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Automóveis: montar no Brasil ou fabricá-los?

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Por trás das cifras bilionárias e dos argumentos eloquentes, o que está em jogo é o modelo de país que queremos construir (Arquivo EBC)

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O que parecia uma disputa técnica entre a BYD e a Anfavea, sobre a alíquota de importação de kits para montagem de veículos elétricos, revelou-se, na verdade, uma radiografia incômoda da insegurança industrial brasileira. Por trás das cifras bilionárias e dos argumentos eloquentes, o que está em jogo é o modelo de país que queremos construir: um centro de produção com musculatura tecnológica ou um entreposto para simplesmente parafusar o que chega pronto do exterior.

De um lado, a gigante chinesa BYD, que entrou no Brasil como um furacão elétrico: promessa de fábrica em Camaçari, 10 mil empregos, 150 mil carros por ano, preços competitivos e o sonho verde embalado em baterias de lítio. Do outro, as tradicionais montadoras — VW, GM, Stellantis e Toyota — representadas pela Anfavea, argumentando, com razão, por previsibilidade regulatória, cadeia de fornecedores e manutenção dos investimentos no país.

A disputa se acirrou quando a BYD pleiteou a redução temporária das alíquotas para importação de kits SKD (semi-desmontados) e CKD (completamente desmontados): de 18% para 5% nos veículos elétricos e de 20% para 10% nos híbridos. A Anfavea respondeu com veemência: uma carta aberta ao governo alertando que essa proposta colocaria em risco até R$ 180 bilhões em investimentos até 2030, inclusive 50 mil empregos e toda uma cadeia produtiva nacional.

Camex decide: recusa parcial e meio-termo duro

Nesta quarta-feira, 30 de julho, o Comitê Executivo de Gestão da Camex (Gecex) posicionou-se contra o pleito integral da BYD: não aceitou reduzir integralmente as tarifas sobre carros desmontados vindos da China para montagem no Brasil.

O governo concedeu uma cota de US$ 463 milhões para importação de kits com tarifa zero por seis meses, atendendo parcialmente ao pleito, embora a BYD tivesse pedido isenção por US$ 2 bilhões em 12 meses.

Antecipou para janeiro de 2027 (em vez de julho de 2028) a aplicação da alíquota máxima de 35% sobre a importação de kits desmontados CKD/SKD e manteve a previsão de 35% para elétricos importados já montados, com vigência a partir de julho de 2026.

A BYD reage, acusando as montadoras tradicionais de armarem uma “chantagem emocional com verniz corporativo”, enquanto afirmava trazer ao Brasil uma revolução de preços justos e tecnologia acessível à classe média. A empresa sustenta que a redução pleiteada seria transitória enquanto sua fábrica em Camaçari alcança escala com maior nacionalização de componentes.

Por outro lado, as montadoras tradicionais e os governadores de seis estados (SP, MG, RS, SC, PR, RJ) enviaram cartas públicas afirmando que o benefício à BYD representaria risco de desemprego, desequilíbrio comercial e dependência tecnológica, comprometendo investimentos e fornecedores locais.

A decisão da Camex buscou impedir a desindustrialização puramente por montagem. A cota temporária concede fôlego à BYD, sem comprometer totalmente a política de industrialização nacional. A antecipação da tarifa máxima responde à pressão da Anfavea por continuidade do modelo produtivo brasileiro, mas não resolve o cerne da questão: falta ao país um plano industrial robusto, com metas claras de eletrificação, inovação e exportação. Enquanto isso, representantes do setor cobram previsibilidade e condições isonômicas para todos os players.

Mais do que escolher entre BYD ou GM, o Brasil está diante de uma decisão estratégica: ser protagonista da revolução automotiva ou apenas palco da montagem de importados. Cada carro produzido gera até 10 empregos indiretos, enquanto a montagem pura gera dois ou três. Esse é o nó central da disputa: proteger a base industrial ou acelerar um modelo dependente?

O fio é tênue. Conceder demais pode enterrar décadas de industrialização; resistir demais pode fechar a porta a investimentos verdes. A chave está na clareza estratégica: fugir de medidas paliativas e investir num plano industrial moderno, capaz de atrair montadoras e fortalecer fornecedores.

O Brasil merece mais do que escolher entre extremos. Merece liderar essa transição com as mãos sujas de graxa local, não apenas o brilho de vitrines importadas.

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Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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