
Ruído tem uma maldade específica. Ele não precisa vencer o argumento. Ele só precisa atrasar a agenda. Basta fazer o partido virar refém da própria defesa. E isso, em política, custa caro.
O terceiro interessado: adversários do próprio Pacheco
O terceiro interessado possível são adversários do próprio Pacheco.
Inflar uma candidatura com boatos pode ser uma armadilha. Você coloca o cara no centro do ringue antes da hora, obriga desmentido, cobra posição, cria atritos com aliados, eleva o custo político sem que ele tenha escolhido pagar. Tem gente que perde eleição no aquecimento. E tem gente que perde capital político só por ter sido empurrada para o palco cedo demais.
A antecipação pode ser um tipo de envenenamento sutil. Obriga o sujeito a gastar tempo explicando o que não é, enquanto os adversários constroem o que é. E, quando você passa tempo demais desmentindo, você fica com cara de quem está sempre devendo explicação, mesmo quando não deve nada.
O quarto interessado: os feiticeiros profissionais do bastidor
E tem o quarto interessado, o mais discreto e, muitas vezes, o mais eficiente: os feiticeiros profissionais do bastidor.
A turma que vive de fabricar clima. Não entrega fato, entrega tendência. Não entrega fato, entrega fonte. E quando a história pega, mesmo desmentida, vira moeda, rende espaço, rende telefonema, rende proximidade, rende poder.
Esse pessoal não precisa que o boato seja verdadeiro. Precisa ser publicável. Precisa que pareça plausível. Precisa que gere conversa. Porque conversa abre portas, portas abrem negócios, e negócios, na política, quase nunca têm recibo.
E o MDB, por dentro, como reage?
Eu conversei com Gabriel Azevedo, pré-candidato do MDB ao governo, que está em Viçosa na sua pré-campanha, e ele se disse surpreso com a notícia. Nas palavras de Gabriel, o senador Pacheco é um amigo, com quem mantém excelentes relações políticas. E ele acrescenta um dado que expõe o contraste entre a cordialidade e a especulação. “Passado o período eleitoral, como presidente regional do MDB em Belo Horizonte, faço questão de estabelecer conversas com Pacheco para sua filiação ao MDB, por tratar-se de um excelente quadro partidário.”
Ou seja. há respeito, há ponte, há diálogo possível. Mas isso é muito diferente de vender como certo um roteiro pronto de filiação imediata e candidatura ao governo. Uma coisa é considerar Pacheco um bom quadro. Outra, completamente diferente, é dizer que ele vai entrar no partido para disputar o cargo que já tem postulante.
A política real tem ritmo, tem rito, tem custo. O boato, não. O boato é atalho, e atalhos quase sempre servem a quem está com pressa.
O que sobra quando a negação vem do partido e do protagonista?
O ponto central é: se o MDB nega e Pacheco desmente pessoalmente, o que sobra?
Sobra a fumaça cumprindo sua função. Testar terreno, pressionar atores, criar sensação de inevitabilidade e abrir caminho para um PT que precisa de desenho e para adversários que precisam de confusão.
E sobra também uma reflexão incômoda. Quando a política resolve virar truque, ela não usa cartola, usa jornalistas a favor da desinformação. Porque, no fim do dia, o boato só vira fato social quando encontra quem publique, quem replique, quem empacote e venda como bastidor.
E quando o desmentido vem do partido e do próprio protagonista, fica claro que o feitiço não é para revelar a verdade. É para embaralhar o tabuleiro.
E aí volta a pergunta que vale ouro, simples, direta, cortante como faca de cozinha.
Quem está assoprando a brasa, pra fogueira acender?
